Trigésima Bienal de São Paulo – A Iminência das Poéticas


Encerra-se neste domingo (09.12.12) a Trigésima Bienal de São Paulo. Intitulada A IMINÊNCIA DAS POÉTICAS, a exposição está organizada em torno do tema da ocupação do vazio. Considerando-se o número de obras e suas infinitas possibilidades de leitura, não quero pontificar nenhum juízo de valor. Apenas registro algumas obras que me parecem dignas de serem vistas.

Logo à entrada, no andar térreo, à esquerda, está uma instalação do(a) artista peruano PPPP questionando as explicações que frequentemente acompanham as artes plásticas:

POR QUE SE SÃO [cacófato presente na instalação] ARTES VISUAIS OS ARTISTAS AGORA FAZEM COISAS QUE NOS OBRIGAM A TER QUE ESTAR LENDO?

No 1º andar está outra inquietante performance do taiwanês Tehching Hsieh, ONE YEAR PERFOMANCE. Realizada entre 11 de abril de 1980 e 11 de abril de 1981, nela o artista foi fotografado durante todos os dias do ano em todas as horas. Um relógio de ponto mirado por uma câmera no alto está instalado à entrada, do lado esquerdo. Na sequência, sucedem-se, na horizontal das quatro paredes do ambiente, os 365 dias do ano, cada um acompanhado de 24 fotografias (dispostas na vertical) do artista, clicado no mesmo ambiente, uma espécie de quarto mínimo totalmente despojado. Um número reduzidíssimo (não mais que umas 30 fotografias) estão envoltas em luz noturna. As outras todas o mostram em desconfortável claridade. E em cada fotografia o relógio de ponto indica o escoar do tempo. Pareceu-me bastante interessante estabelecer uma associação com a poesia barroca da reflexão filosófica sobre a inexorabilidade do tempo, particularmente os poemas de Francisco de Quevedo e de Luis de Gongora. Deste último, transcrevo uma pequena obra-prima:

Medida del Tiempo por Diferentes Relojes (escrito por volta de 1582)

Si quiero por las estrellas
saber , tiempo, dónde estás,
miro que con ellas vas
pero no vuelves con ellas.
Adónde imprimes tus huellas
que con tu curso no doy?
Mas, ay, qué esgañado estoy,
que vuelas, corres y ruedas;
tú eres, tiempo, el que te quedas,
y yo soy el que me voy.

No 2º andar há uma simpática (sem trocadilho com o nome) instalação do artista colombiano Icaro Zorbar, SIMPATIA PELO DIABO. Até agora estou tentando entender o porquê deste título. Numa sala quase totalmente escura, no chão, no meio, a tela inclinada de um computador sucata exibe a imagem clichê (e deslumbrante!) do Sol se pondo entre duas montanhas. Amarelo fogo, laranja, vermelho, carmim, rosa, púrpura, violeta… nessa hora em que, como dizia o autor de ficção científica Issac Asimov, o dia não é totalmente dia, a noite não é ainda totalmente noite, e isso não impede o dia de ser dia e a noite de ser noite… No alto, numa curva entre a parede esquerda e o centro da parede frontal, um céu escuro povoado de minúsculas estrelas azuis (na forma de luzes). Ao centro da sala, cuja temperatura é muito quente, uma mesa com pequenos cataventos pontualmente iluminados em luz furta-cor e ronronando seus raios diáfanos, que são projetados na parede frontal de quem entra na sala e na qual é exibido, em pb, um balé aquático de arraias. Terra, ar, fogo, água. Movimentos dos reinos animal, vegetal e mineral em meio aos quais o olhar do bicho homem (pelo menos dentro de uma sala) pode passear sem destruir nada. Seria o homem o diabo?

Também no 2º andar, há uma desconfortável instalação do artista e performer francês Absalon: CÉLULAS (cada uma acompanhada de um número, que não me recordo). Todas brancas, são casas-casulo nas quais podemos entrar, passear e, sobretudo, imaginarmo-nos morando em espaços minúsculos, onde o corpo precisa contorcer-se a cada movimento para poder se deslocar ou realizar qualquer tarefa. Circulamos, assim, pela sala, pela cozinha, arriscamos o banheiro, esgueiramo-nos por uma espécie de prateleira onde tentamos deitar. Isso tudo em “ambientes” dispostos em até três pavimentos. Aberturas mínimas (janelas) se erguem na parte superior das paredes, próximas do teto, o qual, claro, encosta em nossas cabeças, ou melhor, um único e exíguo espaço em que ele nos toca, já que nos outros espaços das casas é necessário andar com a cabeça vergada. Em outras épocas, essas desconfortáveis construções teriam sido casas de boneca. Mas hoje são habitações em escala ligeiramente mais reduzida que um bom número de apartamentos nas megalópoles, como Tóquio.

No 3º e último andar estão (a meu ver desvalorizados em meio a tantas outras obras e não suficientemente isoladas) cerca de 300 trabalhos do Bispo do Rosário. Essas obras (que talvez nem sempre devam ser pensadas como artísticas e sim como expressão de suas inquietações e questionamentos) reúnem seus mantos, bordados, barcos, brinquedos e, entre tantos outros, os paineis de sucata. São muito interessantes aqueles construídos com objetos dos anos 70 (sabonetes, lanternas, pedaços de brinquedos, escovas, pentes, barbeadores, luminárias, vidros, potes, carretéis de linha, logos etc. etc.). É impressionante como conseguem presentificar toda uma década.

Também nesse último andar há uma encorpada série de fotografias realizadas pelo diretor de cinema venezuelano Alfredo Cortina. Ao longo de mais de quarenta anos ele fotografou sua esposa, a poetisa Elizabeth Schon, nos mais diversos lugares. Em posturas bastante parecidas, com um olhar estrábico que parece atravessar a fotografia e o espectador para buscar um ponto perdido no horizonte, ela aparece em lugares “não fotográficos”. Cria-se, assim, uma paródia da paisagem bucólica, do ângulo cartão postal, do pitoresco, ao mesmo tempo em que as fotograficas antecipam a hoje tão badalada arte conceitural.
Há centenas de outras obras. Acolhidas entre os vazios, esperam pela vossa descoberta…

Professor Verô

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