Mostra Breves e Inéditos no CCSP


DOIS FILMES EXCEPCIONAIS: A JAULA DE OURO e A IMAGEM QUE FALTA

O Centro Cultural São Paulo, desde sua última reforma, há dois anos, criou mais uma sala de cinema e, entre seus novos projetos, está o de reprisar filmes de grande valor cinematográfico e que ficaram pouco tempo em cartaz nos cinemas comerciais por não terem público, ou até mesmo filmes inéditos.

A mostra que ora acontece, BREVES E INÉDITOS, é um excelente exemplo dessa iniciativa. Todos os filmes são bons, mas LA JAULA DE ORO e A IMAGEM QUE FALTA são absolutamente imperdíveis.

A IMAGEM QUE FALTA, que concorreu ao Oscar de melhor filme estrangeiro no ano passado, certamente ficará para a história como um dos mais importantes filmes políticos da história do cinema. No final desse artigo você poderá ler uma análise desse filme e uma síntese do regime comunista do Khmer Vermelho no Camboja.

A seguir, reproduzimos as sinopses e horários dos filmes fornecidos pelo próprio CCSP. Lembramos que, às vezes, há mudanças na programação. Portanto, é bom ligar antes de se deslocar e confirmar se a programação é de fato aquela anunciada.

Nebraska”  de Alexander Payne. Por esse filme, com bela fotografia preto e branco, Bruce Dern ganhou vários prêmios de interpretação, entre eles o Globo de Ouro e em Cannes.

Amantes Eternos” de Jim Jarmusch – original filme em que Jarmusch subverte o gênero de filme de vampiro, com sacadas como a presença,como ´personagem, do dramaturgo Christoper Marlowe ((1564-1593) e um inustiado picolé. Prêmio Especial do Júri em Sitges (Espanha). Tilda Swinton foi bastante premiada.por esse filme.

 “Vidas ao Vento”: de Hayao Miyazaki – indicado ao Oscar de animação e Globo de Ouro de filme estrangeiro, ganhou o National Board of Review de melhor longa-metragem

Vic + Flo Viram um Urso” de Denis Côté –Prêmio Alfred Bauer em Berlim

A Imagem que Falta” de Rithy Panh – indicado ao Oscar de filme estrangeiro ganhou o prêmio Un Certain Regard em Cannes

Cães Errantes” de Tsai Ming-liang –Menção Especial e Grande Prêmio Especial em Cannes

A Jaula de Ouro” de Diego Quemada-Diez – Menção Especial e Un Certain Regard em Cannes

Um Toque de Pecado” de Jia Zhang-Ke – filme que gerou muitos comentários em Cannes, por conta das cenas de violância explícita, até então ausente em sua filmografia. Melhor roteiro em Cannes e melhor filme estrangeiro em Toronto.

Bem Vindo a Nova York” de Abel Ferrara – filme que surpreende pois por ocasião de sua exibição paralela em Cannes parte dos correspondentes de jornais mencionavam ‘cenas grotescas’ com Gérard Depardieu o que não se confirma. Se há – e há uma cena de nudismo – é porque cabe perfeitamente na narrativa.

Filme inédito no circuito comercial

O Maravilhoso Agora”,  de James Ponsoldt, filme protagonizado por Miles Teller, antes de seu elogiado desempenho em “Whiplash”. IInédito no circuito comercial, foi exibido apenas na TV paga (video-on-demand), Ganhou, entre outros prêmios, o Especial do Júri (drama) em Sundance 2013.

Breves e Inéditos

Centro Cultural São Paulo

Ingressos: R$1,00 (taxa de manutenção)

de 3 a 18/3

A mostra Breves e Inéditos é um panorama retrospectivo de alguns dos melhores filmes lançados em 2014 que não tiveram a devida chance de chegar ao público cinéfilo brasileiro. Extremamente diversificada quanto aos países e gêneros contemplados, a programação reúne dezenas de filmes que permanecem inéditos no Brasil, ou que foram lançados aqui direto em DVD, Blu-ray ou Video On Demand, ou ainda, que tiveram um lançamento comercial nos cinemas extremamente restrito, em poucas salas ou por pouquíssimo tempo. São filmes cujo lançamento – ou cujo não lançamento – no Brasil não foi compatível com suas qualidades.

PROGRAMAÇÃO

dia 3/3 – terça

Sala Paulo Emilio Salles Gomes

15h30 – Amantes eternos

18h – A jaula de ouro

20h – De menor

dia 4/3 – quarta

Sala Paulo Emilio Salles Gomes

15h30 – Homens, mulheres e filhos

18h – No limite do amanhã

20h – Vidas ao vento

dia 5/3 – quinta

Sala Paulo Emilio Salles Gomes

15h30 – Gloria

17h45 – Hotel Mekong

19h15 – O grande mestre

dia 6/3 – sexta

Sala Paulo Emilio Salles Gomes

15h30 – Que estranho chamar-se Federico

17h15 – Nós somos as melhores!

19h15 – Um toque de pecado

dia 7/3 – sábado

Sala Paulo Emílio Salles Gomes

15h30 – Nebraska

18h – Sob a pele

20h – Mommy

Sala Lima Barreto

20h – Karen chora no ônibus

dia 8/3 – domingo

Sala Paulo Emilio Salles Gomes

15h30 – O maravilhoso agora

18h – Vic + Flo viram um urso

20h – Jardim Europa

Sala Lima Barreto

17h – Nebraska

dia 10/3 – terça

Sala Paulo Emilio Salles Gomes

15h30 –  Karen chora no ônibus

18h – A imagem que falta

20h – Sem escalas

dia 11/3 – quarta

Sala Paulo Emilio Salles Gomes

18h – De menor

19h45  – Cães errantes

Sala Lima Barreto

19h15 – O grande mestre

dia 12/3 – quinta

Sala Paulo Emilio Salles Gomes

15h30 – A jaula de ouro

18h – Homens, mulheres e filhos

20h15 – Que estranho chamar-se Federico

dia 13/3 – sexta

Sala Paulo Emilio Salles Gomes

15h30 – Vidas ao vento

20h – Amantes eternos

Sala Lima Barreto

20h15 – Vic + Flo viram um urso

dia 14/3 – sábado

Sala Paulo Emilio Salles Gomes

15h30 – Hotel Mekong

17h –  Um toque de pecado

19h30 – Bem vindo a Nova York

Sala Lima Barreto

20h – No limite do amanhã

dia 15/3 – domingo

Sala Paulo Emilio Salles Gomes

15h30 – Cães errantes

18h – Mommy

20h30  – A imagem que falta

Sala Lima Barreto

20h – O maravilhoso agora

dia 17/3 – terça

Sala Paulo Emilio Salles Gomes

15h30 – Jardim Europa

17h – Gloria

19h – Sob a pele

dia 18/3 – quarta

Sala Paulo Emílio Salles Gomes

15h30  –  Sem escalas

17h30 – Nós somos as melhores!

