A complexa realidade do mundo árabe em dois grandes documentários


 

É TUDO VERDADE 

 

1. O FANTASMA DE VALENTINO, de Michael Singh (EUA)

 

valentinos ghost

 

 

ORIENTALISMO: O ORIENTE COMO INVENÇÃO DO OCIDENTE, de Edward Said, é um clássico dos estudos culturais. Em uma alentada pesquisa, o autor transita, entre outras áreas, pela historiografia, pela literatura e pela filologia para desconstruir os clichês ideológicos construídos pela cultura ocidental sobre o Oriente. Desvenda os mecanismos profundos que fundamentaram os saberes acadêmicos das mais renomadas universidades europeias e americanas, e também os preconceitos por trás das obras de grandes escritores que escreveram sobre o Oriente, cujo exemplo mais famoso talvez seja o romance SALAMBÔ, de Flaubert.

O FANTASMA DE VALENTINO é um excepcional documentário (quiçá o mais interessante deste Festival) que empreende uma tarefa semelhante à de Edward Said a partir de produções holyywoodianas, especialmente as protagonizadas por Rodolfo Valentino. A ARÁBIA ROMANCEADA, CLEÓPATRA, O LADRÃO DE BAGDÁ, O FILHO DO SHEIK e O ÁRABE COMO PELE-VERMELHA são alguns títulos que ajudaram a construir uma mistificação pejorativa sobre os árabes.

Tudo começou com os planos expansionistas de Napoleão, quando, em 1798, ele invadiu o Egito. Em 1917, outra etapa decisiva do jugo se estabeleceu com a rendição de Bagdá aos britânicos. Desde então, os árabes nunca mais tiveram uma trégua.”Exaltados”, “cruéis” e “indisciplinados” são alguns dos adjetivos empregados pelo The New York Times para descrevê-los quando eles começaram a lutar pela independência perdida.

A partir da década de 1930, quando os EUA passsaram a se interessar pelo petróleo existente na região, o cinema, Valentino à frente, tornou-se o principal veículo para disseminar uma imagem negativa do povo árabe. LAWRENCE DA ARÁBIA, de David Lean, lançado em 1962, permanece até hoje como a obra mais emblemática dessa mistificação. Sua ideologia é clara: os árabes precisam de uma autoridade para liderá-los. Ingredientes ideológicos passaram a frequentar as produções adultas e infantis. Nas animações de Aladim, por exemplo, os islâmicos são sempre criaturas de pele mais escura. E a pele escura, esclarece Gore Vidal, representa, segundo uma velha tradição anglo-saxã, o lado mais sombrio da alma.

A situação torna-se mais dramática e complexa com a criação, em 1948, do Estado de Israel. Enquanto este não existia, os israelenses praticaram o terrorismo para expulsar os britânicos do Oriente Médio, entre 1945 e 1948. A criação de Israel, com o lobby americano, ajudou a estigmatizar ainda mais os árabes. O romance EXODUS e, posteriormente, o filme homônimo serviram para dar apoio ao Estado de Israel e, por extensão, aos EUA.Nesse contexto, a causa palestina só começau a chamar a atenção da opinião pública internacional na década de 1970, através de sequestros de aviões e atentados.

O processo de discriminação por parte do Ocidente remonta, na verdade, a tempos muito mais antigos. Em 1095, o Papa Urbano II já dera início à demonização do Profeta Maomé, do islã e dos árabes. Assim se explica também a condenção feita por Camões, n’OS LUSÍADAS, publicados em 1572. Como o poema procura justificar a colonização do Oriente em nome da aliança entre o Rei e a Igreja Católica, o Velho do Restelo (que representa a tradição e a parcimônia) argumenta que os portugueses não devem se aventurar para o extremo Oriente, pois lá estão terras amaldiçoadas, isto é, sob o domínio de Maomé.

A propaganda dos papas, a expansão napoleônica, o domínio britânico, a criação de Israel (do ponto de vista geopolítico) como uma espécie de estado-satélite dos EUA, e a propaganda da indústria cultural de massa no Ocidente contribuíram para a construção de uma imagem negativa dos árabes. Mais recentemente, a Revolução Islâmica do Aiatolá Khomeini, em 1979, no Irã, veio reforçar os estereótipos xenófobos já existentes.

