Leitura obrigatória da FGV 2016 – edições recomendadas


A Fundação Getúlio Vargas fixou uma lista de dez obras obrigatórias para a prova de Literatura do Vestibular.

Atenção: clique aqui para ver a lista de 2017.

Para um melhor rendimento dessas leituras, é importante ter em mãos as melhores edições, isto é, aquelas acompanhadas de estudos introdutórios, análises e notas de rodapé explicativas do vocabulário, do texto em si, do contexto histórico e das referências culturais presentes em cada obra. Infelizmente, dos dez livros escolhidos, apenas alguns estão disponíveis em edições que preenchem esses requisitos. Elencamos a seguir as melhores edições das obras exigidas:

MEMÓRIAS DE UM SARGENTO DE MILÍCIAS, de Manuel Antonio de Almeida, O CORTIÇO, de Aluísio Azevedo,  O ATENEU, de Raul Pompeia, DOM CASMURRO, de Machado de Assis. Essas quatro obras estão no catálogo da Ateliê Editorial. São, indiscutivelmente, as melhores edições já publicadas desses livros. Cada obra é precedida de uma alentada análise e as notas de rodapé são minuciosas e elaboradas com extremo cuidado. A coleção da Ateliê é coordenada, vale lembrar, por uma respeitável equipe de professores da USP e da UNICAMP. Existe também uma edição d’O ATENEU lançada pela Penguin & Cia. das Letras. Esta edição traz um breve estudo introdutório e uma ótima análise do poeta José Paulo Paes sobre as caricaturas criadas por Raul Pompéia para acompanhar o texto.

SÃO BERNARDO, de Graciliano Ramos. A edição atual, a 94a., da Record, é acompanhada de um posfácio assinado por Godofredo de Oliveira Neto.

É um texto breve que não aprofunda a análise. Mas a própria editora Record já publicou uma edição de melhor qualidade, com um posfácio intitulado  O MUNDO À REVELIA, do Professor João Luiz Lafetá. Essa edição também está fora de catálogo, mas pode ser encontrada facilmente na Estante Virtual (www.estantevirtual.com.br). É a edição cuja capa é bicolor (alaranjada no alto e azul na parte inferior).
A ROSA DO POVO, de Carlos Drummond de Andrade. Há duas edições disponíveis no mercado. Uma é a da Cosacnaify, intitulada DRUMMOND – POESIA 1930-1962. Trata-se de uma edição de luxo onde está reunida a produção poética de Drummond entre 1930 (ALGUMA POESIA) e 1962 (LIÇÃO DE COISAS). Lembremos que A ROSA DO POVO foi editado em 1945. A referida edição possui uma apresentação do organizador, Júlio Castañon Guimarães. As informações, no entanto, são apenas de natureza técnica e voltadas para os critérios de compilação dos livros, não apresentando nenhuma análise mais significativa do conteúdo dos poemas. A outra edição (recomendada) é a da Companhia das Letras, com um posfácio de Antonio Carlos Secchin. Não se trata de uma análise de fôlego dos poemas, mas é a única edição do livro lançada até hoje acompanhada de um estudo crítico.

MORTE E VIDA SEVERINA (AUTO DE NATAL PERNAMBUCANO), de João Cabral de Melo Neto. A edição disponível no mercado é a da Alfaguara. Traz apenas o texto de Cabral, sem qualquer estudo ou notas explicativas. Há várias outras edições facilmente encontráveis em sebos e sites, todas igualmente desprovidas de análises. Existe, ainda, a edição de luxo em volume único, da Nova Aguilar, das OBRAS COMPLETAS DE JOÃO CABRAL DE MELO NETO. Esta edição apresenta uma visão de conjunto da obra cabralina assinada por Marly de Oliveira. Mas não há nenhuma análise específica de MORTE E VIDA SEVERINA.