19h30 – Bem vindo a Nova York

 SINOPSES

Amantes eternos

(Only Lovers Left Alive, Alemanha/Reino Unido, 2013, exibição digital, 123min)

direção: Jim Jarmusch – elenco: Tom Hiddleston, Tilda Swinton, Mia Wasikowska

A história de dois vampiros eruditos, Eve e Adam, cansados da sociedade atual e profundamente incomodados com a evolução da humanidade. Há séculos eles vivem uma relação de cumplicidade e amor que será abalada pela aproximação de Ava, a irresponsável irmã caçula de Even.

A jaula de ouro

(La Jaula de Oro, México, 2013, DCP, 108min)

direção: Diego Quemada-Diez – elenco: Brandon López, Rodolfo Dominguez, Karen Martínez

Dois garotos da periferia de uma cidade na Guatemala viajam para os EUA procurando oportunidades. No caminho, conhecem um indígena mexicano que não fala espanhol e eles viajam juntos pegando carona.

De menor

(Brasil, 2013, DCP, 77min)

direção: Caru Alves de Souza – elenco: Rita Batata, Giovanni Gallo, Caco Ciocler

Helena é uma advogada recém-formada que divide sua rotina entre ser defensora pública de menores no Fórum de Santos e cuidar do jovem Caio, um adolescente com quem vive uma relação de cumplicidade e harmonia. O relacionamento dos dois é colocado em xeque quando Caio comete um delito.

Homens, mulheres e filhos

(Men, Women & Children, EUA, 2014, exibição digital, 119min)

direção: Jason Reitman – elenco: Ansel Elgort, Jennifer Garner, Adam Sandler

Adultos, adolescentes e crianças amam, sofrem, relacionam-se e compartilham tudo, sempre conectados. A internet é onipresente e, nesta grande rede em que o mundo se transformou, as ideias de sociedade e interação social ganham um novo significado. Algumas situações, como um casal que não tem intimidade, uma garota que quer ser uma anoréxica melhor e um adolescente que vive em num mundo de pornografia virtual, fazem o espectador reavaliar as relações humanas.

No limite do amanhã

(The Edge of Tomorrow, Afeganistão, 2014, exibição digital, 113min)

direção: Doug Liman – elenco: Tom Cruise, Emily Blunt, Bill Paxton

Quando a Terra é tomada por alienígenas, Bill Cage, relações-públicas das Forças Armadas dos EUA, é obrigado a ir para a linha de frente no dia do confronto final. Inexplicavelmente ele acaba preso no tempo, condenado a reviver essa data repetidamente. A cada morte e renascimento, Cage avança e, antecipando os acontecimentos, tem a chance de mudar o curso da batalha com o apoio da guerreira Rita Vrataski.

Vidas ao vento

(Kaze Tachinu, Japão, 2013, exibição digital, 127min)

direção: Hayao Miyazaki – elenco: Hideaki Anno, Miori Takimoto, Hidetoshi Nishijima

Jiro Horikoshi, vive em uma cidade do interior do Japão. Um dia, ele tem o sonho de estar voando em um avião com formato de pássaro. A partir desse sonho, ele decide que construir um avião e colocá-lo no ar é a meta da sua vida. Durante a busca pelo seu sonho ele conhece Naoko, uma jovem encantadora por quem se apaixona. No entanto, Naoko fica profundamente doente, sem saber se sobreviverá.

Gloria

(Chile/Espanha, 2013, DCP, 110min)

direção: Sebastián Lelio – elenco: Paulina García, Sergio Hernandez, Diego Fontecilla

Santiago, Chile. Gloria é uma mulher solitária, 58 anos. Seus filhos já saíram de casa há algum tempo. Como se recusa a ficar sozinha à noite, ela tem o hábito de ir a bailes dedicados à terceira idade. Lá ela conhece vários homens com os quais costuma se envolver. A situação muda quando conhece Rodolfo, um ex-oficial da Marinha que é sete anos mais velho do que ela e por quem se apaixona. Entretanto, ela logo é obrigada a confrontar alguns dos seus segredos mais obscuros.

Hotel Mekong

(Tailândia/Reino Unido, 2012, bluray, 61min)

direção: Apichatpong Weerasethakul – elenco: Jenjira Pongpas, Maiyatan Techaparn, Sakda Kaewbuadee

No Nordeste da Tailândia, às margens do Rio Mekong, que marca a fronteira com o Laos, está o Hotel Mekong. Apichatpong Weerasethakul ocupa seus quartos e varandas para ensaiar Ecstasy Garden, um filme que escreveu anos atrás. Neste espaço, recria uma narrativa que embaralha diversos níveis de realidade, fato e ficção, para explorar os vínculos possíveis entre uma mãe vampira e sua filha, jovens amantes e o Rio Mekong, que flui como o som da música de Chai Bhatana. Filmado em meio a grandes inundações que afetaram essa região em 2011, o filme entrelaça diferentes camadas de sentido: destruição, política e sonhos.

O grande mestre

(Yi Dai Zong Shi, China, 2013, exibição digital, 120min)

direção: Wong Kar-Wai – elenco: Tony Leung Chiu Wai, Zhang Ziyi, Chang Chen

A história verídica de Ip Man, o mestre de artes marciais que ficou conhecido no Ocidente por ter sido o mentor de Bruce Lee. No fim dos anos 1930, no Sul da China, ele derrota o grande e respeitado mestre Gong Yutian. A linda Gong Er, filha de Yutian, jura vingar a honra de seu pai e desafia Ip para uma luta. Tudo muda quando a Segunda Guerra Mundial se intensifica e Ma San, o melhor pupilo de Gong Yutian, escolhe o lado inimigo.

Que estranho chamar-se Federico

(Che Strano Chiamarsi Federico, Itália, 2013, DCP, 93min)

direção: Ettore Scola – elenco: Sergio Rubini, Sergio Pierattini, Antonella Attili

Combinando memórias, fotos de arquivo e filmagens com a recriação de momentos de sua vida, o diretor Ettore Scola retrata com carinho sua relação com o amigo, jornalista e ícone do cinema italiano do pós-guerra Federico Fellini (1920-1993.

Nós somos as melhores!

