Mostra Internacional de Cinema: 22/10


 

EUREEEEEEEEEKA! EUREEEEEEEEEKA!

Os críticos fazem suas apostas, a imprensa indica os filmes, cada cinéfilo tem suas preferências, os prêmios nos grandes festivais internacionais se tornam chamarizes, mas há sempre o elemento surpresa. E este é um dos charmes da Mostra: a descoberta de um filme de grande qualidade que está perdido em meio a tantas apostas, uma minúscula planta epífita em meio à exuberância da floresta.

A 36a Mostra Internacional de Cinema tem, sim, um desses filmes.
A começar pelo título, talvez enganoso: FELICIDADE… TERRA PROMETIDA. A obviedade pode espantar um cinéfilo mais exigente e a sinopse (um homem que parte a pé pelo interior da França) talvez evoque o já abarrotado baú dos road movies de andarilhos.

Grande engano. O documentário é um road movie de um caminhante sem roteiro desenhado. Mas, apesar de ser apenas o segundo filme de Laurent Hasse, revela a competência de um diretor experiente. Primeiro, por fugir do convencional filme de viagens: nenhuma paisagem de cartão postal. Caminhando do sul para o norte, ele percorre uma região que é, como lhe dizem, um Triângulo das Bermudas do interior da França, passando por vilarejos só existentes como pontos no mapa do país. Nada de capital do vinho, capital da alface, cidade onde nasceu Joana d’Arc, vila onde Napoleão pernoitou…

Encontrando também esses franceses anônimos da França profunda (remeto-vos ao belo ensaio de “Em busca do Tempo Perdido: A França e seus Passados”, de Tony Judt, no livro REFLEXÕES SOBRE UM SÉCULO ESQUECIDO – 1901-2000 e ao filme LA VIE MODERNE, de Raymond Depardon), o diretor, sem teorizar nada, vai dando voz aos seres que encontra, no máximo perguntando-lhes, e no contexto do filme a pergunta surge como uma música incidental, o que é para eles a felicidade.

Mas ouvimos também a voz, ou melhor, os gestos dos seres sem voz. Um gato admirando sua dona enquanto ela prepara o almoço, um rebanho de cabras se refestelando no meio de uma estrada como se estivessem ao sol no Mediterrâneo, a cotovia empoleirada na precariedade de um galho… Entramos num monastério, cuja tomada, da direita para a esquerda, emoldura a cabeça do monge para, em seguida, acompanharmos a chama de uma vela que se embala no mesmo diapasão desenhado pela câmera. Ou então vislumbramos, por trás de uma vidraça fosca, um grupo de pessoas dançando: sem qualquer discurso, apenas o som de uma música portuguesa. A cena dura menos de dez segundos, mas somos transportados para dentro de um quadro impressionista à la Degas.

Há também a experiência da morte. Uma mulher que perdeu sua filha de 16 anos e declara: “quem não passou pela experiência da morte não está apto para a felicidade”. Conhecemos Nadine, cujo primeiro emprego ela só foi procurar aos 55 anos, o ermitão que se deleita com seu acordeão enquanto o fogo crepita, o velho pontuando a cantiga que afirma que só quem foi corno pode ser feliz…
Tudo numa “linha aleluia”, como nos movimentos da natureza, que se estende das profundezas da terra à energia cósmica, como o voo das abelhas ou o crescer das plantas, a melodia dos pássaros ou o vento que penteia a paina…

Um filme, enfim, cujo tema maior é o prazer de caminhar e descobrir que o que buscamos só pode estar dentro de nós mesmos. Na poesia de Alberto Caeiro, Deus vai à caixa dos mistérios, lá no céu, e rouba três mistérios. Com um deles se faz um deus eternamente na cruz, com outro se faz outra vez Menino Jesus e com o terceiro desce por um raio de Sol até a Terra e vai surpreender Caeiro em sua aldeia. Então saem os três de mãos dadas – Caeiro, o deus Menino Jesus e a Natureza – , surpreendendo as coisas com o espanto “que teria uma criança se ao nascer reparasse que nascera deveras”. Assim é este filme: o diretor, a Natureza e nós, espectadores, percorrendo aldeias do interior da França.

Outras sessões:
27/10 (sábado) às 20:50
ITAÚ AUGUSTA

30/10 (terça) às 22:25
LIVRARIA CULTURA

Há ainda sessões no OLIDO e na MATILHA CULTURAL, mas não são recomendáveis, pois as telas dessas salas são pequenas, o som é ruim, a projeção é ruim. As sessões são gratuitas e lotam com antecedência.

Outros filmes:

A COLÔNIA, de Serguei Loznitsa.
Cinema verdade da radicalidade. Cerca de dois minutos de diálogos, de fundo, em 80 minutos de filme. Em austero PB acompanhamos em tempo real o cotidiano de uma colônia de doentes mentais. Recomendado apenas para cinéfilos. Um terço do público abandonou a sala.

O GUIA PERVERTIDO DA IDEOLOGIA, de Sophie Fiennes. Faça tudo o que puder para ver este inteligente, profundo e engraçadíssimo documentário apresentado pelo filósofo esloveno SLAVOJ ZIZEK. Partindo da coca-cola e do kinder ovo, ele passeia por Stálin, Mao, Hitler, Fidel, pelo neoliberalismo, rock, naufrágio do Titanic, pelos filmes A NOVIÇA REBELDE, TAXI DRIVER, pelo musical WEST SIDE STORY, pelas Olimpíadas, pela publicidade e por várias outras referências para mostrar, com enorme profundidade, os mecanismos de construção e manipulação das ideologias. É o tipo de filme que jamais é lançado em dvd, provavelmente nunca será exibido em circuito comercial e muito difícil de se baixar na internet. Imperdível!

Outras sessões:
24/10 (quarta) às 15:20
ESPAÇO ITAÚ AUGUSTA

28/10 (domingo) às 14:00
MIS

30/10 (terça) às 16:00
ITAÚ – FREI CANECA 6

31/10 (quarta) às 20:00
CINESABESP

O GUIA PERVERTIDO DO CINEMA (também conduzido por SLAVOJ ZIZEK), sua primeira sessão será amanhã (23.1
0), às 19:00 na RESERVA CULTURAL. Garanta o ingresso na hora que abre a bilheteria. Essas sessões provavelmente estarão lotadas. ESTUDANTE, excelente adaptação do romance CRIME E CASTIGO para o Cazaquistão de hoje.
As duas últimas sessões são: 22.10 (segunda) 19:30 ITAÚ – FREI CANECA 4 30.10 (terça) 16:10 CINEMATECA Boas sessões para todos e programem-se para a primeira sessão do documentário HANNAH ARENDT (quinta às 20:00 no ITAÚ – FREI CANECA 5).

Professor Verô. 

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