Mostra Internacional de Cinema: quarto dia


 Sem rodeios: CAMP 14 – TOTAL CONTROLE ZONE foi, sem dúvida, um dos grandes filmes do dia.

Trata-se de um documentário alemão que reconstrói a vida (ou o que lhe foi permitido viver em condições que raiam o ficcional) do norte-coreano Shin.

Nascido em 1983 em um campo de trabalhos forçados na Coreia do Norte, Shin é filho de um condenado que, por cumprir à risca os trabalhos forçados, recebeu como prêmio a possibilidade de se casar com outra prisioneira, do mesmo campo 14, sob as bênçãos de um guarda. Obrigado a trabalhar em minas de carvão desde criança, Shin cresceu sem a noção de família, orientado apenas por um professor e pelos carrascos do campo. A comida era restrita a uma frugal porção de sopa de acelga e uma pequena porção de milho, todos os dias, 12 meses por ano. Desconhecendo a carne, mas sentindo o desejo instintivo de prová-la, ele e os demais prisioneiros (cerca de 40 mil no mesmo campo) disputavam os ratos, comidos inclusive com os ossos.

O campo se organiza a partir de cinco leis: não fugir, aceitar as condições de trabalho, delatar os que tentarem fugir, não ter relações íntimas com ninguém, não questionar nenhuma regra. Para qualquer infração, o castigo é o fuzilamento imediato. Além disso, os prisioneiros são obrigados a assistir às execuções públicas dos desobedientes. Foi assim que Shin presenciou as execuções da mãe e do irmão.

Os prisioneiros também são proibidos sequer de pronunciar em voz alta o nome do ditador norte-coreano e as torturas e os fuzilamentos são comuns também entre crianças. Ele relata, por exemplo, o caso de uma menina de cerca de 7 anos que roubou alguns grãos de milho e foi chicoteada durante cinco horas, até a morte, pelo professor, diante dos outros alunos.

Shin conseguiu fugir do campo em 2006, após passar sobre o corpo de um colega que morreu eletrocutado na tentativa de fuga. Cruzou a pé um rio congelado e chegou à China. Isso hoje não seria mais possível, pois todas as fronteiras da Coreia do Norte estão rigorosamente policiadas.

O documentário também apresenta imagens clandestinas de sessões de tortura com prisioneiros e depoimentos de ex-torturadores e executores que conseguiram abandonar a Coreia.

Quem desejar informar-se na escassíssima bilbliografia sobre a Coreia do Norte hoje, um dos poucos testemunhos existentes é o do jornalista, cineasta e atual diretor da revista Le Temps Modernes, Claude Lanzmann, que, apostando na confusão das fichas policiais, arriscou igonorar os registros sobre sua estada no país nos anos 1950 e retornou para lá recentemente. O relato desse testemunho se encontra entre as páginas 240 e 260 do seu livro de memórias A LEBRE DA PATAGÔNIA, lançado no Brasil pela Companhia das Letras.

Outras sessões:

27/10 (sábado) às 15:00
ITAÚ – FREI CANECA 2

29/10 (segunda) às 14:00
RESERVA CULTURAL

Última sessão: 

O LAGO BALATAN encerra sua participação na Mostra nesta terça (23/10), na sessão das 19:10
ITAÚ – FREI CANECA 6. Há ainda dia 01/11 a sessão do FESTIVAL DA JUVENTUDE, no SABESP, às 10h da manhã.

 

Outros filmes:

OS SELVAGENS.
Apesar da badalação da crítica, é um filme feito sob receita para ganhar prêmio em Cannes. Repete a fórmula de LAS ACACIAS. E repetiu o prêmio. Mais do mesmo. Começa bem e depois se enreda numa repetição sem evolução alguma.

SINFONIA DE PRIMAVERA.
Vale apenas pela beleza das canções em hebraico. O roteiro é banal, para não dizer forçado.

PADAK.
A animação sul-coreana padece de fôlego. Apresenta alguns breves bons momentos, mas no final se embaralha demais. A trilha sonora é um dueto Disney & West.

Filmes bem comentados:
Além do Horizonte, Estrada de palha, Voando alto.

 

Sugestões

Organizem-se para os documentários Margaret Mee e a flor da lua e Hanna Arendt (ambos com primeira sessão na quinta-feira, 25/10)

Relembrando os grandes filmes que merecem ser vistos:

1. O LAGO BALATAN

2. O GUIA PERVERTIDO DA IDEOLOGIA

3. FELICIDADE…TERRA PROMETIDA

4. CAMP 14.

 

Professor Verô.

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