(Vi Ar Bast!, Suécia, 2013, DCP, 102min)

direção: Lukas Moodysson – elenco: Mira Grosin, Mira Barkhammar, Liv LeMoyne

1982, Estocolmo, Suécia. Bobo, Kiara e Hedvig são garotas entre 12 e 13 anos que vagam pelas ruas da cidade. Corajosas, confusas e estranhas, elas têm que aprender muito cedo a tomar conta de si mesmas. Elas decidem começar uma banda punk sem ter nenhum instrumento, mesmo com todos dizendo que o estilo está morto. O filme marca a volta de Lukas Moodysson ao clima naturalista de seu primeiro grande sucesso, Amigas de colégio, depois de uma fase de filmes densos e experimentais, como Para sempre Lilya. Inspirado em uma graphic novel da ilustradora Coco, esposa do diretor.

Um toque de pecado

(Tian Zhu Ding, China, 2013, DCP, 133min)

direção: Jia Zhang-Ke – elenco: Wu Jiang, Wang Baoqiang, Zhao Tao

Um minerador se revolta contra a corrupção dos líderes de seu povoado. Um trabalhador migrante volta para casa no Ano Novo e descobre as infinitas possibilidades de uma arma de fogo. A recepcionista de uma sauna perde o controle quando um cliente rico a assedia. Um jovem operário troca de trabalho o tempo todo na tentativa de melhorar sua sorte na vida. Quatro pessoas, quatro províncias distintas. Uma reflexão sobre a vida contemporânea na China.

Nebraska

(Nebraska, EUA, 2013, exibição digital, 115min)

direção: Alexander Payne – elenco: Bruce Dern, Will Forte, June Squibb

Woody Grant é um idoso que acredita ter ganhado US$1 milhão após receber pelo correio uma propaganda. Decidido a retirar o prêmio, ele resolve ir a pé até a distante cidade de Lincoln, em Nebraska. Percebendo que a teimosia do pai o fará viajar de qualquer jeito, seu filho, David, resolve levá-lo de carro. Só que no caminho Woody sofre um acidente e bate a cabeça. David decide mudar um pouco os planos, passando o fim de semana na casa de um de seus tios antes de partir para Lincoln. Só que Woody conta a todos sobre a possibilidade de se tornar um milionário, despertando a cobiça não só da família, mas também de parte dos habitantes da cidade.

Sob a pele

(Under the Skin, EUA/Reino Unido, 2013, DCP, 108min)

direção: Jonathan Glazer – elenco: Scarlett Johansson, Krystof Hadek, Paul Brannigan

Um alienígena chega à Terra e começa a percorrer estradas desertas e paisagens vazias em busca de presas humanas. Sua principal arma é sua sexualidade, mas ao longo do processo, ela descobre uma inesperada porção de humana em si mesma.

Mommy

(Canadá, 2014, DCP, 138min)

direção: Xavier Dolan – elenco: Antoine-Olivier Pilon, Anne Dorval, Suzanne Clément

Diane é uma mulher que vive constantemente mal-humorada. Ela se vê sobrecarregada com a guarda em tempo integral de Steve, seu filho de 15 anos, que sofre de déficit de atenção. Enquanto eles tentam sobreviver e lutar em meio a essa situação imprevisível, Kyla, uma garota que mora do outro lado da rua, se oferece para ajudar. Juntos, os três encontram um novo equilíbrio e a esperança volta a aparecer.

Karen chora no ônibus

(Karen llora en un bus, Colômbia, 2012, bluray, 98min)

direção: Gabriel Rojas Vera – elenco: Ángela Carrizosa Aparicio, María Angélica Sánchez

Após dez anos de casamento, Karen se dá conta de que a união foi um erro que custou sua juventude. Disposta a recuperar o tempo perdido, ela pede o divórcio e decide começar uma nova vida no centro de Bogotá, mas as dificuldades logo a fazem rever suas recentes escolhas.

 O maravilhoso agora

(The Spectacular Now, EUA, 2013, exibição digital, 95min)

direção: James Ponsoldt – elenco: Miles Teller, Shailene Woodley, Brie Larson

Sutter Keely leva uma vida despreocupada. Ele nunca terminou os estudos, adora festas e álcool e troca frequentemente de namorada. Quando é rejeitado por uma de suas pretendentes, ele se embebeda e acorda em um gramado ao lado de Aimee Finicky . Nasce uma relação improvável entre uma garota solitária, fã de ficção científica, e um homem que vive apenas o presente.

Vic + Flo viram um urso

(Vic + Flo ont vu un ours, Canadá, 2013, DCP – 96min)

direção: Denis Côté – elenco: Pierrette Robitaille, Romane Bohringer, Marc-André Grondin

Victoria Champagne é libertada da prisão. Instalada em uma cabana no meio da mata, ela deve informar suas atividades semanais ao agente da condicional. Florence, sua companheira de cela e de intimidade, é liberada mais tarde e se junta a ela na floresta. A partir disto, começa uma estranha dinâmica entre elas, que precisam se proteger dos fantasmas do passado.

Jardim Europa

(Brasil, 2014, DCP, 77min)

direção: Mauro Baptista Vedia – elenco: Ester Laccava, Laerte Melo, Horacio Penteado

Eleonora e seus três filhos, Luís Felipe, Ana Luiza e Mariana, vivem no bairro de Jardim Europa. Apesar do dinheiro contado, eles não deixam o luxuoso bairro por nada. Escritor, Luís Felipe é frequentador assíduo de um sebo, onde conversa bastante com o dono, Juarez, e o empregado, Pampolini, morador de um bairro pobre da Zona Leste. Quando Alberto, o pai falido, volta para casa, a vida dessa família decadente vai mudar radicalmente…

A imagem que falta

(L’Image Manquante, Camboja/França, 2013, DCP, 95min)

direção: Rithy Panh

Realizado a partir do livro L’Emination, de Christophe Bataille, a nova obra do cambojano Rithy Panh evoca em primeira pessoa um episódio recorrente em sua obra: o genocídio khmer, que dizimou sua família e transtornou sua infância. Após anos de buscas por imagens ou fotos que exprimissem a dor e o sofrimento do período, o diretor resolveu criar suas próprias, na composição de um filme que, segundo a definição do próprio, “não é a imagem final, nem a busca de uma única imagem, mas a imagem objetiva de uma busca: a busca que o cinema permite”.

Sem escalas

(Non-Stop, EUA, 2014, exibição digital, 106min)

direção: Jaume Collet-Serra – elenco: Liam Neeson, Julianne Moore, Scoot McNairy

Durante um voo de Nova York a Londres, o agente Neil Marks recebe uma série de mensagens enigmáticas, dizendo que um passageiro será morto a cada 20 minutos caso US$150 milhões não sejam transferidos para uma conta bancária. Inicialmente Beil não dá atenção à ameaça, mas, quando o primeiro passageiro aparece morto, ele inicia uma investigação em pleno avião sobre quem possa ser o assassino.

