Lina Bo Bardi (1914-2014)  –  Centenário de nascimento

Lina Bo Bardi (1914-2014) – Centenário de nascimento


País sem memória é o clichê dos clichês para falar do Brasil. Infelizmente, ele se reafirma sempre. País sem memória em relação ao seu patrimônio histórico, já que manipulações políticas e propinas todos os dias driblam as leis e imóveis preciosos são postos abaixo para permitir a construção de estacionamentos , espigões e shopping centers. País sem memória no mercado editorial. Em 2013 a Companhia das Letras lançou TODA POESIA, livro que reúne todos os livros de Paulo Leminski, um poeta de primeiro time e muito admirado pelo público jovem. Até então, quase todos os seus livros estavam fora de catálogo. As obras de Marguerite Duras e Marguerite Yourcenar, duas das maiores escritoras do século XX, estão quase todas esgotadas no mercado editorial brasileiro há quase trinta anos.

Não diferente é o esquecimento do Brasil em relação aos seus grandes arquitetos. Rino Levi projetou, entre outros, o prédio da FIESP na Avenida Paulista e a Residência Olivo Gomes (atual Fundação Cassiano Ricardo) em São José dos Campos. Esta última, erguida entre 1949-51, figura em muitos livros e revistas de arquitetura como um dos melhores projetos da arquitetura modernista mundial. Não obstante, a maioria dos imóveis assinados por Rino Levi foram demolidos. As ideias urbanísticas de Affonso Reidy, autor do projeto do Aterro do Flamengo, foram ignoradas posteriormente por diversas gestões da Prefeitura do Rio de Janeiro e muitos dos problemas críticos que a cidade hoje enfrenta poderiam ter sido evitados se suas ideias não tivessem sido desprezadas.

Residência Olivo Gomes (atual Fundação Cassiano Ricardo), 1949-51, projeto de Rino Levi, São José dos Campos. O painel de azulejos ao fundo e o jardim são de Burle Marx

Escada da Residência Olivo Gomes

Um dos cartões postais da cidade de São Paulo é o MASP, cujas pilastras brutalistas vermelho sangue sustentam o imenso vão livre que preserva a vista do centro da cidade. Sua arquiteta, a ítalo-brasileira Lina Bo Bardi, assinou também o projeto do Sesc Pompeia, transformando uma antiga fábrica num original e interessantíssimo espaço que abriga teatros, sala de show, espaços de exposições e restaurante. Foi responsável ainda pelo projeto do Teatro Oficina, criando um palco na forma de pista e driblando um terreno de largura mínima, além de integrar árvores e bananeiras dentro do próprio teatro. Em 2014-2015 comemora-se o centenário de nascimento de Lina, arquiteta que, pouco mais de 20 anos após sua morte, está praticamente esquecida.

A verdade é que a arquitetura brasileira, que foi referência mundial nos anos 40 e 50, hoje é uma conjugação de espalhafato, cafonice e ostentação. Não à toa, o Brasil tem comparecido em mostras internacionais apenas com projetos de habitações coletivas. E um olhar pelas médias e grandes cidades brasileiras, seja nas avenidas comerciais ou nos chamados condomínios de luxo, revela os espigões espelhados ou residências no estilo castelo-da-bruxa-de-filmes-walt-disney. O que seria, para lembrarmos a canção de Tom Jobim, “arquitetura de morar”, virou arquitetura de exibir, abolindo-se o binômio beleza-funcionalidade.

Contra esse desprezo e esquecimento de alguns dos mais geniais arquitetos que o país já produziu, o Instituto Lina Bo e Pietro Maria Bardi vem promovendo uma série de exposições comemorativas do centenário de Lina, destacando-se a abertura da Casa de Vidro, onde a arquiteta residiu a maior parte de sua vida. Localizada no Morumbi, a casa foi erguida em 1951 e constituiu o primeiro projeto de Lina, já revelador do seu talento. A Casa de Vidro permanece aberta ao público esporadicamente mas esta exposição é especial porque, pela primeira vez, praticamente todos os cômodos estão abertos à visitação. Em geral, só é possível visitar o grande salão de vidro, onde se encontra parte do acervo de obras de arte reunidos pelo casal Lina (1914-1992) e Pietro (1900-1999).

