Dia da Mulher: Comemorar ou não?


Há quem diga que celebrar o dia internacional da mulher ou da secretária é uma forma de reforçar preconceitos. No Brasil, homenageamos também o índio e a consciência negra. Mas não há um dia da consciência branca, assim como não há um dia do empresário ou do homem.
Essas comemorações parecem apontar, de fato, para homenagens a alguns grupos historicamente menosprezados e explorados. A realidade, no entanto, é mais complexa e as homenagens, se consideradas com mais acuidade, talvez não sejam desprezíveis.
Na Idade Média, a Europa, autonomeada civilizada, discutia se a mulher estava mais próxima do homem ou de um animal. Mulher tem alma? era a dúvida levantada por muitos teólogos e pensadores. A mesma questão se estendeu, alguns séculos mais tarde, ao gentio. Índio tem alma? Está mais próximo do reino humano ou animal?
Essas indagações hoje nos horrorizam e se afiguram como aberrações. Não obstante, volta e meia somos surpreendidos por alguma notícia, vinda de um país islâmico, sobre uma mulher condenada à morte por apedrejamento.
A sociedade de Gambaga, na África, acredita piamente em feitiçarias, atribuindo-as, em geral, a mulheres. Milhares de seres do sexo feminino são, então, condenados ao degredo em fazendas de trabalhos forçados. Se, depois de muitos anos, a comunidade que condenou uma mulher achar que ela pode retornar, ela será submetida a uma prova. O chefe tribal cortará a cabeça de uma galinha e, enquanto esta se debate, todos aguardam o veredicto. Se a galinha morrer com as asas viradas para baixo, a mulher continuará escrava, pois, segundo a superstição, não se purgou do crime de feitiçaria.
Em nossas sociedades assentadas em leis escritas, não aceitaríamos uma prática tão bizarra. Mas existem outras, como o apedrejamento ou, em muitos lugares da África, da Ásia e da Oceania, os casamentos decididos entre familiares ou chefes tribais, sem que a mulher tenha qualquer possibilidade de escolha. Em suma, a mulher é vista como um ser privado de vários direitos concedidos ao sexo masculino e incapaz de exercer o seu livre arbítrio.
Em contrapartida, as sociedades ocidentais modernas, embora tenham discriminado a mulher de muitas formas, nunca deixaram de, paradoxalmente, enaltecê-la. Ela serviu — e serve — de fonte de inspiração para a poesia e a música popular mais do que qualquer outro ser ou objeto. Inspiração, na verdade, é uma expressão simplista. A mulher tem sido, a bem dizer, alçada às dimensões mais elevadas já concebidas pelo espírito humano.
Assim, durante séculos, encontramo-la descrita como flor, musa, anjo, santa, deusa, sol, lua, estrela, fada, gata, pantera, onça e agora, entre os adolescentes, “mina”. Mas o que designaria exatamente “mina”? Um carinhoso diminutivo de menina ou uma misteriosa mina subterrânea onde se esconde uma riqueza? Afeto delicado ou objeto a ser explorado?
Esta incerteza, aparentemente banal, diz muito sobre como a mulher foi vista pelas diversas sociedades ao longo dos últimos séculos. Um ser ao mesmo tempo enaltecido e desprezado. A poesia e a música a comparam às divindades, aos astros e aos felinos. Mas por que não a veem como mulher, por que ela não pode ter um corpo, não pode sentir prazer ou manifestar sua inteligência?
O Brasil, só no século XX revelou uma primeira escritora mulher de reconhecido valor literário, Cecília Meireles. A poetisa criou uma “poesia pura”, difícil de ser classificada em qualquer estética, mas de um lirismo poucas vezes visto na história da língua portuguesa. Mas Cecília fala apenas de olhos, boca, semblante, cabelos. A mulher, em seus poemas, nunca tem mãos, ventre, sexo, pernas, pés. É apenas rosto, do qual emanam pureza e elevação. Como se o seu próprio corpo lhe fosse, de alguma maneira, interdito.
Mas, em que pesem nossos credos políticos, elegemos uma mulher para o cargo de Presidenta da República. Sim, Presidenta, como Dilma escolheu, embora a gramática admita o emprego da forma masculina para nomear um chefe de Estado do sexo feminino. Constatamos, no entanto, que raros são os órgãos de imprensa que empregam o Presidenta. Uma forma, portanto, nada velada de machismo e de negação da igualdade da mulher.
Mais curioso ainda é o dicionário. Qualquer pesquisa baseada num contraponto entre verbetes dedicados ao homem e à mulher mostrará, com toda naturalidade, o fiel da balança pender para o homem quando se elencam exemplos elevados, e inverter-se para a mulher quando os valores aferidos são negativos. Preconceitos linguísticos e preconceitos históricos. Ilustrações vivas da dialética da história, que nunca é dada, mas construída a cada segundo pelo homem e pela mulher.
