Quatro filmes inteligentes sem resposta


1. HOLY MOTORS, co-produção franco-alemã dirigida por Leos Carax.

 

 

No poema “A palavra seda”, João Cabral de Melo Neto evoca palavras “impossíveis de poema”. São aqueles vocábulos que, ao longo da história da lírica, à força da repetição, acabaram por perder expressividade. Situação análoga vive a publicidade: lançamento, novo, último, diferente, interessante são termos aos quais não raro permanecemos indiferentes.

Assim também acontece com certos lugares, objetos, animais, instituições. A carga de significantes a eles agregada se torna tão forte que eles passam a adquirir valor simbólico, tornando-se semióforos. Ao mesmo tempo, parecem tornar-se prisioneiros de sua expressividade e instalam-se  numa espécie de cristalização hiperpotenciada do próprio sentido.

Um tigre, uma orquídea, o Vaticano, o Corcovado, Nova Iorque, Paris ou os mares do sul são exemplos dessa hipertrofia do significante. HOLY MOTORS parte desse pressuposto. O que mostrar e dizer sobre Paris, uma cidade onde se discutiu mais ideias que em qualquer outro lugar e cuja inegável beleza serviu e continua a servir a inumeráveis ambientações para filmes, romances, ensaios fotográficos, propagandas e anônimas histórias individuais vividas ou sonhadas?

Na era digital das câmeras portáteis, dos celulares multifuncionais e dos registros acessíveis a qualquer cidadão, o que um diretor de cinema pode flagrar? Estará a cidade condenada a sua sina cartão-postal ou sua aura pode ser uma porta-desafio para outras percepções?

Em HOLY MOTORS um executivo residente num condomínio de luxuosas mansões art déco nos arredores de Paris embarca pela manhã em uma limusine towncar. Ao longo do percurso até o escritório ele começa a fantasiar outros personagens e outras vidas. O filme, como as bonecas russas (matrioskas) que vão se abrindo em outras, e outras, e mais outras, vai encenando as outras vidas do executivo. Não há, portanto, uma história. Há várias histórias-estórias, sem uma amarração. Seus significados, significantes, mensagens e interpretações ficam por conta de cada espectador.

O homem de negócios isolado em seu bunker móvel é tema, em outra chave, do recente COSMÓPOLIS, de David Cronenberg. Homens poderosos que, ao tempo de uma ligação de celular, podem tomar decisões capazes de abalar economias de países inteiros. O poder (seja político, econômico, ou, sobretudo, financeiro) capaz de isolar o homem de sua cidade, da natureza, dos outros homens e de sua própria humanidade é uma (e de modo algum a única) leitura possível para esse filme mais ousado que muitas produções autodenominadas experimentais.

E se a abordagem é pelo viés da ousadia, aqui fica a sugestão para conferir dois filmes geniais (e pouquíssimo conhecidos no Brasil):

– com recursos totalmente diversos de HOLY MOTORS (que aposta no exagero), a diretora belga Chantal Akerman desconstrói todos os clichês de Nova Iorque em NEWS FROM HOME (em dvd na Europa e nos EUA);

– a escritora e diretora francesa Marguerite Duras nos dá a ver uma Paris afastada de glamour em LES MAINS NÉGATIVES (filme sem nenhuma fala, em dvd,  apenas na França).

2. AS QUATRO VOLTAS

 

 

Filme de estreia do italiano Michelangelo Frammaartino, AS QUATRO VOLTAS foi exibido em apenas três disputadas sessões da Mostra Internacional de São Paulo, há três anos. Conquistou o público cinéfilo em meio segundo. Pelo radicalismo das técnicas adotadas pelo diretor, ninguém imaginava sua aparição em salas comerciais. E eis que o filme acaba de entrar em circuito no Espaço Itaú de Cinema da rua Augusta.

É um filme feito de quase nadas. Mas que dizem muito.

Numa aldeia medieval da região montanhosa da Calábria, no sul da Itália, acompanhamos um velho pastor em sua rotina: o passeio com o rebanho, o nascimento de uma cabra, as visitas à igreja, suas noites solitárias e sua fé, simbolizada por uma mistura de água benta e o pó recolhido do chão da igreja, que ele ingere como uma poção antes de se recolher à cama.

A rotina só é quebrada quando o vilarejo se reúne para um antigo ritual organizado em torno do tronco de uma árvore abatida. Enquanto isso, o carvão é produzido por métodos artesanais. E o tempo se escoa, inclemente, deixando a velhice e a morte se infiltrar no corpo da natureza. Do homem, do animal, do vegetal e do mineral. Quatro reinos. Como quatro são os elementais: a terra, o fogo, o ar, a água. Como quatro são as estações do ano e as estações da vida, onde se inscrevem as voltas do tempo.

