Nascido na URSS – Geração 28


Sergei Miroshnichenko (Rússia, Inglaterra, Alemanha)

A Rússia czarista era um país agrário e dominado por uma corte luxuosa que falava alemão e francês. Para os nobres, falar russo era sinônimo de inferioridade. A Revolução de 1917 transformou o país em uma superpotência industrializada e capaz de rivalizar com os Estados Unidos em termos de avanço tecnológico. Mas o custo dessas transformações foi altíssimo para o povo. A desapropriação das terras, as fazendas coletivas, a economia planificada, a máquina burocrática, o controle político por um partido único e o cerceamento das liberdades individuais, em suma, o engessamento nos planos econômico e social não poderiam durar para sempre. E, quando acordou de sua utopia comunista, percebeu que era um país que não podia mais sustentar-se como tal. A superpotência estava corroída e a grandeza era só uma casca.

Foi nesse contexto que Mikhail Gorbatchev empreendeu a Perestroika e a Glasnost. A URSS dissolveu-se em 15 estados e Gorbatchev renunciou. No filme NASCIDO NA URSS – GERAÇÃO DE 28, o diretor russo Sergei Miroshnichenko escolheu, em 1990, vinte crianças de 7 anos e acompanhou-as durante vinte anos. Filmadas aos 7, aos 14, aos 21 e aos 28 (por isso geração de 28), as crianças acompanharam as mudanças radicais vividas pela ex-URSS: os efeitos da abertura econômica, os conflitos étnicos e separatistas, bem como as transformações sociais que marcaram a transição dos governos de Gorbatchev para Iéltsin e Putin. O valor maior do filme está na forma encontrada pelo diretor para mostrar essas mudanças. Ao invés de construir um discurso expositivo ilustrado com citações de autoridades, intelectuais e críticos do regime, ele preferiu dar voz a um grupo de cidadãos comuns. O discurso dessas 20 crianças que foram se tornando adultas foi compondo, assim, um grande mural do país e do povo.

O primeiro conjunto de depoimentos é de Anton. Quando ele tinha 7 anos, vivia em um apartamento em frente ao Kremlim. Seu avô era o editor-chefe do Pravda e escrevia discursos para alguns dos principais líderes do Partido Comunista. Aos 14, Anton assistiu a um concerto de rock na Praça Vermelha, o que seria impensável 7 anos antes. Aos 21, tornou-se sub-editor de uma revista para homens. “Uma revista sabe o que um homem e uma mulher devem ter”, justificou-se. O filme mostra, então, tomadas externas de gravações de comerciais para a revista. Carros luxuosos, mulheres bonitas, felicidade no ar. A câmera volta para uma tomada interna e vemos, de relance, atrás da mesa de Anton, três retratos em tom sépia: Púschkin, Tchékhov e Gogol. O passado e o presente se cruzam, mas parecem não mais se afinar. “Nosso país, prossegue o sub-editor, é como uma boneca russa, quanto mais você abre, mais podre ele fica. (…) A abertura se deu, mas recebemos ordens de Putin: tire isto, essa matéria não pode”. Aos 28 anos, Anton estava casado e mudou-se do apartamento de um cômodo em que vivia aos 21 para outro de três cômodos. Doa 8% do seu salário para organizações de caridade. “Hoje, quando podemos ir de um lugar para outro, as nossas fronteiras são as limitações financeiras”, observa.

Na sequência, ouvimos as falas de Dima, que, aos 7, sonhava ser astronauta. Aos 28 havia se tornado motorista do metrô de Moscou. “Eu queria is ao espaço e agora transito pelos subterrâneos”, confessa, amargo. Na entrevista de 1990, como acontece com a maioria das crianças do filme cujos depoimentos foram tomados aos 7 anos, o discurso é pautado pela clareza e pelo tom oficial. A capacidade de as crianças articularem as falas com extrema clareza é um índice da excelente qualidade da escola durante o regime comunista (como em Cuba, por exemplo). O conteúdo das falas, no entanto, revela o tom doutrinário do regime. E assim vemos as crianças falando como adultos.

