Cinema 3D: Caverna dos Sonhos Esquecidos


PROGRAMA IMPERDÍVEL!

CINEMA 3D:  CAVERNA DOS SONHOS ESQUECIDOS ou

O que a mão humana desenhou primeiro, há 320 séculos!

Em 1994, um grupo de cientistas franceses descobriu a caverna de Chauvet, no sul da França. Uma estreita abertura, posteriormente alargada, permitiu o acesso a uma primeira gruta. Poucos metros adiante, o acesso era interrompido por um precipício de centenas de metros. Não era, constataram, a entrada principal.

Dentro da caverna

Mistérios foram se revelando. Uma câmara levava a outra, que se abria para uma galeria, que desembocava em outras câmaras, e assim sucessivamente. Os pesquisadores estavam, pois, no interior de um dos maiores achados arqueológicos do século XX: a caverna de Chauvet (o nome é uma homenagem ao chefe da expedição).


Os cinegrafistas não podem colocar os pés diretamente no chão da caverna.

Um terremoto ocorrido há milhares de anos soterrou o acesso principal. A ausência de luz, umidade e poeira permitiu a preservação, intacta, de um conjunto de cerca de 400 pinturas, criadas há mais ou menos 32 mil anos.

Esse conjunto de desenhos rupestres é o mais antigo registro de manifestação artística humana encontrado até hoje. São representações de treze tipos de animais, feitas com grande maestria. A exceção é a representação de uma mulher grávida.

Detalhe inquietante nessas pinturas é que quase todos os bichos apresentam um número de patas maior que o normal. O diretor do filme, o consagrado documentarista alemão Werner Herzog, levanta a hipótese da representação do movimento e afirma que essas figuras são uma espécie de proto-história do cinema. Outro aspecto curioso é a marca de uma mão na qual um dos dedos é ligeiramente mais afastado dos outros, acusando um pequeno defeito físico.

Como as impressões se repetem em várias paredes, tudo leva a crer que a mão pertence a uma mesma pessoa, provavelmente ao autor dos desenhos. Daí a probabilidade de que os homens que habitavam a região já apresentassem um elevado grau de evolução, havendo entre eles alguns dispensados das tarefas práticas (como ocorre em tantas culturas primitivas) para se dedicarem aos registros figurativos relacionados ao cotidiano do grupo.

Os desenhos, em traço preto sobre a superfície clara das pedras, surgem no filme iluminados pela luz fria de holofotes especiais, para evitar danos. Nossos olhos encontram-se com a beleza de bois, cavalos, leões, ursos e mamutes acordados de uma noite de 320 séculos!

A descoberta recua para mais de 10 mil anos a existência de cavernas com registros humanos. Antes de Chauvet, as mais antigas eram as de Altamira (na Espanha) e as de Lascaux e Rouffignac (na França), com datas fixadas em torno de 20 mil anos. Quando Lascaux foi descoberta, em 1940, por um grupo de meninos que brincava nos seus arredores, as pinturas no seu interior estavam perfeitas. A falta de cuidados especiais, no entanto, fez com que o choque entre as atmosferas interna e externa em pouco tempo apagasse a maioria dos desenhos.

Hoje as precauções são maiores, e o governo francês permitiu entrada à Chauvet para apenas um reduzido grupo de cientistas, Herzog e dois assistentes. A caverna permanece fechada e não será aberta à visitação turística ─ o que não impede de pairar sobre ela um perigo muito maior. Mas falar desse perigo seria colocar o grito na frente dos bois. A revelação, desagradável, fica por conta do final do filme. É quando o espectador terá sido levado para outra dimensão temporal e, rendido pela beleza dos bichos inscritos na pedra pela mão humana, refletirá e questionará sobre o conceito de progresso. Afinal, o diretor é Herzog e seus filmes jamais são uma mera celebração da beleza da natureza.

Sobre a tecnologia usada no filme

Caverna dos Sonhos Esquecidos surpreende pela inegável curiosidade que o assunto desperta, pela beleza e originalidade das imagens e também pela tecnologia empregada nas filmagens. Novas teorias, técnicas e tecnologias aplicadas à arte sempre inflamam e dividem o público. No Brasil, em 1917, ficou célebre a indignação de Monteiro Lobato (“Paranoia ou Mistificação?”) diante das técnicas vanguardistas assimiladas por Anita Malfatti. O escritor pontuou que aquela pintura só se diferenciava da arte produzida nos manicômios pelo fato de esta ser feita em condições inconscientes. E quando o cinema surgiu, no cerrar das cortinas do século XIX, não faltou quem visse nele uma arte sem futuro.