 

 

Ao longo dos 88 minutos da fita não ouvimos nenhuma fala. Apenas o crepitar do fogo, a cantiga da chuva e o berro das cabras. A radicalidade da linguagem (ou sua ausência) é complementada pelos longos planos do cinema verdade. São recursos minimalistas que, contrariamente ao que ocorre com tantas obras experimentais (no cinema, nas artes plásticas, na música) o menos consegue ser muito mais. Despojamento e secura capazes de expressar a essência do humano com eloquência maior que a de prolixas avalanches de palavras e imagens.

3. UM ALGUÉM APAIXONADO, co-produção franco-nipônica do diretor iraniano Abbas Kiarostami.

Em Tóquio, um homem idoso recebe em seu apartamento-biblioteca um bela jovem, Akiko, com cacoetes adolescentes. Eles não são parentes nem amigos. Ele é um professor universitário e autor de livros de sociologia. Ela, tudo leva a crer, uma prostituta.

 

 

Mais tarde, enquanto ele a aguarda em frente à universidade onde ela estuda, é abordado por um jovem mecânico, o enciumado namorado da garota. É quando se estabelece uma relação de cumplicidade entre o idoso, o mecânico e a moça. O rapaz faz perguntas. O professor não as responde, mas também não mente. Prefere, como Bentinho em DOM CASMURRO, respostas omissas. E a moça também entra no jogo.

Respostas no ar, sentimentos à flor da pele, silêncios, olhares e meio-olhares. Tudo na lâmina da navalha. Haverá algo mais entre o professor e a estudante? Reconhecerá ela no velho acadêmico a figura do avô? Será ela uma garota de programa dividida entre o amor pelo mecânico e a premência de dinheiro? Junto a essas dúvidas, também paira a questão das identidades no espaço das megalópoles. O que é possível conhecer sobre o outro? Até onde permanecem ou se desfazem os tradicionais (ou frágeis) laços de família? como pode sugerir, aliás, a cena do início em que a avó de Akiko chega do interior e permanece uma tarde inteira numa estação de trem, enquanto envia mensagens pelo celular, aguardando a neta que não aparece.

O filme dispõe as cartas mas não define nenhum resultado. Antes convoca o espectador para dentro da(s) narrativa(s). As deduções e possíveis juízos do espectador o colocam, por sua vez, frente a outra questão: o que podemos conhecer sobre o outro? E até que ponto nossos julgamentos não serão pré-julgamentos?

Cinema inteligente que nos faz pensar e atuar.

 

4. PLANETA SOLITÁRIO, de Julia Loktev, diretora georgiana radicada nos Estados Unidos.

 

 

No dia 29 de dezembro de 2012 o Centro Cultural Vergueiro (Rua Vergueiro, 1000 – Paraíso) teve sua sala de cinema reinaugurada. Foi o último ato público da gestão de 8 anos de Carlos Augusto Calil à frente da Secretaria Municipal de Cultura. Tela, projetores e sistema de refrigeração perfeitos reintegraram o espaço, que andava meio abandonado, ao circuito dos cinemas de arte da cidade.

A reinauguração aconteceu dentro do CINEMA BIT – MOSTRA INTERNACIONAL DE CINEMA DIGITAL, juntamente com o lançamento de um livro sobre as atividades dos 30 anos do CCSP. A Mostra começou dia 15.12.12, foi interrompida por conta do calendário das festas de fim de ano, sendo retomada de 8 a 18 janeiro. Cada título tem duas exibições e um dos destaques é o filme PLANETA SOLITÁRIO (sua segunda – e última! – sessão acontecerá dia 17.01 às 17h00min; o ingresso custa RS 1,00).

No filme, Alex e Nica são um casal em viagem de férias antes do casamento. Acompanhados de um guia local, cruzam as altíssimas e quase inóspitas montanhas do Cáucaso, na Geórgia. Banalidades amorosas, pequenos desentendimentos, demonstração de machismo e vulnerabilidade são intercalados por anedotas e clichês turísticos relatados pelo guia. Pouco acontece. Quem interage com o grupo, silenciosa, é a natureza. É um desses filmes em que a imponência das paisagens naturais relativizam o homem, metaforizam os seus sentimentos ou evocam, simbolicamente, os insondáveis mistérios da condição humana.

As montanhas gigantescas, cortadas por precárias trilhas e recobertas por uma vegetação rasteira e roncolha, em esmeralda e pedras, apequenam os seres ao mesmo tempo em que impõem o desafio de cruzá-las e instauram a metáfora da travessia da vida, do conhecimento do outro e do intransponível da morte.

 

As tomadas em ângulos ascensionais dignificam o cenário e o elevam à estatura de protagonista.

Quatro filmes dominados por planos longos, extensas zonas de silêncio e, como em alguns grandes personagens machadianos, chamando o espectador para atuar como coadjuvante.

Professor Verô

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