– O que significa a estrela para você?”, pergunta-lhe o diretor.

– Que sou ajudante de Vladimir Ilitch Lênin, responde Dima.

Anton e Dima permanecem na Rússia e ambos vivem em Moscou. A família é, no fundo, a realização maior para cada um.

Zhanna, a terceira jovem retratada, abandonou a Rússia. Seus pais começaram a ser perseguidos pelo serviço secreto. Casou-se com Shimar, um operador de guindastes israelense, que ela conheceu no facebook. Antes de deixar seu país, ela informou que partiria para os EUA, “porque na Rússia há muito antissemitismo”.

Corte para a América do Sul, onde iremos encontrar Lenya, um dos entrevistados mais bem articulados. Aos 7 anos, ele se imaginava vivendo em uma casa ao lado de um lago, na Nova Zelândia. Adolescente, passou três anos no exército. Seus pais também tiveram problemas com o governo, e, quando descobriram que seu telefone estava grampeado, decidiram deixar a Rússia. A consciência de Lenya é bastante crítica. Não se deslumbra com as liberdades e oportunidades do Ocidente e reconhece os malefícios da ideologia capitalista americana e seu alcance planetário. Observa as garotas argentinas pobres de 12 anos injetando silicone de óleo de aviões para moldar o corpo. Por outro lado, não guarda nostalgia da URSS. Entre as memórias dos anos no exército, onde atuou como paraquedista, afirma ter escapado de balas, mas também reconhece ter atirado em pessoas; se acertou ou não nos alvos, ele não sabe. De qualquer modo, acha que um cidadão de classe média argentino vive melhor que os bilionários europeus.

Mais duas versões da ideologia oficial são ilustradas pelas falas de Nastya e Almaz.

Nastya, o primeiro, ao ser interrogado sobre suas esperanças, responde, aos 7: “Espero que tudo cresça bonito e sem levantes”. Em contraponto, aos 28, numa autoanálise, pergunta-se: “o que é a pátria depois do Quirquistão e da Revolução? Meu dever cívico atrofiou-se”. A câmera enquadra então uma praça da Moscou atual, com os restos de uma estátua de Lênin, sem a cabeça.

Almaz, aos 7, acredita que as estrelas têm cinco pontas porque Lênin sempre tirou cinco na escola. O menino cresceu num albergue, junto a muitas famílias e muitas crianças. Aos 14, aceitava qualquer trabalho e chegou a ser vendedor de chiclete. Aos 18 conseguiu alugar um quarto e, aos 28, ele e a mulher trabalhavam no maior mercado de Novasibirski. É um dos 15 mil quirquizes vivendo ali.

No movimento de afastamento de Moscou, vamos encontrar Rita, nas profundezas da Sibéria. Na juventude, fora uma entusiasta da Revolução e fazia questão de andar com o casaco aberto para que todos reconhecessem a estrela do partido na altura do coração. Vive em Irkutski, onde o pai conseguiu adquirir uma madeireira e um barco, com o qual ela organiza passeios turísticos. “É uma cidade individualista, você tem conhecidos, não amigos; os ideais de coletividade não existem mais”. Seu marido foi assassinado (ela se recusa a esclarecer os motivos, mas paira a sugestão de um crime político) e ela vive com a filha Sofia e outro companheiro.

Rita perdeu o marido. Andrei, também de Irkutski, teve uma sorte pior: perdeu toda a família e, aos 7 anos, foi levado para um orfanato. Adotado por uma família americana, aos 14 vivia na Flórida. Aos 21, não adaptando-se à família, preferiu alugar uma casinha num bairro de imigrantes. Abandonou a faculdade e dedicou-se a um projeto de comunicação em informática. Apesar da experiência traumática da perda de toda a família, seu sonho é voltar para morrer na “velha Rússia”.

