Mostra Internacional de Cinema: oitavo dia


Entramos na última semana e começa a marcação corpo a corpo de cada filme. O público também, como ocorre todo ano, aumenta, sobretudo nas sessões do Cinesesc e dos shoppings. Portanto, o ideal é comprar os ingressos tão logo as bilheterias abram suas portas: às 13h00.

BONS DOCUMENTÁRIOS

1. Espaços inacabados: A história da escola de arte de Cuba, de Elysa Nahmias e Benjamin Murray (montador e finalizador de “Capitalismo: uma história de amor”, de Michael Moore).

No início dos anos sessenta, no entusiasmo da vitória da revolução cubana, Fidel Castro e Che Guevara convocaram Ricardo Porro, Vittoria Garatti e Roberto Gottardi, três jovens e visionários arquitetos italianos, para a criação do projeto da Escola Nacional de Artes de Cuba. Concebida como escola modelo, deveria ser não apenas o melhor centro de estudos de artes de Cuba, mas do mundo. Eram cinco conjuntos de prédios pensados numa arquitetura original, em que o próprio espaço deveria ser um convite à invenção artística. Por exemplo: a escola de teatro foi criada sem qualquer porta, janela ou parede convencionais. O teatro não é um lugar qualquer, não se entra nele à toa, e o indivíduo deve estar sempre preparado (seja ator ou espectador). Por isso, o prédio tem uma estrutura ao mesmo tempo labiríntica e franca, constituída de passagens, desníveis, espaços abertos e recônditos.

Passado o ímpeto pós-revolucionário, o projeto foi considerado não mais prioritário e abandonado. Óbvio que na decisão pesou também a “neura” do comunismo: alguns arquitetos foram considerados antirrevolucionários, suas ideias não coincidiam com o ideal de criação do novo homem e toda a história que conhecemos tão bem… Os prédios foram, então, ocupados parcialmente, de acordo com as possibilidades oferecidas pela infra-estrutura disponível. Não obstante, por lá passaram nas últimas cinco décadas boa parte dos grandes artistas cubanos das duas últimas gerações: pintores, muralistas, músicos, dançarinos, atores, atrizes e diretores de teatro e cinema.

Em 1991, com o colapso da URSS, Cuba perdeu seu principal mercado exportador e viu-se obrigada a reduzir em 75% suas importações. A maioria da população (fato pouco divulgado na época) passou fome! E as Escolas tornaram-se moradias improvisadas. Posteriormente, foram sendo invadidas pela hera, pela infiltração e até mesmo por um rio.

No início dos anos 2000, Fidel Castro reativou o projeto e decidiu finalizá-las. Muitas ideias dos arquitetos que as planejaram foram esquecidas e as intervenções estéticas do novo projeto comprometeram parte da concepção original. Essa atitude é lamentável, pois nessa história de tantos percalços é inegável o valor da originalidade dos projetos arquitetônicos, cuja marca principal é o franqueamento dos espaços. A inexistência das divisões convencionais confere a cada conjunto de edificações uma atmosfera de liberdade e criatividade (em que pese o paradoxo de uma população confinada a uma espécie de prisão domiciliar) e que são essenciais para a inventividade artística.

O estilo, difícil de ser definido, é uma apropriação de elementos da arquitetura brutalista (muito em voga nos anos sessenta), fusão de formas retas e ovais e integração orgânica com os espaços naturais. Os arquitetos italianos que as projetaram defendem que a retomada das obras não deve seguir necessariamente à risca a concepção sessentista, afinal a arquitetura sempre foi um diálogo vivo com as mutantes necessidades humanas. Ao mesmo tempo, não endossam muitas das espalhafatosas modificações realizadas.

A crise econômica de 2009 e, em seguida, a ocorrência de dois furacões em Cuba, fizeram o governo interromper outra vez a conclusão do projeto.

Outras sessões:

28.10 (domingo) 21:20
ESPAÇO ITAÚ – AUGUSTA

31.10 (quarta) 19:00
FAAP (local em que as sessões são muito tranquilas; sala grande e público escasso; não há problema algum para encontrar ingressos na hora das sessões)

2. NÔMADES DO INVERNO.
Documentário de estreia (e que já arrebatou vários prêmios em festivais internacionais) do diretor suíço Manuel von Sturler. Carole é uma parisiense de 28 anos que deixa a família, o apartamento, o conforto e o cosmopolitismo para se unir a Pascal, um pastor cinquentão. Acompanhados de três burros e quatro cachorros (um deles filhote), eles pastoreiam um rebanho de 800 ovelhas por 600 quilômetros na região da fronteira franco-suíça. A jornada estende-se por quatro meses, em pleno inverno. Surpreendidos por fortes borrascas, ora seguindo por rodovias secundárias, ora cruzando campinas nevadas, eles têm apenas uma lona com a qual improvisam uma barraca nos lugares onde pernoitam.

