MASP: Exposição de um único quadro


MULHER DE AZUL LENDO UMA CARTA, de Vermeer

Em termos artísticos, a França e a Espanha destacam-se pelo elevado número de grandes escritores que deram ao mundo; a Alemanha e a Áustria, pelos filósofos e compositores de música erudita; e a Itália e a Holanda, pelos pintores.

O século XVII marcou a chamada Era Dourada da Holanda, quando o país, por meio da Companhia das Índias Orientais, estendeu seus domínios imperialistas por vários lugares do globo terrestre. O desenvolvimento artístico foi imenso e os dois maiores nomes da pintura dessa época foram Rembrandt e Vermeer.

O reconhecimento de Johannes Vermeer (1632-1675) foi póstumo. O pintor tinha uma família numerosa e passou por muitas privações econômicas. Biógrafos afirmam que não raro suas telas eram usadas como moeda para poder comprar comida. Pitoresca também é a informação de que vários quadros receberam, após a morte do artista, assinaturas falsificadas de outros mestres, para que pudessem alcançar valores mais elevados no mercado.

Só na década de 1860 começou a investigação sobre a autenticidade de suas obras. Chegaram até nós,  acreditam os especialistas, apenas cerca de 35 quadros efetivamente pintados por Vermeer. Quatro deles estão no Rijksmuseum, em Amsterdã.

Uma dessas telas é MULHER DE AZUL LENDO UMA CARTA. A obra, depois de passar por uma restauração que se  estendeu por um ano, está fazendo um périplo por três cidades  – Xangai, São Paulo e Los Angeles -, antes de retornar, no início de março, para a Holanda.

MULHER DE AZUL, que pode ser vista do MASP até o dia 10 de fevereiro, é um exemplo típico das preferências de Vermeer: o retrato de interiores, com poucas pessoas, cenas  da vida cotidiana, ambientes com reduzido número de objetos e, claro, a luz magnífica. Mulheres lendo ou escrevendo cartas, moças com colar, brincos ou copo de vinho, rendeiras. Criaturas concentradas em cenas de trabalho doméstico ou simplesmente mostrando sua beleza natural, realçada por algum adereço.

Em MULHER DE AZUL Vermeer retrata uma criatura ainda jovem, talvez grávida, em pé, próxima a uma janela (por onde escoa-se a luz), lendo uma carta. Sobre a mesa, há alguns livros e um estojo aberto. O que ela teria retirado dele: a carta ou o colar que traz ao pescoço? Podemos imaginar tratar-se de uma carta antiga (talvez de um amante), e o colar (quem sabe um presente recebido no passado) seria então um modo de relembrar o ser amado, enquanto se dá a leitura.

O quadro, composto em estrutura triangular, apresenta equilíbrio perfeito. A mulher, ao centro, está protegida pela mesa e as três cadeiras, uma das quais coberta por uma manta. Especialistas arriscam a sugestão da proteção como uma alusão aos perigos vividos na vida real pela esposa de Vermeer (admitindo-se ter sido ela o modelo do quadro): ela tinha um irmão com problemas mentais que a ameaçava com frequência.

Ao fundo, vemos um mapa da Europa do século XVII, numa óbvia referência  às  atividades da Companhia das Índias Orientais. E outras hipóteses podem ser levantadas: a carta talvez viesse de um amante ou um parente afastado por uma das longas  viagens da época áurea de comércio além-mar.

Como em outras telas, o pintor dispensa a paleta de cores muito variada. Vale-se basicamente do azul e do ocre, cores complementares que, junto ao tratamento da luz e à composição de arquitetura triangular, criam o equilíbrio. Uma curiosidade: o azul ultramarino, usado por Vermeer, à época em que o quadro foi pintado (por volta de 1665), era o tom de tinta mais caro. Os pintores precisavam, em geral, ter um patrocinador para poder adquiri-lo.

BREVE ANÁLISE EM LIVRO

O livro O Olhar , organizado pelo filósofo Adauto Novaes, reúne um conjunto de ensaios sobre a percepção visual. Um dos textos, “A Construção do Olhar“, de autoria da artista plástica Fayga Ostrower, traça uma linha do tempo da evolução da pintura, dos desenhos nas paredes da caverna de Lascaux (leia a CAVERNA DOS SONHOS ESQUECIDOS, neste blog) até as sutilezas das representações da luz. E a autora conclui sua explanação justamente analisando a MULHER DE AZUL LENDO UMA CARTA:

“(…) Nesta imagem, Vermeer representa uma cena doméstica, nada de excepcional, nada de lendário ou mitológico: uma mulher em pé ao lado da mesa, lendo uma carta. Mas somos imediatamente tocados pela profunda verdade que se irradia desta imagem, e pela beleza desta verdade. Ao acompanharmos as várias semelhanças formais,  o retângulo do mapa e o encosto da cadeira, a mesa com os livros, o brilho metálico das tachas de cobre, os diversos tons de cinzentos e azuis que se fecham em complementares com os tons de ocre, vemos todas as sequências convergirem na figura da mulher ereta, pesada na gravidez, alta na proporção, com a cabeça ligeiramente inclinada. Nas grandes sombras que a delineiam e no abandono de si, a mulher não só dá ao quadro peso e densidade visual como também dimensiona a profundidade do espaço ao redor dela. Sentimos como que uma paz secreta de coisas plenamente presentes. O silêncio meditativo que reina nesta imagem é quase palpável. Parece que se ouve a respiração da mulher.”

(Fayga Ostrower, in O Olhar, Cia. das Letras)

VERMEER NO CINEMA

A serenidade encontrada nas telas do artista não condiz com sua vida familiar, marcada por experiências conturbadas. Entre outras, um “affair” com uma ajudante do seu ateliê, o que acabou abalando seu casamento. Esse episódio está retratado no filme MOÇA COM BRINCO DE PÉROLA (direção Peter Webber), que se tornou um clássico do cinema cult nos anos 2000. A fotografia é impecável e o diretor procura usar apenas as cores dominantes nos quadros do artista. O filme está disponível  para empréstimo no ACERVO DO CPV.

INFORMAÇÕES PRÁTICAS

Local: MULHER DE AZUL  está exposta no MASP, na Avenida Paulista, 1578.

A exposição, constituída apenas por esta obra, é enriquecida por um conjunto de fotografias que registram o processo da restauração do quadro.

O ingresso dá direito à visitação das outras exposições em cartaz no museu.

Sugestão: visite LUZES DO NORTE, coleção de gravuras (há várias de Durer) que pertenceram ao Barão de Rothschild e hoje integram o acervo do Louvre.

Ingresso: 8,00 a meia entrada  (gratuito às terças)

Horário: das 10h às 17h, até 10.02.13

Se janeiro nos deu um verão com atmosfera do Hemisfério Norte – chuva, vento e frio – , deixemo-nos banhar, no tempo da contemplação de um quadro, na luz de Vermeer.

Professor Verô.

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