Cães errantes

(Xi You, China, China, 2013, DCP, 138min)

direção: Tsai Ming-liang – elenco: Lee Kang-sheng, Ly Yi-Ching, Lee Yi-Cheng

Em um bairro pobre de Taipei, mora um homem na faixa dos 40 anos, desempregado, com seus dois filhos. Abandonado pela esposa, ele enfrenta grandes dificuldades para satisfazer as necessidades de seus filhos. Um dia, ao levar seus filhos ao shopping, ele conhece Xiao Lu por quem se apaixona. No entanto, as lembranças da sua ex-mulher podem afetar seu novo relacionamento.

 Bem vindo a Nova York

(Welcome to New York, EUA, 2014, DCP, 125min)

direção: Abel Ferrara – elenco: Gérard Depardieu, Jacqueline Bisset, Amy Ferguson

Mr. Devereaux é um poderoso agente da economia mundial e a mesma gana que tem para somar dinheiro tem para os prazeres da carne. Seu apetite sexual incontrolável o coloca frequentemente em apuros e ele vê sua carreira ruir de vez após um escândalo virar manchete nos principais jornais do planeta. Com o apoio incondicional da esposa, ele busca uma maneira de recuperar sua honra.

A IMAGEM QUE FALTA, Rithy Panh

O MAIOR FILME POLÍTICO DE TODOS OS TEMPOS

Um escritor pode guardar por anos ou décadas um manuscrito, sem mostrá-lo a ninguém. Pode morrer sem publicá-lo. Pode recomendar, ainda, como o fizera Kafka, que seus textos inéditos fossem destruídos após sua morte. Mas um filme só existe quando exibido para o público. Por isso, nenhum diretor de cinema existe no anonimato. Para ele existir, precisa de um público, mesmo que este seja mínimo, circunscrito às minúsculas salas de cineclubismo espalhadas, em geral, por umas poucas cidades da Europa e dos Estados Unidos e, em número ainda mais reduzido, por outros continentes.

No Brasil, estas salas quase desapareceram. E tentativas, como a realizada pela Prefeitura de São Paulo, há alguns anos, de criar salas de cineclube, têm redundado em fracasso. Nesse contexto, o Centro Cultural Banco do Brasil é uma referência mundial de qualidade em cineclubismo. Caixa Cultural, Centro Cultural São Paulo e Instituto Moreira Salles são outros espaços de destaque entre nós.

E foi no Centro Cultural Banco do Brasil que aconteceu, em novembro de 2013, uma grande retrospectiva do diretor cambojano Rithy Panh, no embalo de sua premiação no último Festival de Cannes por A IMAGEM QUE FALTA. Este filme foi apresentado em apenas duas sessões. Agora entra em cartaz pela primeira vez, no ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA FREI CANECA, num único horário. E isso ainda só foi possível pelo fato mais do que surpresa de o filme ter sido indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro.

Levando-se em conta o histórico do Oscar, as chances de Rithy Panh levar a estatueta são mais do que remotas. Teria que acontecer a zebra das zebras, pois jamais, em toda a história da Academia, um filme tão radical na forma foi premiado.

OS MAIORES DOCUMENTÁRIOS DO CINEMA POLÍTICO

missingSe um filme precisa do seu público, então não existe, pelo menos em tese, filme totalmente desconhecido. E quando pensamos em filmes políticos, não raro documentários, os títulos incontornáveis se apresentam.

Claude Lanzmann demorou 15 anos para realizar sua SHOAH, que, ao longo de suas nove horas e dois minutos de duração, não exibe nenhuma imagem dos extermínios em massa consumados pela máquina de guerra nazista. Percorrendo os lugares onde existiram os campos de concentração e ouvindo o depoimento dos sobreviventes, fez um filme em que a memória surge como a afirmação da espécie humana contra a barbárie.

Patricio Guzmán era um dos jovens que foram levados pelas forças de Pinochet ao Estádio Nacional, onde foram reunidos os primeiros prisioneiros após a queda de Allende. Guzmán conseguiu chegar à França, as imagens que ele havia registrado antes e durante o golpe posteriormente foram contrabandeadas para a Europa. Dessas experiências e dessas imagens nasceu A BATALHA DO CHILE, considerado, em geral, por críticos e especialistas, o maior documentário político já realizado. Ainda vivendo em Paris, hoje, aos 72 anos, Guzmán continua a dedicar sua vida a um único projeto: a memória da história política recente do Chile.

CORAÇÕES E MENTES, de Peter Davis, já nasceu clássico, tendo permanecido até hoje como o registro mais importante da Guerra do Vietnã. A TRISTEZA E A PIEDADE, de Marcel Ophuls, produzido originalmente para as TVs da Alemanha e da Suíça, desnudou a máscara propagandeada por De Gaulle sobre a unidade da nação francesa na luta pela Resistência durante a ocupação nazista.

Ainda pouco reconhecida (e praticamente inédita no Brasil), a pentalogia de Fernando Solanas (MEMORIA DEL SAQUEO, LA DIGNIDAD DE LOS NADIES, ARGENTINA LATENTE, TIERRA SUBLEVADA – PARTES I e II) sobre o desmantelamento da Argentina promovido pela política econômica do FMI, talvez num futuro não muito distante passe a integrar a lista dos grandes filmes políticos de nosso tempo.

Mas eis que chega às telas A IMAGEM QUE FALTA, do diretor cambojano Rithy Panh. Se os filmes acima mencionados, com exceção da SHOAH, encerram um inegável valor por seu riquíssimo material de arquivo, o desafio de Rithy Panh foi realizar uma película com parcos materiais de arquivo, o que já está sintetizado no título. Como ocorre em toda a sua cinematografia, sua história pessoal se funde com a do seu país, o Camboja. De modo mais preciso, com o regime do Khmer Vermelho, que governou o Camboja, dito então Kampúchea Democrático, entre abril de 1975 e janeiro de 1979.

O CINEMA DE UM SOBREVIVENTE

Rithy Panh é o único sobrevivente de uma família inteira eliminada pelo regime do sanguinário governo do Khmer Vermelho. Sua história é a voz, os olhos, a consciência e a memória de dois milhões de vítimas trucidadas, em sua maioria, a golpes de enxadas, facões e outros instrumentos rústicos, pois na contabilidade do regime as balas custavam mais caro. A imagem que falta é, no plano individual, a da família. No plano coletivo, a do país, já que os homens e mulheres do Camboja foram reduzidos, como se diz no filme, a seres de metal, números, combatentes da Revolução. Falta também a imagem de país no sentido institucional, já que todas as instituições (família, religião, escola, justiça) foram eliminadas. Durante os quatro anos de terror do Khmer, só existiu a Angkar, “a cúpula da organização”, que determinava cada passo de cada cambojano.