MACUNAÍMA, de Mário de Andrade. A melhor edição é a da Coleção Archivos (resultante do projeto do escritor guatemalteco Miguel Ángel Asturias e realizada em parceria pelos governos da Argentina, Brasil, Espanha, França, Itália, México, Peru e Portugal), sob a coordenação da Professora Telê Ancona Lopes. Essa edição de luxo possui 589 páginas e traz, além do texto de Mário de Andrade,  todos os estudos mais importantes já publicados sobre MACUNAÍMA, aqui e no exterior. Está esgotada e é muito difícil de ser encontrada (eventualmente na Estante Virtual). Há também a edição crítica coordenada pela Professora Telê e editada pela LTC/Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia (pode ser encontrada também, eventualmente, na Estante Virtual). As outras inúmeras edições do livro não apresentam nenhum estudo mais acurado, mas são essas que estão disponíveis em livrarias e sebos.

SENHORA, de José de Alencar. Há várias edições disponíveis, mas nenhuma especial. As edições da FTD e da Ática trazem breves cronologias dos autores, análises sintéticas e uma rápida contextualização histórica. A edição de luxo das OBRAS COMPLETAS de José de Alencar lançada pela Nova Aguilar, apresenta estudos críticos de conjunto, mas não há nenhuma análise específica do respectivo romance.

CAPITÃES DA AREIA, de Jorge Amado. A melhor edição é a da Companhia das Letras, que arrola, no final, um breve estudo assinado por Milton Hatoum. Existe também uma edição (fora de catálogo mas facilmente encontrada em sebos e na www.estantevirtual.com.br) da Record. Esta edição não traz nenhum estudo crítico mas possui o charme de uma capa desenhada por Aldemir Martins.

Resumindo as indicações (agora por ordem cronológica):

1. MEMÓRIAS DE UM SARGENTO DE MILÍCIAS – Ateliê Editorial

2. SENHORA – Ática ou FTD

3. O ATENEU – Ateliê Editorial

4. O CORTIÇO – Ateliê Editorial

5. DOM CASMURRO – Ateliê Editorial

6. MACUNAÍMA – qualquer edição

7. CAPITÃES DA AREIA – Companhia das Letras

8. SÃO BERNARDO – Record (capa alaranjada e azul)

9. A ROSA DO POVO – Companhia das Letras

10. MORTE E VIDA SEVERINA – qualquer edição

ORDEM DE LEITURA DAS OBRAS

O aproveitamento das leituras não implica necessariamente uma ordem de leitura. Mas como os enredos de quase todos os livros é mais ou menos contemporâneo à época das respectivas publicações, a leitura em ordem cronológica pode aclarar o conjunto das obras exigidas. Vejamos então o ano da publicação e a época em que se dá a ação de cada enredo.

1. MEMÓRIAS DE UM SARGENTO DE MILÍCIAS (publicado entre 1852 e 1853). A ação acontece “no tempo do rei”, ou seja, no reinado de D. João VI (1808-1821). Leonardinho nasceu alguns meses depois que Leonardo e Maria da hortaliça aportaram no Brasil, em 1808. Como Leonardinho, filho da pisadela e do beliscão trocados entre os dois portugueses a bordo do navio, se casa no final da história, deduzimos que a narrativa, malgrado as insistências do narrador em se referir ao tempo do rei, avança um pouco para os primeiros anos da década de 1820.

2. SENHORA (publicado em 1875). No capítulo II da Quarta Parte (“Resgate”) do romance, o narrador observa que entre nós [brasileiros] “há moda para tudo nos salões; menos para as letras pátrias”. Em seguida, refere que alguém, num salão, perguntara recentemente se os convidados já tinham lido DIVA, que é um romance do próprio José de Alencar e foi lançado em 1864. Portanto, é possível situar a ação de SENHORA por volta do início dos anos de 1860. A ação principal (isto é, enriquecimento de Aurélia e sua vingança contra a sociedade que a humilhou), ocorre no início da década de 1860. Mas na obra há (em segundo plano) vários flashbacks (quando o narrador explica as condições em que Aurélia veio ao mundo) que recuam a narrativa para mais ou menos duas décadas.