O Oriente passa a ser visto, mais do que nunca, como um lugar de fanatismo perigoso. E os EUA, interessados no petróleo da região, tentam derrubar o governo iraniano. À grande mídia e à indústria de entretenimento cabe, então, a manipulação da opinião pública. Conglomerados de mídia como a HBO, jornais como The New York Times, as revistas Life e Time e produções de Hollywood se encarregaram de construir os estereótipos. Por isso, a mídia americana dispensa tanto espaço para debates em torno de questões como aborto, controle de armas e ações afirmativas, mas não dá nenhum espaço, por exemplo, para a discussão sobre a ocupação dos territórios palestinos por Israel.

Nesse arcabouço midiático, só os aliados dos EUA têm voz. Por que artistas como Vanessa Redgrave, Peter Gabriel e Pink Floyd levam ao mundo, em meio a suas apresentações, imagens dos palestinos? pergunta o historiador John Mearsheiner, da Universidade de Chicago. São poucas as vozes que ousam se levantar contra a política externa americana. A indústria do entretenimento, por sua vez, se curva a ela. As representações artísticas negativas construídas por Hollywood não são negativas porque os artistas de Hollywood veem os árabes como inferiores, mas porque acreditam que o público receberá bem essas imagens. E assim as receberá porque foi doutrinado pela ideologia oficial, em que pesem as tão propaladas democracia e liberdade de expressão americanas.

Se é verdade que um bom mestre acaba por ensinar os seus discípulos, os Estados Unidos, depois de se dedicarem à demonização do mundo árabe durante quase um século, acabaram por impor-lhes sua lição definitivamente. E quem era aluno tornou-se professor e demonstrou em versões práticas a assimilação da ideologia do ódio. É o que conta Robert Fisk, ao evocar um depoimento terrível que veio a se concretizar no 11 de setembro. Fisk entrevistou várias vezes Bin Laden. No último encontro, dentro de uma caverna do Afeganistão, num esconderijo construído pelos EUA quando o terrorista era seu aliado contra os russos, Bin Laden revelou-lhe: “Eu rezo a Deus, senhor Fisk, para transformar os EUA numa sombra de si mesmos”.

A imagem dos dois aviões explodindo contra as torres gêmeas é o fecho de uma linguagem que Hollywood enviou aos 19 sequestradores. É a linguagem da espetacularização. O planejamento meticuloso dos ataques, o intervalo entre os dois aviões, para dar tempo de toda a mídia se colocar a postos e registrar ao vivo a segunda explosão, é Hollywood em seus maiores efeitos especiais. A ironia é que agora não são mais efeitos, é a realidade, sem atores e vivida por cidadãos comuns.

A demonização exige a captura dos terroristas e dos mentores da ação maléfica. Então os EUA foram ao Iraque, mataram milhares de civis inocentes e enforcaram Saddan Hussein, outro ex-aliado americano, e que nada tinha a ver com os atentados. E aí assistimos a mais cenas espetacularizadas: as torturas na prisão de Abu Ghraib. A prisão era o símbolo máximo da bárbarie perpetrada por Saddam. Nela eram executados entre 70 e 90 prisioneiros políticos por noite, mulheres eram torturadas, estupradas e eletrocutadas lentamente na frente de seus maridos.

Outra vez a ironia do aprendizado. Alguns dos torturadores de Abu Ghraib agora eram árabes muçulmanos sob ordens de soldados americanos. Ironia maior: aquelas imagens de humilhações e torturas não foram exigidas por ninguém. Foi um gesto espontâneo dos soldados, decidiram registrá-las por divertimento, talvez, mas seguramente por serem filhos da sociedade do espetáculo. Se as coisas só existem quando elevadas à categoria de um espetáculo público, nada mais lógico que transformar o outro, visto como inferior, em demônio humilhado frente às lentes de uma câmera. Os americanos criaram os estereótipos do árabe perigoso e mau e foram colher in loco os resultados de suas lições.

Como observa um dos historiadores entrevistados no filme, o grande paradoxo americano é exportar liberdade sob força militar. A consequência dessa política é que os EUA minam a liberdade dentro e fora do seu território. Essa é a fórmula para transformar países em impérios. Quando os direitos individuais garantidos pela lei são ignorados, surgem os impérios. Ou, como escrevia o padre Antônio Vieira, no século XVII, “o roubar pouco faz os ladrões, o roubar muito, os Alexandres”.

O FANTASMA DE VALENTINO, mais do que uma incursão pelos estereótipos criados pelo cinema, é uma análise profunda do mundo árabe.

QUANDO e ONDE: a última sessão será quarta-feita (10.04), às 14h00, no Centro Cultural Banco do Brasil.

A entrada é franca e os ingressos serão distribuídos a partir das 13h00 (chegue antes das 13h00, pois a sala tem apenas 70 lugares e costuma lotar rapidamente.

