Ótimos documentários da Mostra de Cinema Árabe


Entre os filmes da Mostra do Oriente Médio, três documentários merecem destaque.

1. HALABJA – AS CRIANÇAS PERDIDAS, de Akram Hidou (Iraque, Alemanha, 72 min)

O documentário acompanha Ali, de cerca de 25 anos, em uma visita ao cemitério de Halabja, onde ele se depara com a lápide onde está seu próprio nome, pois fora declarado oficialmente morto. No cemitério está enterrada quase toda a sua família, vitimada pelo ataque com gás venenoso ordenado por Saddam Hussein e Ali-Químico, em 14 de fevereiro de 1988, contra os curdos. Além das mais de 5.000 vítimas fatais, o ataque deixou milhares de pessoas cegas e com várias outras sequelas. Em meio ao caos, pais cegados pelo efeito do gás, nos momentos finais antes de perderem a consciência, amarravam-se a seus filhos, para não perdê-los. Muitas crianças, no entanto, ficaram órfãs; levadas para o Irã, foram adotadas por famílias sem qualquer grau de parentesco com elas. Vinte e um anos depois, um exame de DNA permite a Ali reencontrar sua família no Iraque. O exame é feito, na verdade, com cinco famílias que esperam pelo retorno dos filhos. A cena da revelação é, sem qualquer pieguice, de uma enorme comoção entre as famílias e os cidadãos de Halabja. Não menos contundente é o depoimento de Ali, perdoando Saddam e o Ali-Químico. Hoje existem ainda, acredita-se, cerca de 400 crianças no Irã separadas de seus pais curdos.

Quando e onde: 05.12 (quarta) no Cinesesc (Rua Augusta, 2075 – Jardins)  às 17h00

06.12 (quinta) às 17h30 e 07.12 (sexta) às 15h00, na Galeria Olido (Av. São João, 473 – Centro)

2. Programa duplo  (114 min) composto por

2.1  QUANDO OS ELEFANTES LUTAM, É A GRAMA QUE SOFRE , de Iara Lee, diretora brasileira (Síria, Turquia, EUA, 52 min).

 

 

Construído a partir de imagens veiculadas pela internet, câmaras amadoras e arquivos de TV, o documentário é um excelente material sobre a situação crítica que a Síria enfrenta neste momento. Mostra o autoritarismo, a perseguição e a violência do regime Baath, do ditador Bashar al-Assad, e  a luta da população civil para organizar o Exército Livre da Síria. O partido Baath inspirou-se no Nazismo e estruturou-se logo depois da Segunda Guerra. O governo realiza ataques constantes aos civis, obrigando os a se armarem; o armamento (é a tática do governo) lhe serviria de álibi para suas ações truculentas. Os civis, por sua vez, tentam realizar protestos pacifistas, o que é difícil, muitas vezes, para alguém que teve familiares e amigos assassinados pelas forças do regime. O documentário também elucida o drama daqueles que tiveram suas casas e propriedades invadidas, saqueadas ou destruídas e viram-se obrigados a fugir do país. Calcula-se que existam hoje cerca de 100 mil sírios na Turquia, 25 mil na Jordânia, 25 mil no Líbano e milhares de outros espalhados por países do Oriente Médio. Apesar dos prostestos, não só na Síria, mas no mundo todo (em várias capitais europeias, nos EUA e, como tem acontecido quase todos os domingos, nas imediações da embaixada da Síria, na Av. Paulista), a situação permanece crítica. A questão, no fundo, é de resposta mais cínica do que diplomática: a Síria interessa economicamente aos EUA?

2.2 TUDO ACONTECE NO LÍBANO, de Wissam Charaf  (Líbano, Emirados Árabes, 62 min)

Há décadas Beirute orgulha-se de ser a “Paris do Mundo Árabe” e o Líbano é considerado um símbolo da modernidade em meio à rigidez conservadora dos países da região. Em 1978, foi invadido por Israel. A guerra destroçou o Líbano durante os 22 anos de luta. Dividido entre muçulmanos, cristãos e inimigos, o país enfrentou ainda uma guerra civil. Em 2000, começou a ser reconstruído no governo do presidente cristão Rafic Hariri. Em que pesem as críticas que possam ser feitas a este governo, não dá para negar seus esforços em prol da pacificação e da tentativa de resgatar o lugar de referência do Líbano no mundo árabe. Esse esforço, no entanto, foi abortado com o atentado contra Hariri, em 14 de fevereiro de 2005. As versões são múltiplas (o Hezbbolah atribui a responsabilidade, por exemplo, ao serviço secreto da Síria) e até hoje não foram completamente elucidadas. O documentário expõe a divisão que ainda hoje marca a população libanesa. Destaca também o imenso poder da mídia, através da produção de videoclips (isso mesmo, clips de música pop) para contestar, mobilizar e radicalizar os ânimos da população.

Quando e onde: 06.12 (quinta) no Cinesesc às 15h00 ou 08.12 (sábado) na Galeria Olido às 19h30.

Apenas as sessões do dia da abertura foram gratuitas. Os ingressos custam 4,00 no Cinesesc e 1,00 no Olido.

Oportunidade única de acompanhar essas cinematografias, que não têm a mínima chance de serem exibidas comercialmente.

Professor Verô

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