3. O ATENEU (publicado em 1888). O protagonista do romance é Sérgio, alter ego do autor, Raul Pompéia (1863-1895). Em 1888 Pompéia tem 25 anos de idade. E o narrador recria a experiência traumática vivida por volta dos onze anos, quando estudante n’ O ATENEU (transfiguração, na verdade, do colégio Abílio, no Rio de Janeiro, onde o autor fora aluno interno). A ação situa-se, portanto, por volta de 1873-74.

4. O CORTIÇO (publicado em 1890). O arrivista João Romão engana Bertoleza com uma falsa carta de alforria. Considerando-se que esse tipo de documento era comprado pelos escravos para obterem a liberdade, podemos localizar a ação d’O CORTIÇO num período ligeiramente anterior à Abolição. A ação acontece, portanto, em meados da década de 1880.

5. DOM CASMURRO (publicado em 1899). O narrador-personagem e pseudo-autor de suas memórias é Bentinho, que afirma, logo no início do seu relato, ter completado 52 anos. Ao longo do romance são referidos vários acontecimentos que coincidem com as décadas que antecederam a publicação do romance, o que permite situá-los entre meados e o final do século XIX.

6. MACUNAÍMA (publicado no ano chave do Primeiro Tempo Modernista, 1928. É também o ano em que Tarsila do Amaral pintou o célebre ABAPORU, e o ano em que Oswald de Andrade lançou o MANIFESTO ANTROPÓFAGO, o mais importante texto teórico do Modernismo brasileiro. Essas obras compõem, portanto, a tríade dos referenciais maiores para a compreensão da revolução que o Modernismo significou na arte brasileira na década de 1920). MACUNAÍMA é uma rapsódia (fusão de lendas e mitos reelaborados a partir de uma matriz comum, isto é, a cultura da região amazônica) e, ao apropriar-se do lendário e do mítico, não apresenta preocupação com a verossimilhança. Por isso, as noções de tempo e espaço são frequentemente vagas. No entanto, o deslumbramento do herói, ao chegar à cidade macota de São Paulo, com os edifícios, os automóveis, os anúncios luminosos e tantos outros referenciais da urbe, bem como várias informações sobre o imigrante italiano, permitem situar a narrativa na segunda metade da década de 1920, em plena efervescência modernista. Não só no plano estético, mas também das significativas transformações econômicas pelas quais o Brasil atravessava naquele momento, tendo como centro irradiador a cidade de São Paulo.

7. CAPITÃES DA AREIA (publicado em 1937). No último capítulo do romance o narrador informa que “no ano em que foi todo ele uma noite de terror”, os jornais clandestinos clamavam pela liberdade de Pedro Bala, que estava preso numa colônia penal. O ano do terror, em que “todas as bocas foram impedidas de falar” é o ano de 1937, quando foi decretada a ditadura do Estado Novo. Pedro Bala é um jovem líder trabalhista seguindo as pegadas do pai, que morrera “em 191…”, referência aos movimentos grevistas do final da década de 1910. É possível, portanto, situar a ação de CAPITÃES DA AREIA entre o final da década de 1910 e 1937.

8. SÃO BERNARDO (publicado em 1934). Na abertura do capítulo 3 do romance, o narrador-personagem Paulo Honório esclarece que completou “cinquenta anos pelo São Pedro”. O texto apresenta várias referências à Revolução e Paulo Honório insiste ser perigoso para uma mulher não ter religião. A ação se dá, portanto, mais ou menos entre 1880 e 1930. Há muitas recordações, o passado (tempo do enunciado) sempre salta em meio ao tempo da enunciação (tempo da escritura), mas predominam os acontecimentos referentes às diversas crises enfrentadas pelo narrador-personagem no presente (tempo da enunciação), como homem maduro, solitário e desorientado. Em outras palavras: os anos mais recentes de sua vida pesam mais, de modo que é possível afirmar que a ação se desenvolve sobretudo ao longo da década de 1920. De resto, Paulo Honório informa que os empregados da fazenda o abandonaram para integrar as forças revolucionárias, numa clara alusão à Coluna Prestes, que se embrenhou pelo Nordeste em fins da década de 1920.

