Mostra Internacional de Cinema: nono dia!


Aviso: quem programou sessões para o ESPAÇO ITAÚ – AUGUSTA deve contar com um possível (e não pequeno) inconveniente: neste sábado, o ar condicionado não funcionou na sala 3 (onde são exibidos os filmes da Mostra). Pior: a gerência do Espaço não forneceu nenhuma informação, de modo que o público só ficava sabendo do problema alguns minutos depois de se encontrar dentro da respectiva sala. Esperemos que neste domingo o problema se resolva. De qualquer modo, vá com uma roupa bem leve, pois o calor era insuportável!

FILME QUE MERECE DESTAQUE: 

HANNA ARENDT, de Margareth von Trotta. Misturando imagens de arquivo com a reconstituição da vida da filósofa judia, o filme (de estética hollywoodiana mas não banal) centra-se no processo de condenação do criminoso nazista Adolf Eichmann. Mostra a polêmica levantada pela pensadora ao acusar os próprios líderes judeus de terem sido também responsáveis pelo Holocausto, na medida em que não se manifestaram de modo mais proeminente durante as prisões, as deportações e a “solução final”. Levanta, também, a denúncia da participação do Vaticano na concessão de documentação falsa para líderes nazistas poderem emigrar para a América do Sul.

A questão mais importante está, no entanto, no destaque para a tese original da “banalização do mal”, construída a partir do julgamento de Eichmann. O criminoso, em seus depoimentos, insistia que apenas cumprira ordens, que havia feito um juramento à cúpula do Partido Nazista e que, nessas condições, só poderia ter cumprido com o juramento. Compara, inclusive, sua atitude frente ao Partido à atitude assumida frente ao Tribunal (o juramento em nome da verdade): cumprir com o dever (o juramento), sem questionar se as decisões de seus superiores eram ou não corretas. Arendt formula, então, a tese da “banalização do mal”: a pessoa, a dimensão humana, desaparecem. O homem torna-se apenas um instrumento da ordem, das normas, das leis, mesmo que o seu cumprimento signifique o extermínio em massa do seu semelhante. E quando se admite isso, o sentimento de pertencimento à espécie, deixa de existir. O ser humano torna-se apenas uma besta cumpridora do dever.

O filme teve apenas 3 sessões e não será mais exibido. É preciso aguardar o anúncio, na quarta ou quinta-feira, dos filmes da repescagem e torcer para que ele esteja na lista.

O livro de Hannah Arendt, A BANALIZAÇÃO DO MAL, está disponível em edição da Companhia das Letras.

DOCUMENTÁRIOS RADICAIS

1. No PROGRAMA LOZNITSA 2 estão dois médias: BLOQUEIO e FÁBRICA, ambos em preto e branco.

BLOQUEIO (52min) não apresenta nenhuma fala e nenhuma trilha sonora. Apenas imagens do cerco de Leningrado durante a Segunda Guerra Mundial. Os ataques, os incêndios, a fome, os mortos… E o inverno rigoroso. O transporte dos mortos em trenós, a inexistência de caixões, os corpos apenas envoltos em lençóis (quando os havia), as covas coletivas escavadas no gelo e os sepultamentos em meio à destruição. Não há discurso nem explicações. Há fatos. E imagens, com a eloquência que o recorte do cinema-verdade lhes confere.

FÁBRICA (30min) reúne, também sob a técnica do cinema-verdade (do acompanhamento dos fatos em tempo real, sem qualquer intervenção do diretor e sem efeitos especiais) o cotidiano de homens e mulheres em diversos setores da indústria, destacando-se a siderurgia. É um retrato visual da realidade de milhões de trabalhadores de um país que há cem anos apostou na indústria pesada para reverter sua condição econômica de uma estrutura agrária para a industrialização.

Esses médias são recomendados apenas para quem tem interesse específico pelos temas abordados em cada um, pois são filmes bastante radicais em sua forma cinematográfica.

Outras sessões:

30.10 (terça) 19:00
FAAP

01.11 (quinta) 21:10
ITAÚ – FREI CANECA

Dia 30.10 (quarta-feira) a FAAP promove um evento especial:

11h00 exibição do PROGRAMA LOZNITSA 4 (com outros filmes de Loznitsa)

15h00 exibição do novo longa do diretor: NA NEBLINA

19h00 o já referido PROGRAMA 2

20h10 uma AULA MAGNA ministrada pelo próprio SERGEI LOZNITSA

 

2. BALLET AQUATIQUE, de Raúl Ruiz. Este documentário é uma homenagem ao documentarista francês Jean Painlevé, pioneiro na realização de filmes sobre o mundo marinho, nos quais conjugava elementos científicos e surrealistas. O mote do filme é a questão: por que é tão difícil, senão impossível, contar o número exato de peixes num aquário? A partir daí, o diretor envereda por soluções imaginárias para o problema, que, por sua vez, desencadeiam outras dúvidas: não seriam os peixes que vemos fantasmas dos peixes que já comemos? Cada peixe não poderia ser, então, um único e mesmo peixe primordial? O tempo não seria uma forma, uma espécie de encarnação das criaturas?