A tomada do poder pelo Khmer Vermelho e o posterior genocídio foram precedidos por duas guerras: a Guerra do Vietnã e uma guerra civil no Camboja. Em 1968, a presença americana no Vietnã chegou ao seu ponto mais extremado, com 550 mil soldados. Quando Richard Nixon assumiu a presidência, em 1969, prometeu por fim à guerra. Na prática, ele a estendeu ao Camboja, uma vez que este estava acolhendo norte-vietnamitas comunistas. O governo americano argumentava que dois grupos comunistas, cambojanos e vietnamitas, estavam unidos. Numa série de operações conhecidas pelo nome genérico Menu (Operação Café da Manhã”, Almoço, Lanche, Jantar, Ceia) os Estados Unidos realizaram 3875 ataques contra o Camboja nos 14 meses seguintes.

Pouco antes, Nixon aprovara o golpe de Lon Nol contra o príncipe Sihanouk, que há muitos anos governava o Camboja. Lon Nol era, na verdade, um ditador corrupto, como tantos líderes fantoches apoiados pelos Estados Unidos pelo mundo afora. Em abril de 1970, deu-se a invasão terrestre dos Estados Unidos no território do Camboja, desencadeando uma guerra civil que se estenderia por cinco anos. De um lado, havia Lon Nol e as forças americanas; do outro, os comunistas e um pequeno grupo revolucionário radical, cujos líderes haviam entrado em contato com o pensamento maoísta em Paris. Eram, em sua maioria, jovens descontentes com o regime autoritário do príncipe Sihanouk.

Em 1973, a inflação no Camboja beirava os 300% ao ano, o sistema de transporte estava em colapso e a ajuda americana representava cerca de 95% da renda do governo de Lon Nol. É nesse contexto que o os rebeldes do Khmer Vermelho conquistam o apoio de parte significativa dos cambojanos. Por outro lado, o príncipe Sihanouk, que era um homem culto e apresentava uma imagem política equilibrada, anunciou uma aliança com o grupo revolucionário. Essa coalizão pareceu, a muitos, uma saída sensata para a grave crise que o país atravessava.

Relatos das ações do Khmer, que já havia incendiado centenas de aldeias no norte do país, fizeram as missões diplomáticas estrangeiras começarem a abandonar a capital, Phnom Penh, em abril de 1975. No dia 21 de abril só restava a embaixada francesa, onde 1300 pessoas haviam se refugiado. A ordem do novo regime foi clara: ou as autoridades francesas expulsavam os refugiados, ou morreriam todos de inanição. Os portões foram abertos e as autoridades, incluindo o primeiro-ministro Sirik Matak, foram executadas sumariamente. Os demais foram separados e deportados. Os radicais comunistas do Khmer Vermelho tinham chegado ao poder e não cumpriram o compromisso de uma coalizão com o príncipe Sihanouk.

O HORROR COMO O MUNDO CONHECEU POUCAS VEZES

A primeira ordem foi para esvaziar Phnom Penh. A cidade, que tinha 600 mil habitantes, mas comportava agora quase dois milhões (pessoas de todo o país tinham acorrido para ali, assustadas pelos relatos das atrocidades do Khmer na área rural), começou, sob a mira dos fuzis, a ser evacuada. A marca do que poucas vezes a humanidade vira foi dada pelo Hospital Calmete, o principal da cidade. Sob a mira das armas os pacientes foram obrigados a abandoná-lo. Alguns carregavam seus entes, outros, sozinhos, transportavam seu soro; e logo as estradas foram ficando eivadas de cadáveres. Phnom Penh tornou-se, em poucas horas, uma cidade fantasma e pelos quatro anos seguintes ali só existiria a Angkar e a Tuol Sleng (conhecida como S-21), uma ex-escola de meninos que se tornou o centro de detenção, tortura e execução dos prisioneiros políticos.

Os líderes do novo regime puseram então em prática sua cartilha, nascida nos bancos da Faculdade de Filosofia da Sorbonne, onde assimilaram a ideologia maoísta. O programa era criar o primeiro país verdadeiramente democrático, onde todos seriam iguais e estariam organizados em torno do bem comum e no qual a propriedade seria abolida. Uma síntese das teorias marxistas e rousseaunianas: a supressão da propriedade privada e a “volonté générale”.

O Khmer explodiu o Banco Central do Camboja. O sistema financeiro, a moeda, as transações comerciais foram abolidas. O comércio foi proibido, os estabelecimentos fechados, as cidades esvaziadas. Todas as escolas, livros, filmes, músicas e quaisquer manifestações artísticas foram destruídas. A religião e os monges (que tinham uma tradição milenar no país) foram interditados. Os templos foram transformados em silos. Era preciso criar o novo homem. Todas as pessoas tiveram seus cabelos cortados uniformemente e suas roupas tingidas de preto. As famílias foram separadas: homens, mulheres, crianças, adultos, idosos. “Não há mais pai, nem mãe, nem irmão. Logo não haverá mais emoção. Nem pessoas. Apenas números. Trabalhadores revolucionários”. Óculos, livros, brinquedos, tudo foi proibido. As pessoas receberam um novo nome e podiam portar um único objeto: uma colher. Apenas uma colher; panelas não eram permitidas, eram símbolos, segundo o regime, do individualismo burguês.

Anuncia-se a criação de um novo país coletivo, no qual não existirão mais homens, nem mulheres, nem crianças ou idosos. Apenas trabalhadores. “A caneta é a pá, o caderno o arrozal”. As pessoas que usam óculos ou que cursaram o equivalente à sétima série são consideradas potenciais inimigos do regime e, por segurança, são executadas. A cúpula política é toda exterminada. Profissionais liberais, intelectuais e artistas devem ser reeducados nos campos de trabalho. É proibido falar, as línguas são proibidas. Agora só é possível se comunicar utilizando-se dos slogans do regime. A memória é proibida. Sim, está no estatuto do regime: não é permitido nenhuma lembrança. O homem do passado, que conheceu a propriedade e toda a corrupção burguesa, deve ser eliminado para dar lugar ao homem puro, coletivo. Os remédios são invenções capitalistas e por isso são proibidos. Só são permitidos os medicamentos desenvolvidos pelo regime e produzidos a partir de raízes. As cobaias são os próprios cambojanos. Aos prisioneiros reserva-se a sorte que os nazistas impunham às suas vítimas: experiências crudelíssimas, como a dissecação de pessoas vivas, sem anestesia, deixando-as estertorar até a morte.