9. A ROSA DO POVO (publicado em 1945). Não há enredo, obviamente, pois trata-se de um livro de poemas. Carlos Drummond de Andrade publicara SENTIMENTO DO MUNDO em 1940 e JOSÉ em 1942. As temáticas dos poemas d’A ROSA DO POVO não deixam dúvida: a Segunda Guerra Mundial, os totalitarismos, a barbárie e o Holocausto atravessam o livro de ponta a ponta. O contexto histórico é explicitamente a sombria primeira metade da década de 1940.

10. MORTE E VIDA SEVERINA (AUTO DE NATAL PERNAMBUCANO). Lançado em 1956, esse poema dramático (no qual se fundem técnicas dos autos populares medievais com a literatura de cordel) não explicita datas. De forma genérica, trata do drama do retirante nordestino, o qual pode ser situado ao longo de qualquer década do século XX. Sabemos, no entanto, por informações extra texto, a partir de declarações do próprio autor, que ele retrata uma realidade coincidente com a época em que o texto foi lançado. Numa entrevista concedida a Lula Costa Pinto, em 1991, João Cabral de Melo Neto informa que quando era cônsul-geral do Brasil em Barcelona (na década de 1950) lera numa revista que a expectativa de vida na Índia era de 29 anos, um ano a mais que no Recife, onde a média ficava em torno de 28 anos. Esse dado estatístico, segundo o autor, foi um dos motivos decisivos que o levou a escrever o auto.

FILMES SOBRE AS OBRAS

Há filmes realizados a partir de SENHORA, O CORTIÇO, MACUNAÍMA, CAPITÃES DA AREIA, SÃO BERNARDO e MORTE E VIDA SEVERINA.

SENHORA (1976), dirigido por Geraldo Vietri, e O CORTIÇO (1978), dirigido por Francisco Ramalho Júnior, e CAPITÃES DA AREIA (2011), de Cecília Amado, são filmes ruins e que não acrescentam nada à compreensão das respectivas obras. Sua eventual utilidade não se estende para além da fixação de alguns personagens e alguns dados do enredo.

MACUNAÍMA (1969), de Joaquim Pedro de Andrade, é um dos melhores momentos do cinema nacional. O livro de Mário de Andrade seria um desafio para qualquer diretor, pois a quantidade e a complexidade de informações é muito grande. Joaquim Pedro soube contornar a dificuldade escolhendo algumas cenas chaves, às quais misturou sua fantasia e elementos da antropofagia oswaldiana. O resultado foi a feliz captação da essência do livro. Trata-se, no entanto, de um filme complexo e não adianta assisti-lo sem ter uma orientação a partir do livro. O melhor texto da fortuna crítica existente sobre MACUNAÍMA é o livrinho O TUPI E O ALAÚDE, de Gilda de Mello e Souza. É o texto ideal para orientação da leitura da rapsódia e da apreciação do filme.

