América Latina em foco: Cinema Político


Em São Paulo, todos os anos, esta é a época de vacas magras em termos de programação cultural. Os shows e as peças teatrais migram para cidades turísticas, como Rio, Salvador e Recife. O cinema, por sua vez, é dominado por comédias pastelonas no pior estilo de Hollywood ou produçõezinhas para entreter crianças. Em meio ao quase vazio e à banalidade, algo, porém,  se destaca.

Acabam de estrear duas produções latino-americanas de grande qualidade, ambas em cartaz no circuito dos cinemas de arte da região da Avenida Paulista e no Shopping Cidade Jardim.

1. INFÂNCIA CLANDESTINA. Co-produção de Argentina, Brasil e Espanha que irá defender a Argentina no Oscar 2013. Co-dirigido pelo argentino Benjamín Ávila e pelo roteirista paulista Marcelo Muller, traz no elenco outros dois brasileiros: Mayana Neiva e Douglas Simões.

 

 

A história política do século XX  na América Latina é dominada pela presença de sangrentas, corruptas e longas ditaduras. Não espanta, portanto, uma parte significativa da produção cinematográfica do continente estar voltada para estas chagas e sua memória. Os gêneros oscilam (e em todos há filmes de superior qualidade) entre ficções, documentários e filmes (como INFÂNCIA CLANDESTINA) nos quais é difícil separar a linha entre a experiência real e a criação artística.

Quando os militares tomaram o poder na Argentina, muitos civis exilaram-se em Cuba, de onde passaram a articular a resistência ao regime. O filme de Ávila recria sua experiência pessoal (sua mãe “desapareceu” em 1979, quando ele era criança). A trama organiza-se em torno da situação precária de uma família (os pais, o menino e um tio) que, depois de alguns anos de exílio na Ilha, decide voltar ao país. O disfarce implica a adoção de nomes falsos, a simulação de sotaque diferente e o esconderijo físico (uma residência improvisada por trás da fachada de uma fábrica de amendoim com chocolate, negócio que mantém a família). Com direito a um fino toque de humor negro: a doçura das guloseimas oculta a amargura dos proprietários.

O desenvolvimento da trama, por sua vez, não é nada simplista. O diretor habilmente cruza diversas tensões. No plano maior, obviamente, o contraste entre a ditatura (com seu desrespeito aos direitos humanos e políticos, suas perseguições e assassinatos) e os civis resistentes (seus sonhos, suas esperanças, seu idealismo político). Paralelamente, surgem as rivalidades dentro da própria família acossada: a avó do menino, por exemplo, recomenda corajosamente à mãe que, caso aconteça o pior, o menino deve ser confiado a um amigo engajado e não a uma velha “carola” como ela.  A tensão familiar também aflora nas divergências entre o pai e o tio do menino. Enquanto este encarna o idealismo da luta armada, aquele é marcado pela crueza realista.

Enriquecendo ainda mais esses planos sobrepostos, há também a inevitável descoberta amorosa do menino e suas implicações: identidade, riscos para a família (a partir de uma conversa telefônica com a “namorada” Maria), conflito com os pais…

Esteticamente, a película cria outra tensão no tratamento das imagens. Os momentos mais dramáticos dispensam as filmagens com atores e são construídos com técnicas de animação, nas quais se misturam elementos poéticos e trágicos, tanto no traço como nas cores.

Momentos críticos de crises políticas, sobretudo no contexto de ditaduras, são frequentes em filmes latino-americanos. As comparações óbvias que INFÂNCIA CLANDESTINA reclama são, entre outras, com o brasileiro O ANO EM QUE MEUS PAIS SAÍRAM DE FÉRIAS, de Cao Hamburguer (sobre um menino do bairro paulistano do Bom Retiro cujos pais foram “viajar”) e o argentino KAMCHATKA, de Marcelo Piñeyro (a história de um menino que se instala clandestinamente, com os pais e o irmão menor, numa propriedade isolada, até o “desaparecimento” dos pais, quando o menino terá que enfrentar uma ausência não explicada).