As influências das vanguardas adentraram o século XXI, vão bem, obrigado!… e aqui estamos nós, falando de cinema cem anos depois dos irmãos Lumière. Agora a tecnologia (e a moda) é o 3D. Mas o que nos chega são, em geral, filmes no estilo dos documentários bobocas produzidos pela Discovery: tediosos peixinhos zanzando no fundo do mar, astronautas flutuando na monotonia orbital ou animações com dinos arreganhando seus dentões não escovados. Some-se a isso as poltronas bamboleantes de certos “multiplex” e passaremos a associar o 3D a um mero recurso de espetacularização visual e movimento, algo capaz de provocar ”frisson”, como um “looping” na montanha russa.

Mas o diretor é Herzog. Por isso, a Caverna, ao lado de Pina, dirigido por outro genial alemão, Wim Wenders, são os dois primeiros filmes que usam o 3D não como recurso que permite o voierismo superficial sobre um ser ou um objeto, mas como linguagem artística capaz de possibilitar uma outra percepção da matéria fílmica. Em Caverna dos Sonhos Esquecidos,  essa percepção é a necessária sensação de profundidade (e que outro ambiente seria mais adequado senão um conjunto de grutas, câmaras e galerias por vezes até mesmo abissais?), os ângulos formados pelas curvaturas das paredes, as texturas dos desenhos (quase palpáveis, diga-se de passagem) e as paradoxais sensações de proximidade e afastamento (estamos dentro das galerias e não estamos, já que interditadas ao público; o passeio é possível apenas pelas lentes mágicas do cinema). Assim, o 3D deixa de ser acessório para tornar-se linguagem, no sentido nobre e estrito do termo.

As sensações de profundidade e textura também ganham expressividade pela cor: o negro dos traços espalhando-se com firmeza pela brancura das pedras. Diríamos uma película em PB, não fossem as nuances criadas pelos jogos de luz e sombra, reveladoras de cores ou matizes discretos. Pensamos então estar diante de um “trompe d’oeil” ou de uma dessas pinturas chinesas antigas, em que a concentração maior de tinta ou as pinceladas suaves criavam ilusões de cor, embora o artista usasse sempre apenas o nanquim. A narração, na voz quase gélida e intencionalmente didática (mas jamais pedante) do próprio diretor, é outro elemento que magnetiza o espectador e o lança no abismo do tempo. Acrescente-se ainda uma trilha sonora “perturbadora”, como escreveu Luiz Zanin em seu artigo do Estadão (22.01, p. D1), e que parece ecoar, à distância, algumas grandes trilhas do cinema assinadas por Philip Glass.

Descoberta arqueológica, celebração da arte, homenagem ao cinema são algumas leituras capazes de acolher esse filme plural. Seu questionamento maior, no entanto, é de natureza metafísica. O arco entre as figuras da caverna e os holofotes que as captam é de trezentos e vinte séculos. Mas o que dizer da mão e do olho que riscou esses cavalos e rinocerontes que nos espreitam? Qual a distância entre a genialidade dessa mão e desse olho de 32 mil anos e a mão e o olho que enquadram a câmera que ora os revela? Que pensamentos estiveram na mente daquele homem primevo acerca do porvir e que pensamos nós sobre os próximos 32 mil anos? Que sentimentos (amizade, medo, reverência ao belo?) estiveram no coração daquele artista, e quais sentimentos provamos diante dessas imagens? Quem contemplará esses mamutes e ursos e essas imagens do homem Herzog daqui a 320 séculos? Aliás, que línguas ou linguagens, admitindo que ainda existirão humanos, serão empregadas no ano 34.013 da(s) era(s) (pós)cristã?

MAIS PARA O NORTE

Agora recuemos para fora da caverna, tomemos a estrada até o aeroporto mais próximo e acomodemo-nos em outro prodígio tecnológico dos nossos tempos, uma aeronave. Repousemos um pouco nossos olhos inebriados por tanta beleza. E, num espaço de tempo não muito maior que o do filme, estaremos aterrissando na Finlândia.

O hemisfério sul é marcado pela pobreza, a política externa norte-americana é condenada por meia humanidade enquanto a outra metade a julga demente, e a Comunidade Econômica Europeia parece um boneco cujo manipulador perdeu o controle dos cordéis. Mas restam algumas partes do boneco ainda não danificadas, como a Finlândia. Lá, a miséria não existe, a ostentação não é apreciada, os livros ocupam lugar nas despesas de cada cidadão, a ética é um valor agregado às práticas cotidianas e a televisão não exibe videocacetadas nem a dança da lesma arretada.