Fachada da Casa de Vidro projetada por Lina Bo Bardi, 1951, São Paulo

SALÃO E CASINHA

Nesta abertura da Casa, é possível visitar o salão, a parte fria, os banheiros, o closet e o quarto do casal. E aí mora uma das grandes tacadas do projeto. Lina costumava chamar as alas fria e íntima de “casinha”, em oposição ao salão. O salão de vidro corresponde às fotos clássicas da Casa (reproduzidas em revistas e livros) e se organiza segundo as coordenadas principais da arquitetura modernista brasileira: estrutura em pilotis, amplas vidraças, piso de pastilhas de vidro, portas simples e total ausência de elementos decorativos supérfluos. Já a “casinha” corresponde a três quartos pequenos, dois banheiros, um corredor estreito, uma generosa cozinha, além da ala dos empregados e da lavanderia. Em contraponto com as gigantescas vidraças da ala social, a casinha possui janelas pequenas com venezianas pintadas de verde, o que remete a uma casinha interiorana ou de fazenda.

 Esse contraste cria uma tensão entre o moderno e o tradicional e o olho lê, por trás da inovação, a memória do país. Processo semelhante pode ser encontrado no Palácio da Alvorada, no qual Niemeyer conjugou as estruturas de concreto armado e vidraças com a vasta varanda que remete às antigas casas de fazenda coloniais. Outra solução original do projeto da Casa de Vidro são as duas paredes laterais, parcialmente (a parte da cozinha e do quarto do casal) construídas com chapas de ferro (a primeira pintada de vermelho na parte externa e verde escuro na interna, a do quarto em ambos os lados de azul roial). As chapas foram uma solução para diminuir o peso da construção, uma vez que esta se apoia basicamente no quadrado de concreto que se levanta na parte central da casa.

 Quando olhamos para a fachada da Casa de Vidro, um dos elementos arquitetônicos que mais chamam a atenção são os pilotis. Sua função, no entanto, é mais decorativa do que estrutural. Eles estão enterrados a pouco mais de trinta centímetros e a casa se apoia mesmo no quadrado central, em meio ao qual ergue-se uma gigantesca seringueira. No imenso jardim de mais de oito mil metros quadrados, há centenas de árvores de porte, entre as quais seringueiras e paineiras plantadas junto à casa. Sabemos que seringueiras e paineiras desenvolvem raízes poderosas capazes de abalar grandes estruturas arquitetônicas. E essa foi a intenção de Lina ao plantá-las. Ela acreditava que as construções, como os seres e as obras de arte, deveriam ter o seu tempo e este tempo é efêmero e não eterno. Seringueiras e paineiras fariam, enfim, com que um dia a Casa ruísse!

Quadrado de concreto que sustenta a Casa e abriga uma seringueira

Não à toa, enquanto Lina residia ali, o jardim abrigava uma Diana grega do século III a. C. Isso mesmo,no jardim, exposta a todas as intempéries (hoje a escultura se encontra no salão da residência). No mesmo diapasão de uma consciência de que os seres e as coisas devem obedecer ao ritmo da natureza, a Casa de Vidro não possui, exceto na cozinha, nenhuma iluminação direta. Há um reduzido número de arandelas (geralmente uma em cada ambiente), pois a arquiteta pensava que os trabalhos deveriam se encerrar com a luz do dia, ecoando a dinâmica da vida campesina anterior à primeira Revolução Industrial. Lina buscava um viver natural, sem as malhas e tralhas do conforto burguês. Por isso sempre projetou cadeiras e móveis propositalmente desconfortáveis. Conversar ou assistir a um espetáculo são atos, ao seu olhar, que exigem atenção: “poltronas confortáveis é para o público francês, que vai ao teatro para dormir”, costumava dizer.

Daí o desconforto do qual o público tanto reclama nas salas de espetáculos ou outros espaços projetados por Lina. Lembremo-nos das cadeiras girafa do restaurante do MASP, das duras e exíguas cadeiras do Sesc Pompeia ou das estranhas cadeiras do Teatro Castro Alves em Salvador, estas últimas reproduzidas no corredor da Casa. Não diferente são os móveis domésticos. No salão estão expostas cadeiras, poltronas e banquetas que integravam a decoração original da Casa e foram utilizadas durante décadas pelo casal. Todas igualmente desconfortáveis, pois o tempo em que se está sentado é para conversar e pensar, não para dormir.

ECLETISMO COM ELEGÂNCIA

Lina e Pietro colecionaram obras de arte ao longo de toda a vida. Não tinham preferência por um estilo. Assim, a Casa abriga uma coleção eclética: móveis modernos desenhados pela própria Lina, como poltronas, banquetas, camas e criados feitos com canos de ferro, convivem com cadeiras de couro e mesas de marchetaria. Vasos art nouveau de Gallé dividem o espaço com bichos de madeira e pano do mais autêntico artesanato brasileiro. Mas o maior ecletismo talvez esteja nas esculturas. Lina não desposava nenhuma religião mas admirava muitos ritos da cultura africana, de modo que o salão abriga esculturas de orixás e Nossa Senhora, São Jorge e Buda, além da já referida Diana grega. Madeira, pedra e bronze contrastam com as vidraças, as pastilhas e o concreto armado.