Onde e quando?
Shopping Cidade Jardim: Cinemark 5 – terça e quinta, às 20h00

2. NO, de Pablo Larraín

Proporcionalmente ao número de seus cidadãos, a Argentina foi o país da América Latina que teve o maior número de mortos ou desaparecidos pelas mãos dos militares. No entanto, a mais sangrenta ditadura do XX foi, sem dúvida, a estabelecida no Chile, após o golpe de estado liderado pelo general Augusto Pinochet, em 11 de setembro de 1973, contra o presidente socialista (eleito democraticamente) Salvador Allende.

O governo de Pinochet interrompeu as reformas de base, as desapropriações das multinacionais, a nacionalização da indústria do cobre e outros empreendimentos de Allende. O Chile cresceu economicamente mais que qualquer outro país latino-americano durante o governo de Pinochet. Mas a distribuição dos lucros gerados por esse crescimento, como todos sabemos, concentrou-se nas mãos de uma elite favorecida pelo regime.

No final dos anos 80, a situação atingiu um ponto crítico e a contestação da política de Pinochet passou a ser feita também dentro de alguns segmentos da própria direita. Por outro lado, a pressão da imprensa, de governos estrangeiros e de comissões de direitos humanos tornaram ainda mais difícil a manutenção da ditadura.

Foi nesse contexto que, em 1988, a junta militar que governava o país permitiu a realização de um plebiscito, no qual os eleitores diriam “NO” ou “SÍ”. Muitos afirmavam ser o plebiscito uma mera formalidade, uma simulação de liberdade política, dadas as condições em que iria se realizar. Afinal de contas, os quinze minutos diários concedidos à direita e à esquerda passavam pelo crivo da censura da televisão estatal.

No filme, Guzmán, interpretado por Alfredo Castro, articula a campanha em favor da permanência da direita. René Saavedra, através da atuação de Gael García Bernal, é um cidadão chileno que, após retornar do exílio no México, irá trabalhar numa agência publicitária na qual dirigirá a campanha pelo NO. Mas a realiade concreta nunca é maniqueísta e ele enfrenta o desafio de conjugar as diferenças entre os segmentos que se opõem à ditadura. Seu mote é o da alegria e da esperança. Daí a contestação (e uma das dimensões da complexidade do filme): ao se utilizar de técnicas do marketing político, “vendendo” a campanha como um produto comercial, ele não estaria traindo os ideais de Allende?

Onde e quando?
Livraria Cultura 2 – 14h00, 16h10 e 21h50.

Mais filmes sobre o Chile

Quando se fala pelas lentes do cinema sobre a ditatura de Pinochet, não é possível ignorar o nome de Patricio Guzmán. Encarcerado no famoso Estádio Nacional quando o ditador tomou o poder, Guzmán exilou-se posteriormente em Paris e dedicou sua vida a inventariar esse sinistro capítulo da história política recente de seu país.

A BATALHA DO CHILE – A MEMÓRIA OBSTINADA (com cerca de 5 horas de duração), SALVADOR ALLENDE e o recente NOSTALGIA DA LUZ são soberbos documentários sobre o tema. Apenas o primeiro encontra-se disponível (somente para locação) nas lojas da VIDEOLOCADORA 2001. Nenhum foi jamais exibido comercialmente no Brasil. Em 2011, Guzmán foi um dos homenageados no FESTIVAL INTERNACIONAL DO RIO. Em um debate após a sessão de SALVADOR ALLENDE, perguntei-lhe como e por quem seus filmes sâo vistos  hoje no Chile. Ele respondeu que as exibições se restringem a uma breve temporada em um reduzido círculo de cinemas de arte e circuito universitário, não atingindo mais que setenta mil espectadores (o Chile tem cerca de 20 milhões de habitantes). Disse também que a história da ditadura é ensinada apenas na forma de um verniz nas escolas. Não é discutida nem analisada.

De Pablo Larraín existe também POST MORTEM: ambientado num hospital de Santiago, acompanha o trabalho de um médico legista que realiza os atestados de óbito das vítimas da polícia de Pinochet.

Que a lucidez e a memória da consciência política estejam presentes  entre todos no ano que ora se anuncia.

 

Professor Verô

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