Uma das soluções estéticas para criar o elo entre o passado e o presente, os peixes desaparecidos (e seus possíveis fantasmas) e os peixes ao alcance do nosso olhar, é uma sobreposição de planos: a tela tomada pelas imagens de um filme de Painvelé (um daqueles polvos dançarinos que ele tanto amava), em austero preto e branco. E o polvo ali, indo e vindo, escalando as profundezas do oceano, esgueirando-se por entre a vegetação marinha, exibindo-se para a fauna e a flora aquáticas… De repente, da extremidade direita inferior da tela surge um peixinho vermelho, outro azul, depois um amarelo… Mas o mar (e a tela) são do polvo em pb. Os peixes coloridos apenas como que se arriscam nas profundezas do mar (e da tela), para logo em seguida desaparecer. Momentos depois, enquanto o polvo continua sua performance, vemos as delicadas barbatanas de outro peixinho amarelo tentando escalar a extremidade direita da tela. Mas aí os outros já passaram. E esse peixe que agora tenha ganhar a superfície é o mesmo que já aparecera ou é outro? Foi o polvo, a nossa imaginação ou a nossa incapacidade cognitiva que confundiram a contagem? A propósito, estávamos interessados em contá-los? Qual o interesse de se conhecer o número de peixes diante da surrealidade do quadro (o velho polvo do filme original e os peixinhos do nosso agora, a cor dos peixes das imagens do hoje e o pb do polvo, o que, por sua vez, instaura outra questão: o polvo era colorido e só não aparece em suas cores porque o filme foi feito na época anterior à cor no cinema).

Ou seja, nada se responde, pois o diretor escolheu esse caminho (de tom surrealista) das soluções (?) imaginárias. Na sua “simplicidade” e brevidade (apenas 52 minutos) este pequeno filme é, na verdade, de uma grande complexidade. Estas notas não pretendem explicá-lo; são apenas observações suscitadas após um primeiro contato com a película. Seria necessário revê-la outras vezes para falar com mais propriedade. Deixo-vos, então, na companhia de outra breve (e igualmente inquietante) narrativa.

De Jorge Luis Borges, extraída do livro EL HACEDOR (1960), e pedindo-vos para erguer os olhos das profundezas aquáticas para o “ar insondável”:

ARGUMENTUM ORNITHOLOGICUM

Cierro los ojos y veo una bandada de pájaros. La visión dura un segundo o acaso menos; no sé cuántos pájaros vi. Era definido o indefinido su número? El problema involucra el de la existencia de Dios. Si Dios existe, el número es definido, porque Dios sabe cuántos pájaros vi. Si Dios no existe, el número es indefinido, porque nadie pudo llevar la cuenta. En tal caso, vi menos de diez pájaros (digamos) y más de uno, pero no vi nueve, ocho, siete, seis, cinco, cuatro, tres o dos pájaros. Vi un número entre diez y uno, que no es nueve, ocho, siete, seis, cinco, etcétera. Ese número entero en inconcebible; ergo, Dios existe.

(EL HACEDOR, in Borges, Jorge Luis, Obras Completas, tomo II, p. 165, EMECÉ Editores, Buenos Aires, 1989)

Outras sessões:

29.10 (segunda) 14:00
CINUSP

30.10 (terça) 19:30
CINEMATECA
OUTROS FILMES:

FORA DO CAMINHO (regular),

CORONEL BLIMP – VIDA E MORTE (fraco),

L. (bom),

A CARA QUE MERECES (muito bom),

ALÉM DAS MONTANHAS (excelente e entrará em cartaz),

BERGMAN & MAGANANI (regular),

CANÇÃO PARA O MEU PAI (ótimo),

LAWRENCE ANYWAYS (ótimo e com sessões concorridíssimas),

INDIGNADOS (bom),

ENTRE O AMOR E A PAIXÃO (ruim),

ESTRADA DE PALHA (muito bom),

FELICIDADE (bom),

INGRID CAVEN, MÚSICA E VOZ (bom),

MIRADAS MÚLTIPLAS: O UNIVERSO DE GABRIEL FIGUEROA (bom),

OUTRAGE: BEYOND (bom),

REALITY (fraco),

SONATA SILENCIOSA (ótimo),

SPEED – EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO (ótimo).

 

LIVROS: nos quiosques da Mostra (no espaço do CONJUNTO NACIONAL, na Av. Paulista, e no shopping FREI CANECA) estão à venda:

1. OS FILMES DA MINHA VIDA, de Leon Kakoff (o idealizador da Mostra) – R$ 30,00

2. O AFEGANISTÃO, de Mohsen Makhmalbaf – R$ 5,00

 

Divritam-se! Bons filmes!!!

 

Professor Verô. 

 

 

 

 

 

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