Plegaria Muda – Instalação de Doris Salcedo


 

Quando pensamos em artistas plásticos colombianos, o primeiro nome que evocamos é o de Botero. Embora bastante conhecido no mundo inteiro por suas figuras gordinhas e cheias de humor e graça, é também um pintor de temas políticos, no sentido forte do termo. O conjunto de cerca de cem trabalhos intitulado “Dores da Colômbia” é uma exposição que ganhou um museu próprio em Bogotá e foi criado para ser uma mostra itinerante pela América Latina (esteve três vezes no Brasil nos últimos anos). Nesse trabalho extraordinário (e ninguém pode emitir qualquer juízo de valor sobre a obra de Botero sem conhecer essa série)  são retratados o narcotráfico, a violência, o crime organizado, as dores anônimas, a memória.

São Paulo recebe agora, pela primeira vez, uma obra de outra grande artista plástica colombiana, a escultora Doris Salcedo. Com trabalhos permanentes no MOMA (Nova Iorque), na Tate Gallery (Londres) e em Inhotim (Minas Gerais), ela se define como uma artista “de uma zona periférica” que testemunha a violência política e a fragilidade da vida.

Ouvimos falar com frequência da chamada crise das artes plásticas, das poéticas do vazio, da impossibilidade da representação, da arte conceitual (que muitas vezes parece perseguir conceitos que não consegue expressar)…  Salcedo está na contramão desses impasses  e do beco sem saída em que muito da produção pós-contemporânea se meteu. Nada de montes de terra com tijolos no chão, bonequinhos pendurados ou animais em tanques de éter. Sua obra é construída a partir de um declarado desejo de representação e de uma intenção política.

PLEGARIA MUDA“, a instalação montada no prédio da Estação Pinacoteca (até 3 de março), é um exemplo contundente dessa proposta.

Uma mesa é um objeto em torno do qual as pessoas se agrupam para comer, para conversar, trocar experiências ou, no plano individual, para escrever ou talvez realizar algum trabalho manual. O vazio não costuma,  portanto, ser um conceito associado à mesa.

Na PLEGARIA MUDA, a artista dispõe 120 mesas em arranjo duplo: uma mesa, uma camada de terra vegetal e outra mesa invertida. Por pequenas frinchas da parte inferior da segunda mesa brotam plantas. Delicados verdes surgindo da madeira escura e muda, a vida emanando do silêncio.

 

 

Espalhadas de forma irregular por duas salas, as mesas  impõem ao visitante um passeio por entre espaços ora mais abertos ora mais exíguos.

Na segunda sala, os espaços vão sendo ocupados de modo cada vez menos denso, à medida em que avançamos para o fundo. E a angústia arremessa com seus dois punhos fechados de encontro ao nosso estômago. Estamos, sem dúvida, circulando por um cemitério e agora estamos em meio aos espaços que aguardam os mortos de amanhã.

A economia de recursos (mesas, terra, plantas e espaços) constrasta com a pluralidade dos significados suscitados. Na edição do dia 06.12.12 do Estadão (pp. D1 e D4 do Caderno 2) há uma esclarecedora entrevista de Doris Salcedo. Transcrevemos, a seguir, um fragmento no qual ela elucida suas intenções:

“(…) A sociedade industrializou-se e o Holocausto é o elemento que nos permite pensar, pela primeira vez, na morte industrializada. Toda a simbologia que gerou é absolutamente importante e ela está sempre presente na minha obra, vinculada com elementos específicos da realidade colombiana.

(…) Sempre trabalhei pensando na vítima pura, no conceito de vítima que temos desde o Holocausto. E acredito que a cidade contemporânea, em que vivemos, nos obriga a mudar o conceito de vítima, que exerce, simultaneamente, dois papéis: vítima e vitimário. Ao mesmo tempo, as mortes anônimas se transformam em cifras.  Pareceu-me mais alarmante, quando comecei esssa investigação, ver que existia uma zona fluida, que ocorre em zonas marginais, onde a vida é mais difícil, denominada por muitos autores como zonas de “morte social”. Essa morte social, geralmente, antecede a morte violenta e essa é a origem da investigação. Mas ela tem, digamos, um capítulo colombiano terrível. O governo do presidente Álvaro Uribe (2002-2010) começa em 2003 a dar prêmios a militares se eles apresentassem alto número de mortos guerrilheiros. Como não podiam dar números reais, eles começaram a ir às zonas marginais das cidades, para oferecer trabalho a jovens desempregados, mas, na verdade, os levava a lugares remotos e os assassinava. É um aspecto específico da sociedade colombiana, mais brutal do que em outras cidades, mas essa situação ocorre e também pode se relacionar aos mortos das favelas daqui.”

“Essa situação também ocorre e pode se relacionar aos mortos das favelas daqui.” Retenhamos essa última frase e não fechemos os olhos. Essa é, de fato, uma terrível realidade das grandes cidades brasileiras e com a qual os jornais e noticiários nos servem à fartura diariamente. Os policiais recompensados, na forma de promoções, por vítimas eliminadas.

A propósito dessa barbárie e sua impunidade, há vários  textos de leitura urgente no ótimo livro 18 CRÔNICAS E MAIS ALGUMAS, de Maria Rita Kehl (Boitempo). Recomendamos algumas dessas crônicas, também disponíveis na internet: TORTURA, POR QUE NÃO?,  A MATANÇA DOS SUSPEITOS  e  SUA ÚNICA VIDA.

A instalação “PLEGARIA MUDA” ganha força ainda maior pelo local em que foi montada, a Estação Pinacoteca, no prédio onde funcionou o Departamento Estadual de Ordem Política e Social (DEOPS), durante a ditadura militar (1964-1985). E quem visitá-la pode estender o programa e conhecer o Museu da Resistência, no andar térreo do mesmo prédio.

Local: Estação Pinacoteca, no Largo General Osório, 66 – Luz, ao lado da Sala São Paulo.

Horário: das 10 às 18h, de terça a domingo.

Ingresso: R$ 3,00 (a meia entrada); aos sábados a entrada é franca.

Converse com os guias do programa educativo que se encontram no espaço da exposição: eles possuem um conjunto de fotografias sobre outros trabalhos de Salcedo. É interessante especialmente uma instalção intitulada “06 e 07 DE DEZEMBRO DE 2000“, sobre um massacre ocorrido no Palácio da Justiça em Bogotá.

Sobre a América Latina e a onipresente violência em sua história, há também dois bons filmes em cartaz: NO e INFÂNCIA CLANDESTINA.

Ver o link AMÉRICA LATINA EM FOCO: CINEMA POLÍTICO deste blog: http://cpv.com.br/blog/index.php/america-latina-em-foco-cinema-politico/

 

Professor Verô

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