A edição do dvd (lançado pela extinta Videofilmes) está esgotada. Mas o selo BRETZ FILMES está relançando o catálogo da Videofilmes, de modo que o filme pode surgir a qualquer momento no mercado. A edição da Videofilmes é acompanhada de um libreto e de uma série de extras ao final do filme. A sugestão para um aproveitamento melhor do filme é a seguinte:

a) assista primeiro ao extra HELOÍSA BUARQUE DE HOLLANDA FALA DE MACUNAÍMA;

b) a seguir, veja o making of A RESTAURAÇÃO DIGITAL DE MACUNAÍMA;

c) na sequência, assista ao filme propriamente dito;

d) e depois assista ao extra BRASÍLIA, CONTRADIÇÕES DE UMA CIDADE NOVA. Este curta de 23 minutos foi “desaparecido” pelo regime militar e só muitos anos depois conseguiu-se recuperar uma cópia na França e assim reapresentá-lo ao público brasileiro. Embora o filme fale da cidade de Brasília, é muito interessante para se pensar, sob um outro ângulo, sobre o Brasil. Afinal, a coluna vertebral do texto de Mário de Andrade se organiza a partir das contradições do país, sintetizadas nas atitudes de Macunaíma.

e) Por último, você pode assistir à fala teatralizada de Paulo José, no extra PAULO JOSÉ, À MANEIRA DE MÁRIO DE ANDRADE.

SÃO BERNARDO (1971). Transposições da literatura para o cinema nem sempre são fáceis. A genialidade do texto original pode se perder numa adaptação descuidada. É o que tem ocorrido, infelizmente, com os geniais textos de Machado de Assis. Mas se há um autor cuja obra foi transposta com competência para as telas, esse autor é Graciliano Ramos. SÃO BERNARDO, VIDAS SECAS e MEMÓRIAS DO CÁRCERE são adaptações de alto nível. O filme SAO BERNARDO, dirigido por Leon Hirszman é um dos melhores momentos da história do cinema nacional. Há duas edições em dvd. Uma lançada pela Videofilmes (e esgotada; pode ser encontrada, eventualmente, para locação, nas lojas da VIDEOLOCADORA 2001, ou para compra no site do MERCADO LIVRE). É a mais luxuosa edição já lançada de um dvd nacional. Vem acompanhada de um libreto de 65 páginas no qual estão inclusos um artigo de Hélio Pellegrino (“São Bernardo: a voragem do triunfo vindicativo”), um texto publicado em 1973 na revista VISÃO (“Um momento de Razão”) e uma entrevista do diretor concedida a Paulo Emílio. O dvd traz ainda os curtas-metragens MAIORIA ABSOLUTA (acompanhado de dois esclarecedores artigos assinados por Arnaldo Jabor e Jean-Claude Bernardet) e CANTOS DE TRABALHO.
Recentemente o INSTITUTO MOREIRA SALLES lançou um box com os três filmes realizados a partir da obra de Graciliano Ramos. Em algumas lojas (como a Livraria Cultura), os filmes podem ser adquiridos de forma individualizada. Cada dvd vem acompanhado de um libreto de cerca de 30 páginas. A edição de SÃO BERNARDO traz um estudo excepcional assinado por José Carlos Avellar. O estudo é complexo e exige pelo menos umas duas leituras. Analisa essencialmente a linguagem do filme. Mas uma boa compreensão do filme complementa a compreensão do livro e vice-versa.

MORTE E VIDA SEVERINA. Há duas versões do filme. A primeira é de 1977 e foi dirigida por Zelito Viana. Muito bem realizada, capta com fidelidade as cenas fundamentais do auto, além de conseguir dar forma dramática aos versos que constituem o texto. Destaca-se no filme a brilhante atuação de Tânia Alves. Recentemente, Afonso Serpa criou uma animação a partir dos quadrinhos do chargista Miguel Falcão e do texto de João Cabral. Ao contrário do que em geral acontece com as animações brasileiras (diálogos ruins, exploração de estereótipos e muita falta de criatividade nos traços), esta animação é uma obra-prima. Narrada pelo talentoso Gero Camilo, concebida em austero preto e branco, é uma elaboração do mais elevado nív

el poético visual. Inteiramente fiel ao texto, o diretor insere apenas uma nota de sua lavra, um simpático gatinho que surge e desaparece em poucos segundos. Essa animação foi produzida pela Fundação Joaquim Nabuco e pela TV Escola. Infelizmente, não foi comercializada, tendo sido distribuída gratuitamente apenas para as escolas públicas. A versão está, no entanto, disponibilizada no you tube na íntegra (55min18s)

DISPONIBILIDADE DOS FILMES

Exceto O CORTIÇO, CAPITÃES DA AREIA e  SÃO BERNARDO, as edições em dvd de todos os outros estão fora de catálogo.