Os trabalhadores são obrigados a cultivar os arrozais, escavar poços, criar represas, explorar as florestas, numa rotina que em média chega a 16 horas por dia, incluindo as crianças. A ração diária equivale à dos campos de concentração nazista: 250g de arroz, para serem divididas por 7, depois 16, mais tarde 25 pessoas. Nos rios há peixes, mas a pesca é proibida. Aos doentes e idosos, reserva-se apenas metade dessa quantia. A morte cresce, mas ela não importa ao regime. Importam números: o objetivo é elevar a população de 7,7 para 20 milhões de habitantes. Os encontros e namoros são proibidos. Há apenas os casamentos coletivos determinadas pelo próprio governo. O arroz é cultivado, milhares de sacas são exportadas. À população, destina-se apenas a ração suficiente para mantê-los vivos, a fim de que possam continuar a produzir.

A fome grassa por toda parte em meio às rotinas extenuantes. Rithy Panh, que viveu num desses campos quando criança, recorda: “Éramos levados para uma área onde devíamos produzir três metros cúbicos por dia de fertilizantes, obtidos a partir de árvores, folhas e vacas. Mas não havia árvores e vacas suficientes para atingir a cota. E se não a atingíamos, a cota era elevada para cinco metros. O número era impossível, e então vinham as chicotadas”.

Premidas pela fome, as pessoas arrancavam raízes e as comiam escondidas, caçavam ratos, lesmas e caracóis e os comiam crus. O diretor também trabalhou num hospital, e guarda a lembrança de um vizinho de cama que teve o joelho roído pelas larvas até a morte. Os horrores da fome, das privações, das torturas e da morte estão na memória dos sobreviventes. Há algumas imagens oficiais obtidas por determinação de Polt Pot, para ele ver o seu regime em ação: são imagens de campos de trabalho e que denunciam, por trás do entusiasmo da propaganda oficial, a fome, a extenuação, o desespero saltando de olhares vazios. O cinegrafista oficial que as realizou, posteriormente foi executado.

As imagens mais contundentes simplesmente não existem. Só podem ser imaginadas, como indaga o diretor: “Quem filmou as crianças gritando de fome? Quem filmou os templos destruídos ou transformados em silos? Quem filmou as jovens abandonadas no meio da noite e que não conseguiam parir e por isso esmurravam a barriga até a morte?”

Tudo se organiza em torno da criação do homem puro do Kampúchea Democrático. Seu líder, Polt Pot, vive numa cabana rudimentar, iluminada por uma lâmpada a óleo. Ele bebe chá e toma banho ao ar livre. Cercado pelos livros da doutrina maoísta, por suas armas e seus camaradas. Ele vive a ideologia, ele é a ideologia.

TORTURAS E EXECUÇÕES

Em pouco tempo, os cambojanos, que um dia tinham sido seres humanos, estavam reduzidos a farrapos humanos, desumanizados, dominados pela fome, pelas doenças e, sobretudo, pelo terror. Como sempre aconteceu em todos os regimes comunistas, exige-se a autocrítica e as delações, instaurando-se uma lógica perversa em que todos são inimigos de todos, exceto do regime. As confissões e a lista dos traidores do regime eram obtidas sob tortura: “Tudo começa com a pureza e acaba com o ódio”, diz o diretor do filme, a certa altura. “Nas prisões se eletrocuta, se corta, se faz comer os próprios excrementos para se obter as confissões”. Muitos acusados eram, como sempre acontece em situações desse tipo, inocentes. O torturado, no indizível da dor física (o estatuto do Khmer proibia também os gritos durante os suplícios”) e psicológica, acaba “confessando” o que o torturador deseja ouvir.

O regime de Polt Pot forjou uma realidade compatível com o seu desejo. E, na sua loucura, forjou até a natureza. Trabalhadores foram obrigados a escavar poços durante meses, sem que jamais uma única gota de água fosse encontrada. Eram obrigados a se deslocar periodicamente de um campo para outro, a fim de evitar qualquer articulação entre si: “Como seria possível nos revoltarmos, quando tínhamos apenas uma colher e uma roupa preta?”

Os meios de criar o terror, torturar e matar se pautavam por requintes de crueldade. Aos presos políticos era destinada uma morte lenta, a fim de que realizassem mais confissões. As crianças era mortas juntamente com os pais condenados. As crianças tinham as cabeças esmagadas contra árvores. Os adultos eram degolados ou mortos a golpes de enxadas, foices, facões e outros instrumentos agrícolas. E, para mostrar que todos deveriam cumprir as determinações, alguns executores eram crianças de 6 anos. A falta de força para desferir os golpes fazia então com que as vítimas às vezes agonizassem por um bom tempo antes de encontrarem a morte. O termo morte, aliás, era proibido. O regime impusera o termo destruir. Morte é um termo que poderia ser empregado também para indicar a morte de um animal. Mas destruição é semanticamente mais forte, pois implica eliminação. E as inscrições sobre as fotografias das vítimas nos registros oficiais, como hoje pode ser comprovado no Museu de Tuol Sleng, em Phnom Penh, ostentam a informação: “destruída oficialmente”.

A FORÇA DA FORMA

A arte sabe desde sempre que boas ideias de nada valem nas mãos de artistas medíocres. O cinema, talvez mais do que qualquer outra arte, leva essa evidência ao limite. Ideias banais podem se transformar, quando convertidas em imagens e sons, em obras-primas. Bons romances nunca dão bons filmes; são os romances medianos que dão liberdade ao diretor para criar filmes excelentes, sempre sentenciou Godard.

Relatos existem aos milhares. Mas o talento de Rithy Panh, ao fundir sua história pessoal com a do Camboja, transforma o genocídio em algo que extrapola as fronteiras do seu país. Historiadores estimam em cerca de dois milhões o número de vítimas do Khmer Vermelho, aproximadamente 25% da população do país. Quando falamos de genocídio, há o número das vítimas que não sobreviveram, há os sobreviventes e há nós outros, que não vivemos aquela experiência e só podemos conhecê-la pelo relato das vítimas. Podemos, assim, aproximar os relatos, a consciência e apelar para nossa imaginação. Mas, por mais poderosa que esta seja, jamais nos fará entrar nos corações e mentes daqueles que sentiram pulsar na carne e na alma as experiências do horror. Os relatos recolhidos por Claude Lanzmann na SHOAH, a reconstituição das atrocidades do rei do Leopoldo II evocadas pela inventividade de Joseph Conrad em O CORAÇÃO DAS TREVAS, e, mais recentemente, n’O SONHO DO CELTA, por Vargas Llosa, e os requintes de desumanidade aplicados pela Savak, a polícia secreta do Irã, ao longo do século XX, permitem apenas uma aproximação entre o espectador e/ou leitor e as vítimas que protagonizam esses relatos.

