Maria Bethânia estreia na TV programa em que fala de literatura


Na série, cantora confessa a dificuldade em declamar verso de João Cabral e relembra encontros faiscantes com Clarice Lispector

RIO  – Quando menina, Maria Bethânia recebeu um conselho que veio quase como uma ordem de seu irmão, Caetano Veloso: “Leia essa escritora, sei que você vai gostar”. Era Clarice Lispector, cuja obra ardente, enigmática e responsável por um movimento ficcional absolutamente novo havia despertado a paixão do jovem compositor baiano. “Caetano me mostrou Clarice quase como um professor, do jeito dele, lendo de forma mágica, me dando uma orientação para eu ler”, conta Bethânia ao Estado, em conversa na quarta-feira, 22, na Villa Riso, um local paradisíaco, cercado de árvores centenárias, em São Conrado, no Rio.

O encontro serviu para Bethânia detalhar seu novo projeto, relacionado com literatura. A partir do dia 3 de julho, às 22 horas, a cantora poderá ser vista como entrevistadora do programa Poesia e Prosa com Maria Bethânia, a ser transmitido pelo canal Arte 1. Inicialmente, serão quatro episódios, um a cada domingo, nos quais Bethânia vai conversar com seus convidados sobre autores que transformaram sua carreira e também sua existência. O primeiro, no dia 3, será justamente sobre Clarice Lispector. Em seguida, os homenageados serão Guimarães Rosa (dia 10), João Cabral de Melo Neto (17) e Castro Alves (24). “A marca principal do programa é a descontração”, conta Mônica Monteiro, CEO da Cine Group, a produtora responsável pela série. “Uma estimulante e descontraída conversa entre amigos.”

E que amigos! Sobre Clarice, Bethânia troca ideias com Caetano e a professora Nádia Gotlib; Guimarães Rosa inspira a conversa com o historiador Alberto da Costa e Silva e o compositor Paulo César Pinheiro; a obra de João Cabral é tema da reunião com Chico Buarque e o professor Wander Miranda; e, finalmente, a poesia de Castro Alves inspira o papo com Costa e Silva e o cantor e compositor Jorge Mautner.

Cantora. Talento para comentar e declamar
Cantora. Talento para comentar e declamar

A literatura ganha novos tons e contornos quando interpretada por Maria Bethânia. Desde o já célebre Rosa dos Ventos, espetáculo dirigido por Fauzi Arap em 1971, quando a cantora deu nova vida à linguagem literária, ela criou uma nova gramática para se declamar e cantar a poesia. “Maria Bethânia é hoje a mais requintada intérprete do Brasil, capaz de explorar, por meio da voz e da interpretação, com talento e audácia, as possibilidades de nossa língua poética”, observa a historiadora Heloisa Starling, que trabalhou na idealização e coordenação da pesquisa da série.

Bethânia
Bethânia

“Isso é o trabalho de interpretação”, diz Bethânia. “Foi o que aprendi nesses anos todos, o tempo de cena, de conhecimentos, a felicidade de conhecer grandes autores, grandes diretores. Fauzi me guiou muito bem, encontrou essa maneira de eu me expressar completa. Ele me fez ver que sou música, que sou teatro, que sou palavra. Ele conseguiu pescar isso em mim – transformou e elaborou a dramaturgia que eu sigo e que realmente me traduz.”

Bethânia. Ela tanto declama como canta ‘Negro Blues’ com Jorge Mautner
Bethânia. Ela tanto declama como canta ‘Negro Blues’ com Jorge Mautner

Poesia e Prosa com Maria Bethânia traz o equilíbrio perfeito entre erudição e descontração. Logo no primeiro programa, Bethânia fala de sua relação com Clarice Lispector. A escritora acompanhou os ensaios de Rosa dos Ventos, mas foi na estreia que falou diretamente com a cantora. “Quando terminou o espetáculo, eu estava no camarim, que ficava abaixo do palco. Eu me preparava para subir quando vi Clarice lá em cima, como uma estátua, deslumbrante, rodeada de luz. Ao me ver, gritou assim: ‘Faíscas, faíscas no palco!’. Eu falei: ‘Clarice…’. E ela repetiu: ‘Faíscas, faíscas no palco!’. E foi embora. Essa história me faz lembrar de outra, também linda, de quando conheci Mãe Menininha. Fui levada por Vinicius de Moraes, que me disse: ‘bote sua cabeça no chão’. Eu botei e ela falou: ‘Ave Maria, quanta faísca, meu Deus!’. Não é lindo, as duas falarem de faíscas?”

Outro momento marcante desse primeiro episódio é a canção, inspirada no livro A Hora da Estrela, interpretada por Bethânia e Caetano. Aliás, são de pequenas grandes revelações que se formam todos os programas da série. Quando o homenageado é João Cabral de Melo Neto, Bethânia ouve de Chico Buarque que uma de suas obras-primas, Construção, tem uma estrutura essencialmente cabralina. A dupla, aliás, interpreta justamente essa canção.

Bethânia faz questão de ressaltar que a poesia de Cabral não é apenas seca e cerebral, como habitualmente é tachada, mas também romântica, ainda que de uma forma peculiar. Ela confessa também a dificuldade que ainda encontra para declamar versos do poeta. “A sensação que tenho é que sua escrita é tão forte, tão bonita e completa que qualquer coisa ali sobra. Até a sonoridade das palavras interfere. Imagino o João Cabral reclamando: ‘mas que inferno essa mulher dizendo meus versos. Deixa meu poema! Ele está escrito. Basta!’.”

Com Chico. Ele fala sobre a estrutura de ‘Construção’Com Chico. Ele fala sobre a estrutura de ‘Construção’

A cantora também é surpreendida por seus convidados. É o que acontece, por exemplo, quando ouve de Paulo César Pinheiro, no programa sobre Guimarães Rosa, a confissão de que compôs um de seus clássicos, Matita Perê, especialmente para Bethânia interpretar. Mas ela teria recusado, alegando não “cantar música de festival”. O mal-entendido se desfaz com uma belíssima apresentação.

Aqui, como nos demais episódios, a presença de um acadêmico serve para temperar a discussão, com observações mais profundas. O artista plástico e pesquisador Roberto Corrêa dos Santos, por exemplo, diz que Clarice Lispector buscava chegar ao limite da loucura, mas sem perder a consciência. Mas é de Alberto da Costa e Silva o comentário mais maroto, ao falar sobre o abolicionismo fervoroso que marca os poemas de Castro Alves: “mas ele tinha escravos”.

Texto origial: http://.cultura.estadao.com.br/noticias/televisao,maria-bethania-estreia-na-tv-programa-em-que-fala-de-literatura,10000059220

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