Podem ser encontrados, eventualmente, para compra, no site do MERCADO LIVRE, ou para locação em lojas como a VIDEOLOCADORA 2001.

O CPV disponibiliza para empréstimo gratuito para os seus alunos os dvds originais de: MACUNAÍMA (com o libreto), SÃO BERNARDO (as duas edições comentadas com os respectivos libretos) e MORTE E VIDA SEVERINA (a versão de Zelito Viana).

MÚSICAS

Existe uma composição de Martinho da Vila intitulada MEMÓRIAS DE UM SARGENTO DE MILÍCIAS. A letra da canção é uma síntese de alguns dados do enredo do livro. É uma obra bastante simples, sem qualquer elaboração maior e nada acrescenta ao livro.

Milton Nascimento compôs e gravou a canção O ATENEU. A composição sintetiza o ambiente opressor do colégio, a angústia e o desejo de liberdade, que culmina com o incêndio. Na letra, Milton inverte a ordem dos acontecimentos. A canção principia com a cena do incêndio.

Celso Viáfora e Vicente Barreto (autor de TROPICANA, gravada por Alceu Valença) compuseram uma excelente canção em 1998, intitulada A CARA DO BRASIL e gravada por Ney Matogrosso. A composição não se espelha diretamente em uma obra literária mas é, digamos, uma atualização do conteúdo de MACUNAÍMA. A letra (e a música) esbanjam criatividade, senso crítico e capacidade de estabelecer relações entre fatos e referenciais culturais brasileiros. Explora as dicotomias e contradições do Brasil. É, portanto, uma leitura atualizada de algumas questões centrais discutidas em MACUNAÍMA: o onipresente embate na cultura brasileira entre o arcaico e o moderno, o atraso e a tentativa de superá-lo, bem como a força que emana daquilo que teoricamente seriam as nossas limitações. Em suma, um país que, malgrado o cinismo histórico de suas elites e de seus políticos, sabe transformar suas carências em força inventiva. A letra dessa canção, vale lembrar, já foi, há alguns anos, o tema da redação do INSPER. Ei-la:

A CARA DO BRASIL  (Celso Viáfora / Vicente Barreto)

Eu estava esparramado na rede
Jeca urbanóide de papo pro ar
Me bateu a pergunta meio a esmo
Na verdade, o Brasil o que será?
O Brasil é o homem que tem sede
Ou o que vive da seca do sertão?
Ou será que o Brasil dos dois é o mesmo
O que vai é o que vem na contramão?
O Brasil é um caboclo sem dinheiro
Procurando o doutor nalgum lugar
Ou será o professor Darcy Ribeiro
Que fugiu do hospital pra se tratar?

A gente é torto igual Garrincha e Aleijadinho
Ninguém precisa consertar
Se não der certo, a gente se vira sozinho
Decerto então nada vai dar

O Brasil é o que tem talher de prata
Ou aquele que só come com a mão?
Ou será que o Brasil é o que não come
O Brasil gordo na contradição?
O Brasil que bate tambor de lata
Ou que bate carteira na estação?
O Brasil é o lixo que consome
Ou tem nele o maná da criação?
Brasil, Mauro Silva, Dunga e Zinho
Que é o Brasil zero a zero e campeão
Ou o Brasil que parou pelo caminho
Zico, Sócrates, Júnior e Falcão

A gente é torto…

O Brasil é uma foto do Betinho
Ou um vídeo da favela naval?
São os trens da alegria de Brasília
Ou os trens de subúrbio da central?
Brasil-Globo de Roberto Marinho?
Brasil-Bairro Garotos-Candeal?
Quem vê do Vidigal o mar e as ilhas
Ou quem das ilhas vê o Vidigal?
O Brasil alagado, palafita?
Seco açude sangrado, chapadão?
Ou será que é uma Avenida Paulista?
Qual a cara da cara da nação?