Rithy Panh é um sobrevivente do genocídio no Camboja. Sua família desapareceu. O pai decidiu morrer de fome, duas irmãs também morreram de fome, a mãe e os demais parentes em função da debilidade causada pela fome. Ele passou os quatro anos do regime em diversos campos de trabalho, à mercê das privações, suplícios e terrores do regime. Chegou a Paris ainda jovem e, tal como Patricio Guzmán, dedicou sua vida à memória do Camboja. Entre mais de duas dezenas de filmes, realizou S-21 A MÁQUINA DE MORTE DO KHMER VERMELHO e DUCH, O MESTRE DAS FORJAS DO INFERNO (ambos com edições em dvd na França e nos EUA). O testemunho do diretor é, portanto, o de um sobrevivente a quem o horror não conseguiu eliminar a memória. Contrapondo os seus primeiros anos aos anos Khmer, ele evoca: “No mundo da minha infância as pessoas tinham bocas. Elas riam e falavam. E se beijavam. (…) Há muitas coisas que um homem não deveria ver ou ouvir. Se as visse, seria melhor estar morto. Mas quando não podemos escolher e as vemos, temos o dever de contá-las. Essa imagem eu a dou a você, para que ela não deixe de existir”.

Essa imagem que falta (a da família desaparecida, do país desaparecido, da memória proibida) surge do filme, da costura das imagens ausentes, da família, amigos e compatriotas revividos nos pequenos bonecos esculpidos em madeira, dos obsedantes cheiros da comida guardada na memória enquanto saciava a fome com raízes e lesmas, da música que o horror não conseguiu fazer desaparecer. A reconstituição, na qual se alternam relato, animação e as poucas imagens dos arquivos oficiais, é acompanhada pela narração sóbria de uma voz que fala pelos dois milhões de cambojanos silenciados. Fala pelos judeus da máquina nazista, pelos nativos do Congo e de toda a África, dos índios das três Américas, pelas vítimas do regime ditatorial do Miamar e pelos 200 mil prisioneiros alimentados com alguns grãos de milho e arroz, submetidos a torturas diárias e obrigados a trabalhar até a morte nos atuais campos de trabalhos forçados da Coreia do Norte neste momento em que você lê estas linhas.

O filme problematiza várias questões. Quando lemos o Marquês de Sade, ficamos enjoados com as descrições pormenorizadas das sessões de sodomia, com o escatológico e todo tipo de monstruosidades. Temos a impressão de que estamos diante dos registros de um psicopata e não de um cérebro lúcido. Mas a última coisa de que se poderia acusar o Marquês era de falta de lucidez. Sade sempre esteve consciente do que escreveu. E sua intenção era mostrar o que acontece quando os homens podem exercer sua liberdade sem qualquer limite. E se assim consideramos suas narrativas, elas revestem-se de um enorme valor político e se afirmam como um alerta sobre as ilusões da racionalidade iluminista. Racionalidade, aliás, foi o que norteou os escritos dos “técnicos” nazistas. Haverá algo mais racional que o planejamento de uma câmara de gás disfarçada de banheiro?

UTOPIA E REALIDADE

Quando Jean-Jacques Rousseau formulou as teorias do CONTRATO SOCIAL, em 1762 (um pouco antes do surgimento dos chocantes textos do Marquês), e postulou a igualdade, a liberdade e a vontade geral (“volonté générale”), estava teorizando sobre a utopia de uma felicidade coletiva. O conceito da “volonté générale” pressupunha o desejo coletivo como um desejo do povo. Mas o desejo do povo não é necessariamente o desejo da maioria. E o lugar que seria ocupado pelo debate promovido pelos partidos políticos passa a ser preenchido pela “volonté générale”. Mas o que acontece quando num Estado totalitário o partido único se autoproclama o porta voz da vontade do povo? A ditadura do Khmer Vermelho talvez tenha sido a mais trágica ilustração dessa utopia levada ao limite.

A barbárie perpetrada pelos radicais comunistas desperta ainda mais indignação quando consideramos que a doutrina foi aperfeiçoada pelos seus líderes dentro das salas de aula da Sorbonne, um dos templos da história do conhecimento humano. A insatisfação humana com a realidade, as infinitas dicotomias entre o sonho de uma realidade perfeita em confronto com as misérias da vida concreta, sempre foram o substrato da fantasia, da arte e, no limite, da política. Mas o sonho e as utopias (sejam artísticos ou políticos) não podem simplesmente solapar a realidade. Mario Vargas Llosa analisa esta questão num artigo sobre a globalização intitulado “Abaixo a Lei da Gravidade”, reunido no livro SABRES E UTOPIAS – VISÕES DA AMÉRICA LATINA:

“(…) Rechaçar a realidade, empenhar-se em substituí-la pela ficção, negar a existência verdadeiramente vivida em nome de uma outra, inventada, afirmar a superioridade do sonho sobre a vida objetiva, e orientar a conduta com base nessa premissa, eis a mais velha e a mais humana das atitudes, aquela que gerou as figuras políticas, militares, científicas e artísticas mais atrativas e admiradas, os santos e os heróis e, talvez, o principal motor do progresso e da civilização. A literatura e as artes nasceram dela e constituem o seu principal alimento, seu melhor combustível. Mas, ao mesmo tempo, se a recusa da realidade transborda os limites do individual, do literário, do intelectual e do artístico, e contamina o coletivo e o político – o social –, tudo o que essa postura traz consigo de idealista e generoso desaparece, é substituído pela confusão, e o resultado, geralmente, é aquela catástrofe em que desembocaram todas as tentativas utópicas na história do mundo.

A opção pelo impossível – a perfeição, a obra-prima, o absoluto – teve consequências extraordinárias no âmbito da criação, do QUIXOTE a GUERRA E PAZ, da Capela Sistina a GUERNICA, de DON GIOVANNI, de Mozart, à segunda sinfonia de Mahler, mas querer moldar a sociedade ignorando as limitações, contradições e variações do ser humano, como se homens e mulheres fossem uma argila dócil e manipulável capaz de se ajustar a um protótipo abstrato, concebido pela razão filosófica ou pelo dogma religioso com total desprezo pelas circunstâncias concretas, pelo aqui e agora, isso contribuiu, mais do que qualquer outro fator, para incrementar o sofrimento e a violência. Os vinte milhões de vítimas com que, somente na União Soviética, selou-se a experiência da utopia comunista são o melhor exemplo dos riscos que correm aqueles que, na esfera do social, apostam contra a realidade.”