Pois bem, na Finlândia, em Onkalo, está sendo construído o primeiro depósito permanente do planeta Terra para armazenar grandes quantidades de resíduos altamente radioativos. É o que registra o documentário Into Eternity, de Michael Madsen. Trata-se de um gigantesco sistema de túneis subterrâneos escavados em rochas extremamente dúcteis, a 8 mil metros de profundidade e estendendo-se por mais ou menos 30 quilômetros. A previsão é que a obra esteja concluída daqui a 200 anos e deverá durar 100 mil anos, ou seja, o tempo em que os resíduos de elevada radioatividade demoram para desaparecer.

 

O filme, entre essa e outras informações interessantíssimas, apresenta discussões em torno de como garantir que os homens desse futuro longínquo não “destampem” o perigoso depósito. Em que línguas ou linguagens deverão ser deixadas as advertências para esses homens do ano 102.013, quando todas as línguas hoje faladas provavelmente terão desaparecido? A “língua” mais eficiente, apostam os cientistas, será, talvez, a dos desenhos, figuras e representações pictóricas. Caveiras, ossos, arames, XIS e uma das versões d’O Grito, de Edward Munch.

De Chauvet, com seus graciosos animais em movimento, para a desolação do caminhante solitário sob o céu incerto. Chegaremos ao ano 134.013?

CODA

No Brasil, a caverna também está no cinema. E quem a revela é Cao Guimarães, um dos raros cineastas entre nós que pode ser chamado de diretor autoral . Rodado em 2004 e acrescido de um depoimento em 2010, o documentário (mas poderia ser ficção) A Alma do Osso nos leva para o interior de uma caverna, em Minas Gerais. É lá que vive o ermitão Dominguinhos da Pedra, de 72 anos. O filme adentra de maneira muito delicada o cotidiano desse senhor avesso aos grandes barulhos do mundo. Acompanhamos, então, seus hábitos e gestos, como o preparo dos alimentos, a varredura do chão, os acordes que ele tira do violão. Tudo como se o tempo não existisse. As falas situam-se não muito distantes das onomatopeias, a interação com o mundo das instituições inexiste e os outros homens, diríamos, pertencem a outro planeta. O diálogo maior do eremita é com os elementais. Ouvimos o fogo, o vento, a chuva encharcando a terra. E o silêncio que ele sente como nenhum de nós poderia sentir, no interior da sua caverna.

 

RECOLHA DOS TRÊS FILMES

1. Caverna dos Sonhos Esquecidos (Cave of Forgotten Dreams)

Onde e quando: CINESESC, Rua Augusta, 2075, entre os dias 1 e 7 de fevereiro, às 15h, 17h e 19h

Atenção: dia 26 não haverá a sessão das 17h;  dia 28 não haverá sessão às 19h nem às 21h

Valor:  R$ 6,00 a meia-entrada.

Cave of Forgotten Dreams, inédito no Brasil, está no ACERVO DO CPV (áudio em Inglês; legendas em inglês ou espanhol).

O trailer de  pode ser visto no Youtube: http://www.youtube.com/watch?v=dDkDB0aM-Lo&feature=player_embedded

2. Into Eternity só foi exibido no Brasil em duas sesões da Primeira Mostra Ecofalante de Cinema Ambiental (2012).

O filme foi lançado em dvd apenas na Europa e nos EUA e pode ser assistido no CPV (em horário agendado).

O áudio é em Inglês e as legendas são em Francês.

O dvd traz também uma ótima entrevista (em inglês, sem legendas) com o diretor Michael Madsen.

O trailer pode ser visto no Youtube: http://www.youtube.com/watch?v=qoyKe-HxmFk&feature=player_embedded

3. A Alma do Osso pode ser assistido no CPV (em horário agendado).

O dvd está ainda sendo comercializado nas lojas da Videolocadora 2001 e na Livraria Cultura.

LEITURAS RECOMENDADASvale a pena ler as excelentes críticas de Luiz Zanin Oricchio (VIAGEM À AURORA DO MUNDO) e de Luiz Carlos Merten (A CAVERNA COMO ESPAÇO PRIMEVO, ONDE TUDO COMEÇOU) na edição de 22.01, p. D1 do Estado de São Paulo.

É isso aí. Pensar o tempo é uma maneira de nos situarmos em perspectiva em relação à espécie a que pertencemos.

Professor Verô

+ There are no comments

Add yours