Observação: A CARA DO BRASIL foi gravada originalmente no álbum OLHOS DE FAROL (1998) e, posteriormente, em NEY MATOGROSSO VIVO (1999), ambos de Ney Matogrosso. A versão de 1998 apresenta uma qualidade sonora bem superior à do disco ao vivo. Assista no link abaixo:

http://www.youtube.com/watch?v=6gTE44hvfpk

BIBLIOGRAFIA

Indicamos, no início dessa chamada, as melhores edições das obras solicitadas pela FGV 2014. A maioria das edições apontadas traz ótimos estudos que orientam as leituras. Outros estudos abrangentes e consagrados pela crítica literária são:

MEMÓRIAS DE UM SARGENTO DE MILÍCIAS. O melhor estudo sobre o livro permanece o clássico “Dialética da malandragem”, de Antonio Candido, e que se encontra no livro O DISCURSO E A CIDADE, da editora Duas Cidades. Existe também o livro (em quadrinhos) Dom João VI do Brasil, de Lilia Moritz Schwarz e Staca.

SENHORA. Não há nenhum bom estudo resumido sobre o romance. Há uma análise profundíssima e de excepcional qualidade do romance, dentro de um viés sociológico, nos dois capítulos iniciais (“As ideias fora do lugar” e “A importação do romance e suas contradições em Alencar”) no livro AO VENCEDOR AS BATATAS, de Roberto Schwarz, editado pela Duas Cidades. Este estudo tem 60 páginas e apresenta uma terminologia técnica um tanto difícil para o estudante de segundo grau.

O ATENEU. Não há um estudo síntese do livro. Existem vários trabalhos acadêmicos, porém voltados para aspectos bastante específicos da obra.

O CORTIÇO. O melhor estudo de conjunto é também uma análise do professor Antonio Candido, “De cortiço a cortiço”, reunido no já citado O DISCURSO E A CIDADE, da editora Duas Cidades. No livro QUE FAZER DE EZRA POUND? Affonso Romano de Sant’Anna revê o referido estudo de Candido, identificando algumas limitações. Candido reconheceu a pertinência das observações de Sant’Anna. No entanto, as bancas elaboradoras dos vestibulares têm seguido a interpretação de mestre Candido.

DOM CASMURRO. A fortuna crítica sobre Machado de Assis é imensa e um dos melhores estudos direcionados sobre DOM CASMURRO encontra-se na já citada edição da Ateliê Editorial. O estudo é assinado por Paulo Franchetti, professor da UNICAMP.

MACUNAÍMA. O melhor estudo que oferece uma visão de conjunto capaz de abarcar a enorme complexidade do texto marioandradino é o já referido O TUPI E O ALAÚDE, de Gilda de Mello e Souza, editado pela Duas Cidades.

SÃO BERNARDO. Há muitos trabalhos acadêmicos sobre o livro. Como síntese, uma das melhores críticas é “O mundo à revelia”, de João Luiz Lafetá, presente no final da edição de capa laranja e azul, da Record, indicada no elencamento das edições recomendadas que realizamos acima.

A ROSA DO POVO. Proliferam estudos sobre a obra de Drummond. Mas são estudos genéricos ou então aprofundados e acadêmicos. Não há um texto que reúna uma visão de conjunto analisando especificamente os poemas d’A ROSA DO POVO.