A REPERCUSSÃO DO GENOCÍDIO PROMOVIDO PELO KHMER VERMELHO

Raphael Lemkin foi um judeu polonês e especialista em direito internacional, que, no início da década de 1930, tentou chamar a atenção pública sobre o perigo nazista. Suas reivindicações foram ignoradas e ele abandonou a Polônia, cruzou a União Soviética, o Alasca e chegou aos Estados Unidos. Deixou para trás sua família, que posteriormente seria exterminada pelos nazistas. Em 1941, um ano antes da Solução Final, ele lutou por medidas de proteção aos judeus europeus. Outra luta em vão. Os Aliados resistiram por um bom tempo antes de começarem a bombardear os trilhos que levavam aos campos de concentração.

Após o término da guerra, ele não se deu por vencido e começou a luta pela condenação dos responsáveis pelos massacres. Ex-estudante de filologia, ele foi o responsável pela cunhagem do termo genocídio. A palavra é um híbrido que combina o derivativo grego “geno” (“raça” ou “tribo”) e o derivativo latino “cídio” (derivado, por sua vez, do verbo “caedere”, que significa “ato ou efeito de matar”). O termo foi usado oficialmente pela primeira vez na terceira acusação dos indiciados de Nuremberg, em 1945. O juiz condenou os 24 réus por terem “comandado um deliberado e sistemático genocídio, ou seja, o extermínio de grupos raciais e nacionais, contra populações civis de certos territórios ocupados”. Lemkin finalmente vencera a primeira etapa de sua luta, que se estenderia até sua morte, em 1959, tentando levar a julgamento outros responsáveis por extermínios em massa.

Nuremberg e outros julgamentos trouxeram à tona muitas outras atrocidades cometidas pelos nazistas e ignoradas pelo mundo. E em 1948 a ONU aprovou a Convenção sobre Prevenção e Punição do Crime de Genocídio. Mas, infelizmente, a segunda metade do século XX é pródiga em genocídios e a ONU e outras organizações internacionais pouco fizeram para impedi-los e praticamente nada fizeram para punir os seus autores. Os massacres em Ruanda, na Bósnia e no Iraque são alguns dos exemplos mais recentes. Mas o extermínio de dois milhões de cambojanos pelo Khmer Vermelho foi o de maiores proporções desde o Holocausto.

E por que a ONU, os Estados Unidos, a Europa e os governos autonomeados democráticos nada fizeram para impedir um massacre que se prolongou por quatro anos? A indiferença foi encabeçada pelos Estados Unidos, para os quais uma intervenção no Camboja não interessava do ponto de vista dos interesses políticos. A guerra do Vietnã tivera um custo muito alto (em vítimas, despesas militares e, sobretudo, em termos do orgulho nacional ferido e rebaixado). Por outro lado, enquanto os rebeldes do Khmer dominavam o país, Jimmy Carter começava uma reaproximação com a China de Mao Tsé-Tung. A China e a Tailândia eram então os principais apoios do Khmer. A Tailândia era anticomunista mas mantinha relações com o Khmer por questões fronteiriças e para impedir o avanço comunista do Vietnã sobre o seu território. A China, por sua vez, era um aliado importante para Washington em plena guerra fria. E assim os Estados Unidos manipularam a ONU, a Europa, o Ocidente e o Oriente e, juntos, fecharam os olhos, apesar das denúncias de jornalistas e diplomatas, para as atrocidades praticadas pelo regime de Polt Pot.

Os exemplos dessa indiferença são inúmeros, mas apenas dois deles são suficientes para se entender a lógica perversa da política externa americana: em setembro de 1979, apesar de todas as denúncias dos massacres, o Comitê de Credenciais da ONU, pressionado pelos Estados Unidos, votou por 6 a 3 pela concessão de credenciais na ONU para o Khmer Vermelho. O outro exemplo ilustra a conivência entre os meios de comunicação de massa e o governo americano. Os dados estão no livro GENOCÍDIO: A RETÓRICA AMERICANA EM QUESTÃO, de Samantha Power (obra de referência sobre a política externa americana no século XX). Em abril de 1975, quando o Khmer se aproximava de Phnom Pehn, apenas os dois jornais mais importantes dos EUA, o New York Times e o Washington Post, publicaram 272 reportagens sobre o Camboja. Em dezembro de 1975, quando já não havia nenhum estrangeiro no país, esses mesmos jornais publicaram apenas 8 matérias. A cobertura das grandes redes de televisão americana foi ainda mais pífia. Nos três meses que se seguiram à instalação do regime de terror, as três principais TVs dos EUA concederam míseros dois minutos e meio de cobertura. Pior: durante os quatro anos de vigência do regime, essas redes dedicaram, juntas, menos de 60 minutos ao Camboja, o que equivale a uma média de menos de 30 segundos por mês.

Quando hoje transpomos os portões de qualquer campo de concentração nazista na Europa, ouvimos gravações sobre a importância da preservação daqueles espaços. São espaços de memória, para que a barbárie não se repita. Constatamos, no entanto, que os interesses geopolíticos dos países ricos, aliados aos interesses da grande mídia, cujos proprietários estão, sempre, em todos os países, de mãos dadas com os poderosos e genocidas, decidem quais vítimas merecem a atenção dos países autonomeados civilizados e democráticos. Ilustração viva do poder de manipulação e de como se procura desviar o grande público das “causas perdidas” e do que não interessa aos poderosos (sejam eles os agentes da guerra fria, a Comunidade Econômica Europeia ou os G8), é o que pode ser constatado pelo público que se dirigir ao ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA FREI CANECA, onde se encontra a única sala que está exibindo A IMAGEM QUE FALTA, num único horário. Há mais de uma dezena de painéis nas bilheterias informando os títulos e os horários dos filmes em cartaz. Mas NENHUM informa que o filme de Rithy Panh está em cartaz, o que ilustra o solene desprezo do programador e do ESPAÇO ITAÚ pelo filme. Manipulação não se articula apenas nos escritórios da CIA, no Departamento de Defesa dos Estados Unidos ou na cabana de Polt Pot nos tempos do regime. Ela também é estrategicamente preparada na aparente inocência do menu oferecido nas salas de um shopping center do Terceiro Mundo. Mesmo que o país onde elas se encontrem já tenha presenciado o genocídio de alguns milhões de índios e continue a ver suas crianças iludindo a fome com um saco de cola colado à cara.

OBSERVAÇÃO: O filme A IMAGEM QUE FALTA originou-se do livro A ELIMINAÇÃO (sem tradução para o português), de Rithy Panh. É possível, no entanto, encontrar no www.amazon a edição francesa (original), bem como traduções para o inglês, o italiano e outras línguas.

PROFESSOR CÉSAR VERONESE (CPV VESTIBULARES)

+ There are no comments

Add yours