Os 90 anos de Lygia Fagundes Telles


Nesta sexta-feira, 19 de abril, a escritora Lygia Fagundes Telles completa 90 anos. Lúcida, criativa e participativa. Recentemente realizou a revisão de todos os seus livros para as novas edições pela Companhia das Letras. E quem frequenta os principais circuitos literários de São Paulo e outras cidades do Brasil não raro a encontra, seja como palestrante ou espectadora em plateias, sempre pronta a encampar uma discussão.

Um dos nomes mais relevantes do conto na literatura brasileira, Lygia também escreveu romances de referência, como AS MENINAS, lançado em 1973, em plena ditadura militar. Ela mesma recorda sua apreensão enquanto aguardava a liberação do romance pela censura. Tinha, afinal de contas, inserido algumas referências baseadas em fatos reais e bastante duras contra o regime. A escritora imagina que o censor começou a ler as primeiras páginas, achou o texto enfadonho e resolveu liberá-lo.

AS MENINAS é um texto polifônico narrado a três vozes. Lorena, Ana Clara e Lia são três jovens dividindo o mesmo quarto de um pensionato. Dotadas de personalidades diferentes, vivem os dilemas das descobertas amorosas, do sexo, da realidade das drogas e da necessidade de opção política num momento agudo da história: engajar-se na luta contra a ditadura ou aceitar o autoritarismo e o desrespeito aos direitos humanos? Entre a participação e a alienação, os valores de uma formação católica tradicional e as transformações sociais e políticas, elas enfrentam a perplexidade que povoa o universo de qualquer adolescente.

Perplexidade, esperanças, frustrações e memória são temas recorrentes na ficção da escritora e são abordados em situações em que o personagem depara-se com a necessidade de uma escolha. Cada experiência é única, nunca foi vivida anteriormente do mesmo modo e, por maior que seja a reflexão e a análise dos fatos, a decisão a ser tomada é sempre, de algum modo, um salto no abismo. A angústia enfrentada por seus personagens resulta, com frequência, do contraponto entre o presente e a decisão tomada no passado. Qual a melhor escolha? Como teria sido se o caminho tomado tivesse sido outro? Quem pode responder?

A vida se faz, assim, de vivências, memórias, retalhos do vivido, hesitações, sonhos, fantasias, autocensuras… E se não é possível reviver as experiências, por outro lado resta-nos a possibilidade de reordená-las pela escrita. A literatura de Lygia guarda, para além da afinidade estilística, um parentesco muito próximo com alguns célebres personagens machadianos, como Bentinho e o Conselheiro Aires. Memória e escrita podem resgatar o passado e reorganizar a precariedade do presente trazendo à baila, por entre o esfumato dos ressentimentos, alguns instantes luminosos capazes de prender a vida, como uma réstia de sol entre duas lâminas de uma persiana.

Se AS MENINAS foi um romance de toda uma geração, os livros de contos de Lygia atravessaram as gerações e seguem incólumes. ANTES DO BAILE VERDE (elogiado por Simone de Beauvoir quando lançado na França), SEMINÁRIO DOS RATOS, A ESTRUTURA DA BOLHA DE SABÃO, A NOITE ESCURA E MAIS EU continuam a seduzir novos leitores.

Meu conto preferido é “Apenas um Saxofone” (do BAILE VERDE). É, para usar uma expressão antiga, um texto composto em filigranas. O ressentimento e a amargura vibram em cada palavra da narradora-personagem. O leitor pode vê-la como uma perua rica frustrada, mas reconhece a sua profunda humanidade pelo gesto corajoso da confissão. E mais não é possível dizer, sob o risco de quebrar o encantamento da leitura, que pode ser ouvida pela voz da própria Lygia, entrando no link abaixo:

 

Valendo-se da clareza, da correção gramatical e da capacidade de mimetizar em imagens precisas as oscilações do psicológico e da memória, Lygia é uma das melhores discípulas da elegância estilística machadiana. Elegância também presente em cada gesto seu. A primeira vez que a vi pessoalmente foi numa palestra na USP. Preparávamos para a aula do pós-intervalo, no final da manhã. Fomos informados, subitamente, que a aula não aconteceria e dentro de alguns minutos receberíamos a visita de Lygia Fagundes Telles, para uma conversa sobre o seu novo livro, A ESTRUTURA DA BOLHA DE SABÃO.

De fato, pouco tempo depois ela chegou. Vestindo tons pasteis, com uma echarpe vibrante, não lembro por quê, começou falando do seu anel, um grande anel verde, que, informou-nos, tinha comprado na Pérsia. “Eu sou assim, não consigo dizer Irã, prefiro Pérsia, é mais poético, mais antigo…” Depois, começou a discorrer sobre o título do livro e do conto homônimo, elevou a mão direita um pouco acima da altura dos olhos, juntou os dedos em posição vertical para em seguida abri-los, como a liberar uma bolha que tivesse acabado de ser soprada, enquanto acompanhava a forma iridescente e invisível, porém tornada visível para nós pela precisão das palavras com que a descrevia. Como poderia arrematar Guimarães Rosa, Ave, Palavra!

Professor Verô

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