Salão da Casa de Vidro com poltronas tubulares criadas por Lina e que convivem com a poltrona Eames (ao fundo) e a chaise longue Le Corbusier (à direita)

Na cozinha, as pastilhas negras do chão compõem com a extensa bancada inox (uma ousadia para a época em que a casa foi construída) onde estão as cubas. E a parede de chapas de ferro não briga com as prateleiras protegidas por cortinas em delicado xadrez, evocando a vida interiorana. Lina gostava da simplicidade. Na sala de jantar, por exemplo, a mesa por ela desenhada é de jade, evidenciando sua preferência por pedras semipreciosas. Aliás, nas muitas joias que a arquiteta criou, sua inclinação também era por pedras semipreciosas e quando, mais raramente, optava pelas pedras preciosas buscava quebrar esta, digamos, nobreza, combinando-as com bronze, latão ou outros materiais menos nobres. Realizava, assim, o livre trânsito da natureza, na qual encontramos no mesmo solo o ouro e a lama, a flor e a putrefação.

Chapas de ferro pintadas de verde escuro, pastilhas pretas no chão e bancada de inox

A ideia de ecletismo e de integração dos espaços externos e internos dialoga com as atitudes ideológicas de Lina, que sempre defendeu uma arquitetura a serviço do homem. Amiga muito próxima de Oscar Niemeyer, discordava radicalmente dos conceitos de arquitetura do criador de Brasília. Enquanto Niemeyer sempre defendeu a plasticidade, afirmando que gostava de criar coisas belas destinadas à admiração (o que não significa que não pensasse na dimensão humana da arquitetura), Lina abraçava a ideia de uma arquitetura política, radicalmente enraizada nas necessidades do seu tempo. Por isso enfrentou sérios problemas com a ditadura militar e, ameaçada de morte, viu-se obrigada a silenciar suas opiniões sobre o regime. Isso aconteceu quando ela era professora na Universidade Federal da Bahia.

Voltando à Casa, encontramos o ecletismo em vários elementos que compõem o jardim. Espalhado por um terreno bastante acidentado, ele foi plantado por Lina. Ao contrário do que usualmente pensamos, não havia árvores no local e da Casa, quando foi erguida em 1951, avistava-se o rio Pinheiros. As mudas de árvores foram espalhadas um tanto a esmo, outro obedecendo a princípios do candomblé. Assim, o jardim evoca uma ideia de espontaneidade que, ao mesmo tempo, funda-se (passemos o paradoxo) num planejamento que obedece a princípios de natureza religiosa. Nos fundos da Casa estão o forno, a horta e o canil, em meio aos quais circula uma gata dócil e irritada. Quando Pietro morreu, em 1999, ela era filhote dos gatos que sempre foram outra paixão do casal.

Para além do interesse da Casa em si mesma, do mobiliário, das obras de arte e do jardim, os visitantes são brindados com uma exposição de livros, maquetes, documentos e manuscritos de Lina, além de alguns objetos como o capacete que ela usou durante as obras do Sesc Pompeia.

LOCAL: Rua General Almérico de Moura, 200 (não há estacionamento, é necessário deixar o carro na rua), Morumbi.

QUANDO: a referida exposição do Centenário permanece aberta ao público até 19.07.15.

HORÁRIO: quinta a domingo, das 10h00min às 16h00min. Há uma visita guiada que dura pouco mais de uma hora. A visita acontece quando há pelo menos cinco pessoas na casa.

QUANTO: entrada franca

Indicações Bibliográficas e cinematográficas

LIVROS: há muitos livros e teses sobre Lina Bo Bardi. Entre tantos, destaca-se LINA POR ESCRITO – TEXTOS ESCOLHIDOS DE LINA BO BARDI, organizado por Silvana Rubino e Marina Gainover. Sobre Rino Levi há um livro de excepcional qualidade: RINO LEVI – ARQUITETURA E CIDADE, com textos de Renato Anelli, ensaios fotográficos de Nelson Kon e coordenação editorial de Abilio Guerra. Quanto a Niemeyer, a bibliografia é imensa, destacando-se a obra iconográfica NIEMEYER 360 GRAUS.

Sobre os arquitetos mencionados neste artigo existem os documentários AFFONSO REIDY – A CONSTRUÇÃO DA UTOPIA, de Ana Maria Magalhães, e OSCAR NIEMEYER – A VIDA É UM SOPRO, de Fabiano Maciel (ambos disponíveis no ACERVO DE FILMES DO CPV).

Prof. César Veronese (CPV Vestibulares)

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