Fragmentos do filme podem ser vistos no link abaixo:

http://www.michaelsinghproductions.com/Michael_Singh_website/VG_trailer.html

2. OS GUARDIÕES, de Dror Moreh (Israel, França, Alemanha, Bélgica)

 

os guardioes

Olho no olho e frieza. Esse é o tom das entrevistas concedidas por seis ex-diretores do Shin Bat, o serviço secreto de Israel. Hoje na meia-idade, todos eles participaram de ações clandestinas envolvendo tortura, execuções e bombardeios.”Uma operação limpa”, afirma um dos ex-agentes, é o que mais se deseja sempre. As imagens acompanham uma vã dentro da qual, segundo informações, viajam dois terroristas prestes a realizar um atentado. A vã é enquadrada no centro do visor e, em três segundos, surge uma bola de fogo e fumaça. “É uma decisão difícil, mas impedimos um atentado que poderia vitimar dezenas de vidas”, conclui o entrevistado.Nem sempre, porém, as ações são limpas. Como vemos diariamente nos noticiários, não raro civis são sacrificados junto com os terroristas. Mas, nesse tipo de missão, os fins justificam os meios. Escolhe-se o mal menor.O treinamento dos agentes, para além de toda a logística prática, compreende o aprendizado de árabe. Estudam, em profundidade, língua e literatura árabes para aprender a decifrar as entrelinhas das mensagens secretas.Mais surpreendente, no entanto, é inteirar-se do processo de recrutamento dos cidadãos comuns que são obrigados a se tornar agentes auxiliares. O Serviço Secreto delimita todos os povoados. Em seguida, mapeia-os. Depois convoca os cidadãos ao quartel para darem informações sobre a vida no povoado em que vivem. Numa etapa mais avançada, mapeiam todas as casas e pessoas. Então decidem quem será contratado: em geral, as pessoas que têm muitas relações no lugar e capacidade de se infiltrar. Os escolhidos não podem se recusar a se tornar agentes. “É uma tarefa bastante difícil”, diz um dos entrevistados, “pois precisamos transformar o escolhido num delator, ensiná-lo a trair seus vizinhos, seus amigos e, se for preciso, até sua família”.Essa situação torna-se ainda mais complexa e difícil quando se considera (como mostra o documentário A LEI POR ESSAS BANDAS, de Ra’Anan Alexandrowicz) que as leis mudam constantemente em lugares como a Faixa de Gaza e a Cisjordânia. A lei é a autoridade do Exército, a lei oral, que o cidadão é obrigado a acatar antes mesmo de conhecê-la por escrito.A logística, o preparo e a experiência não são, no entanto, nenhuma garantia da eficiência de uma ação, seja num plano menor ou no âmbito da segurança da nação, como aconteceu, por exemplo, quando foi assassinado o primeiro-ministro Yitzhak Rabin, nos anos 90. Esse crime, afirma um dos ex-agentes, expõe as rachaduras internas de Israel. O assassino era um jovem inexperiente e que mal sabia manipular uma arma comum.Os atentados de ônibus, frequentemente de grandes proporções, geram um sentimento de frustração, confessa outro ex-agente. Por outro lado, a possibilidade de intervir para impedir uma tragédia justifica, na visão deles, a tortura. Privação do sono, posições humilhantes e desconfortáveis, simulações de afogamento são algumas das técnicas empregadas pelo Shin Bat. O objetivo, em última instância, é atingir a base da célula terrorista e não o último terrorista.Entre as memórias e os acontecimentos do presente, os seis ex-agentes veem um futuro sombrio para Israel. Um deles pontua: “a transformação de quase todos os jovens em soldados está operando uma transformação no caráter deles. Algo similiar ao que os alemães fizeram com os poloneses, os belgas, os tchecos e os holandeses. Não quero dizer que os nossos jovens estão se transformando em nazistas (isso diz respeito à realidade da Guerra). Quero dizer que estamos introjetando um espírito de militarismo que transforma nossos jovens em autômatos, meros executores de ordens, como os kaputs”.

OS GUARDIÕES, finalista na disputa ao Oscar 2013, é um documentário que, independente de nosso posicionamento em relação às políticas de Israel e da Palestina, merece ser visto.

QUANDO e ONDE:
sexta-feira (12.04), às 19h00, no Cine Livraria Cultura. A sala é grande e não há problemas de lotação.

O ideal seria assistir às duas produções (O FANTASMA DE VALENTINO e OS GUARDIÕES), uma vez que elas se complementam.

 

Professor Verô

 

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