Comparada à história de Andrei, a de Asya é menos dura. Seu pai abandonou a família quando ela era criança, em São Petersburgo. Ela deixou a escola no primeiro ano e estudou muito por correspondência. Aos 14, considerava a Rússia “um país de idiotas que desperdiçam seus recursos”. Aos 28, ela tornou-se arqueóloga e viu o país dominado por novas palavras de ordem: corajem e autoconfiança. Um país em que as pessoas são “tiradas do canto” e a concorrência é uma máfia a perseguir todos.

A concorrência inibe o civismo. Ao Estado forte sucedeu a lógica dos negócios. O discurso de Sacha, aos 7 anos, era a defesa da pátria: “Se eu fosse um soldado e me pedissem para ir à guerra, eu iria. Para defender minha pátria”. Aos 21, ele havia se tornado um soldado entediado com a disciplina militar. Aos 28, o sonho de defesa da pátria foi substituído por um negócio: é um revendedor de peças de motocicletas.

Em meio a tanto materialismo, Marina representa um contraponto. Aos 14, não podia assistir TV; só vídeos religiosos. Oriunda de uma grande família de padres, acreditava que as pessoas e a família são o Estado. Frente às drásticas transformações enfrentadas pela Rússia (e pelo mundo) ela indagou: “o que acontecerá quando as casas, por falta de espaço, forem construídas umas coladas às outras, e todos os animais e todas as florestas forem destruídos?”

Problemas étnicos e a situação das ex-repúblicas soviéticas que hoje são países pequenos pontuam os discursos de Lado, Katya e Algin.

A avó de Lado representava a Geórgia no Conselho da Europa. Aos 21, ele se formou por uma das melhores universidades da França e foi trabalhar numa empresa no Luxemburgo. Não muito tempo depois, subitamente abraçou a esquerda. Aos 28, desejava retornar à Geórgia para vê-la (verbo de antigo tom oficial) “florescer”.

Katya, por sua vez, nasceu na Lituânia, numa família que falava russo. Formou-se, aos 14, por um método de ensino à distância. Ingressou, mais tarde, no curso de Psicologia, que abandonou por dificuldades pessoais. Finalmente, iniciou o curso de Filologia da Universidade de Vilna.

Algin é um lituano que sonhava ser paraquedista. Aos 18, conseguiu um emprego na União Europeia, preparando licitações. Avaliou que os países pequenos, como a Lituânia, não geram crises, mas vivem sob o efeito das crises geradas pelos grandes. Sendo um trabalhador qualificado, ele também vivenciou a estranheza de ser um cidadão de uma ex-superpotência e de hoje enfrentar dificuldades para transitar pelo mundo. Nascido na Sibéria, vive na Lituânia, mas necessita de passaportes diferentes para entrar na Libéria ou em Malta. Ter nascido na URSS pode tornar o cidadão, na atual configuração geopolítica, uma espécie de apátrida.

A história de Tanya é outra história de contrastes. Aos 7, foi uma das felizardas escolhidas para estudar na conceituadíssima escola de balé de Leningrado. Destoando da maioria das crianças entrevistadas, mesmo com pouca idade, seu discurso contesta a política oficial. Enquanto folheia uma revista, dispara: “é uma vergonha deixarem a gente ver uma revista dessas com coisas que não existem para comprar em nosso país”. Aos 28, ela é uma gerente de recursos humanos e seu hobby é disputar provas de obstáculos pilotando um BMW.

Essas são as histórias de algumas dessas pessoas crescidas durante as reviravoltas políticas, econômicas e sociais da ex-União Soviética. A paráfrase dos depoimentos apenas consegue evocar, à distância, o painel pintado pelo filme. A expressão dos rostos, a entonação das vozes e as imagens imprimem uma verdade particular a cada fala possíveis apenas na linguagem cinematográfica. Portanto, vale a pena conferir a última sessão desse documentário de três horas e meia de duração.

QUANDO e ONDE:
Quinta-feira, dia 11.abril, às 15h00, no Cine Livraria Cultura (Sala 1)

Os ingressos serão distribuídos uma hora antes. A sala é grande, muito confortável, e não há problema de lotação)

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