MORTE E VIDA SEVERINA (AUTO DE NATAL PERNAMBUCANO). A fortuna crítica sobre João Cabral é vasta. Mas não há uma análise de recorte específico que abarque o conjunto dos aspectos relevantes de MORTE E VIDA SEVERINA. Existe, no entanto, um interessante livro constituído de uma compilação de dezenas de fragmentos de entrevistas dadas por João Cabral ao longo de mais de cinco décadas. O livro funciona como um excelente roteiro para a compreensão do processo criativo e das obsessões temáticas do autor. Intitula-se IDÉIAS FIXAS DE JOÃO CABRAL DE MELO NETO, e foi organizado pelo amigo Félix de Athayde e lançado em parceria pela editora Nova Fronteira, a Fundação Biblioteca Nacional e a Universidade de Mogi das Cruzes. Está fora de catálogo mas pode ser encontrado na www.estantevirtural.com.br

ORIENTAÇÃO DE LEITURA

Como acontece com qualquer obra literária, há várias possibilidades de leitura: o ponto de vista histórico, econômico, político, sociológico, cultural, psicanalítico, estilístico ou da literatura comparada. Esses pontos de vista podem se cruzar, predominar ora um ora outro, se complementar, mas nunca se excluem.

De acordo com as disposições anunciadas no programa da FGV, as obras serão cobradas a partir de suas respectivas contextualizações com a realidade histórica, política e econômica do Brasil. Por isso, é muito importante atentar para o momento histórico e suas implicações políticas e econômicas em que o enredo ou os poemas se inserem. Então, consideremos a cronologia em que cada obra se enquadra:

MEMÓRIAS DE UM SARGENTO DE MILÍCIAS (Período colonial, reinado de D. João VI, 1808-1821)

SENHORA, O ATENEU, O CORTIÇO e DOM CASMURRO (Segundo Império, reinado de D. Pedro II, 1840-1889)

SÃO BERNARDO (República Velha, 1889-1930)

CAPITÃES DA AREIA (República Velha, 1889-1930 e início da República Nova, após 1930)

MACUNAÍMA (República Velha, década de 1920)

A ROSA DO POVO (Estado Novo, 1937-1945, no Brasil, e contexto da Segunda Guerra Mundial, 1939-1945)

MORTE E VIDA SEVERINA (AUTO DE NATAL PERNAMBUCANO) – (República Nova, após 1930)

Dentro desse arco que se estende da Colônia ao Brasil de hoje, há um substrato que pode ser identificado em todas as obras: o autoritarismo da sociedade brasileira. Esse autoritarismo está, por sua vez, fortemente vinculado à propriedade. Assim, do Brasil escravocrata ao Brasil pós-moderno, encontramos sempre a concentração da terra nas mãos de poucos, o mandonismo, a manipulação política, a exploração do trabalho, os privilégios de um reduzido número de pessoas e o cerceamento dos direitos básicos que o cidadão tem, em tese, garantidos pela Declaração Universal dos Direitos do Homem. Nesse sentido, o conjunto das obras exigidas pela FGV poderia ser enriquecida do ponto de vista da estrutura profunda que sempre orientou a formação e a continuidade da sociedade brasileira, com a leitura do livro BRASIL: MITO FUNDADOR E SOCIEDADE AUTORITÁRIA, de Marilena Chauí, editado pela Fundação Perseu Abramo. De forma ainda mais abrangente, existem os livros CONTRA A SERVIDÃO VOLUNTÁRIA (2 volumes lançados e um terceiro no prelo, todos editados também pela Perseu Abramo), que reúnem vários escritos de Marilena Chauí analisando em profundidade o autoritarismo na sociedade brasileira. O volume 2 traz na íntegra o MITO FUNDADOR, porém sem a iconografia presente na edição individual.

Uma leitura proveitosa se inicia com a escolha da melhor edição. E um país se faz, como pontuava Monteiro Lobato, “com homens e livros”. Mergulhem na leitura de alguns dos momentos mais elevados que a Língua Portuguesa já atingiu, como DOM CASMURRO, SÃO BERNARDO e A ROSA DO POVO.

Professores César Veronese e Danislau (CPV)

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