Por que se entregar a uma atividade tão dura? Pascal, segundo o proprietário do rebanho, ao cumprir a jornada anual, sempre diz que será a última vez. Mas, no ano seguinte, recomeça… E Carole, no esplendor da juventude: por que seguir junto a um homem rústico já em declínio físico? Por quê? A resposta está no filme, numa conversa entre Pascal, à beira da estrada, e dois moradores de uma aldeia, e num encontro à beira do fogo, enquanto o casal e outros moradores locais partilham suas memórias.

A fotografia, de neve e luz, quase impõe o silêncio. Quase… não fossem os latidos de Tutsi, Kiwi, Léon, os passos do burro Polo e, claro, o balido do rebanho com suas brancas lãs a se confundirem com a maciez da neve…

Rodado quase em tempo real, embora com planos mais curtos, este documentário dialoga com AS QUATRO VOLTAS (LE QUATTRO VOLTE), de Michelangelo Frammartino, que encantou o público na Mostra de 2010. Também remete ao belíssimo FELICIDADE… TERRA PROMETIDA, presente nesta Mostra e com sessões ainda nos dias 27, 30, 31.10 e 01.11.

Outras sessões:

29.10 (segunda) 22:30
ESPAÇO ITAÚ – AUGUSTA

01.11 (quinta) 14:00
LIVRARIA CULTURA (sala 1, a melhor das 28 da Mostra: tela enorme, som perfeito, disposição oval das cadeiras, ideal para apreciar um filme como este)

Observação: esse tipo de filme quase não desperta interesse no público. Na sessão do Frei Caneca havia apenas 16 pessoas. Não se preocupe em comprar ingresso com antecedência.

3. ÁFRICA NEGRA MÁRMORE BRANCO, de Clemente Bicocchi. A história do rei Leopoldo II, da Bélgica, um dos maiores genocidas da História, está bem documentada em O FANTASMA DO REI LEOPOLDO, de Adam Hochschild, e cuja edição em português está, infelizmente, esgotada. É possível, no entanto, inteirar-se do assunto no ensaio “O CORAÇÃO DAS TREVAS”, sobre o romance homônimo de Joseph Conrad, presente no livro A VERDADE DAS MENTIRAS, de Mario Vargas Llosa. Thierry Michel é o diretor belga que dedicou boa parte de sua vida a documentar a história do Congo. Nenhum de seus documentários jamais foi lançado no Brasil. KATANGA BUSINESS, o mais recente, pode ser encontrado em dvd nos EUA e na Europa. Os outros, apenas em dvd, sem legendas, na França.

Este documentrário de Clemente Bicocchi aclara mais um capítulo da centenária história de horrores e misérias do Congo, como, de resto, em praticamente todo o continente africano. No auge do Neocolonialismo, no final do século XIX, eram práticas comuns a invasão, o domínio, a escravização, a expoliação e a disseminação de culturas, línguas e povos inteiros na África. Tudo, como estamos fartos de saber, sob a égide do progresso e da civilização. O maior propagandista desse tipo de intervenção foi o explorador britânico Stanley. E quem levou essa prática ao ponto mais extremo foi o genocida rei Leopoldo II da Bélgica. Agora, o diretor mostra a ação do explorador italiano Peter Savorgnan de Brazza, o Pietro di Brazza, como ficou conhecido posteriormente (há farto material sobre ele na internet). Nascido na Itália e educado na França, Brazza seguiu na contramão dos países colonialistas do século XIX. Rejeitava a violência no estabelecimento do contato com os primitivos africanos. Negava também as tão alardeadas teorias racistas da época (presentes também no pensamento brasileiro, como é possível perceber em OS SERTÕES, de Euclides da Cunha e na literatura naturalista).

O filme realiza um recorte do Congo de hoje a partir de um ato aparentementem ilustrativo da boa diplomacia: a homenagem que o ditador do Congo realizou ao seu explorador pacifista, construindo um gigantesco monumento de mármore, na cidade de Brazzaville (a última cidade africana importante cujo nome homenageia um europeu), para onde foram transladados os restos mortais (com, claro, a presença de autoridades francesas e italianas) de Pietro di Brazza. A pompa da homenagem contrasta com a miséria do país. Retenha-se apenas essa imagem: as pessoas revirando lixões à procura de frascos de garrafas pet, que, cortadas ao meio e adaptadas a cordas e cipós, servem de calçados para a miserável população do Congo.

Outras sessões:

28.10 (domingo) 15:40
CINESABESP (sem problemas de adquisão de ingressos. Sala de quase 300 lugares para um público médio de 20 pessoas)

30.10 (terça) também às 15:40
ESPAÇO ITAÚ – AUGUSTA

01.11 (quinta) 19:30
LIVRARIA CULTURA

Para quem gosta de aventura, de descoberta e, sobretudo, não aceita a naturalização da História, talvez o desafio seja embrenhar-se numa sala escura entre o inóspito das grades de ferro da Coreia do Norte, o balido de ovelhas cobertas de neve e as selvas do coração da África. Afinal de contas, a Mostra é uma grande pulsação, como a vida, entre a inegável beleza do mundo e a insistente estupidez humana.

Pulsem! Divirtam-se! Bons filmes!

Professor Verô. 

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