As relações de poder, a Igreja, o Estado e a Arte se encarregaram, historicamente, de fixar o lugar da mulher. “Cortam-lhe as asas e depois se admiram de que não saiba voar”, escreveu Simone de Beauvoir, em O SEGUNDO SEXO. “E assim”, continua a escritora francesa, “cuidando de panelas e embalando criancinhas, a mulher não pode viajar, não pode ver o mundo, e desse modo jamais poderia ter pintado os girassóis de Van Gogh”.
Simone foi responsável por muitas das conquistas femininas no século XX. Hoje, no entanto, uma nova mistificação oprime milhões de mulheres em todos os cantos do planeta: o mito do corpo perfeito. A pele, os cabelos, o rosto, o nariz, a boca, os dentes, os braços, as mãos, as unhas, as omoplatas, os seios, o ventre, o quadril, as pernas, os pés, as unhas outra vez, a estatura, o cóccix, o bumbum, o fêmur, a tíbia, os rins, o fígado, o pâncreas, os intestinos, as mitocôndrias, as células, o núcleo das células, os átomos do núcleo das células….
E assim a mulher sofre. Nem miss agora consegue ser feliz. Todas fazem dolorosas cirurgias, eliminam costelas, afinam os narizes, injetam silicone, alisam os cabelos, correm, malham, nadam, saltam, fazem ginástica localizada, dieta de alface, ananás, coca diet, paçoca light, novena-para-nossa-senhora-da-boa-forma… E aquele charme das moças desfilando a beleza de suas diferenças foi substituído por uma monotonia infinita. A passarela se transformou numa linha de montagem de bonecas de camelô. Todas iguais.
A mulher sofre também porque precisa se vestir com roupas de grife, usar bolsa Louis Vitton, óculos Gucci e brinco Versace. Precisa ser fotografada, nem que seja para se ver como celebridade anônima no visor do celular entre duas paradas de ônibus. Precisa vestir a cor da moda. E se acertar a cor corre o risco de ser acusada de estar aproveitando o modelito para fazer campanha presidencial antecipada!
Em meio a tantas exigências, preconceitos e acusações, que pode a mulher? Pode tudo, ora. E tudo significa assumir-se como o que ela é e não o que os outros querem que ela seja. Quem dá a resposta é Vinícius de Moraes, num poema de título enganoso, “Receita de Mulher”.
Para o poeta, tão fino e afinado com as belas coisas da vida, a mulher ideal é aquela em que “haja uma hipótese de barriguinha, uns ossos despontando, um aroma próprio apenas sensível e com um mínimo de produtos farmacêuticos”, aquela que “tenha atitude mental dos altos píncaros”, que, “quando acariciada no fundo de si mesma transforme-se em fera sem perder sua graça de ave” e que, “em sua incalculável imperfeição constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação inumerável”.
Ou seja, a mulher perfeita é aquela que, nas suas tantas imperfeições, é única e insubstituível.
Porque inteligência e beleza não podem ser moldadas em academias e muito menos serem adquiridas em lojas de grife. E se a mulher desejar uma bolsa, não vá pensar que é o novo lançamento exposto na vitrine da Oscar Freire ou da Avenue Montaigne que irá deixá-la mais bela. Elegância, como diz Danuza Leão, é saber descobrir aquela bolsinha de 20 reais (ou 20 euros), ali, numa lojinha simplíssima de uma rua de Copacabana ou da Saint André-des-Arts, em Paris. Mas que tem a sua cara e foi feita só para você!
Enquanto deputados discutem se Dilma estava usando vermelho, rosa ou goiaba, se estava fazendo campanha ou sintonizando-se com a moda; enquanto as colunas sociais e as telas de Hollywood elegem as mais belas (não seriam, talvez, as mais peruas?), enquanto as lentes da Globo captam os corpos mais perfeitos no camarote da Brahma, e enquanto outras mulheres continuam a ser apedrejadas ou a terem seus destinos decididos por uma galinha, é interessante eleger um dia da mulher.
Claro que o seu dia é todos os dias. A data, no entanto, é uma maneira simbólica de lembrarmos que muitos direitos ainda precisam ser dados às mulheres e que importantes conquistas nunca excluem a possibilidade de novas (e idiotas) mistificações. O que define a fêmea, lembremos outra vez Simone de Beauvoir, não é a sua capacidade biológica de gerar filhos, nem sua realidade psíquica ou econômica, é o conjunto do que a civilização elabora.
Que a mulher repudie, portanto, as falsas gentilezas e homenagens flambadas no discurso publicitário e midiático. E siga, altiva, com o seu corpo, a sua beleza e, sobretudo, a sua inteligência e a sua criatividade, que não são, nem nunca foram, inferiores ou iguais às do homem. São, como as de todos os seres humanos, infinitas.
Texto do Prof. Veronese
Homenagem do CPV às nossas mulheres

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