As vozes em meio ao deserto da Cultura Brasileira


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A revista Carta Capital publicou, na edição de 06/02/2013, a matéria especial intitulada O Vazio da Cultura (ou A Imbecilização do Brasil). Os diversos textos que a compõem são, infelizmente, um retrato dos melancólicos tempos que atravessamos. A imbecilização não é, no entanto, exclusividade brasileira — pensemos, por exemplo, na programação televisiva italiana. Aqui, no entanto, ela parece ter assumido dimensões mastodônticas. Programas de televisão como Faustão, Gugu, BBB e Fazenda são, no mínimo, um constrangimento à espécie humana.

“Cantores” como Michel Teló, “escritores” como Paulo Coelho e Zíbia Gasparetto e “escritores cantores” como Padre Marcelo Rossi podem ser, como assinala Carta Capital, objetos de análise da Sociologia. Mas não são Arte. E aqui não vai nenhum preconceito ou elitização do gosto. Ninguém vai procurar um anel de diamante na gôndola dos macarrões ou na seção de frios do supermercado.

Esse comentário não pretende desdizer O Vazio da Cultura, mas tão somente ampliar as linhas do debate, dentro de um recorte específico e circunscrito às limitações de algumas poucas laudas. Em primeiro lugar, não sou especialista em nada. Escrevo na condição de professor de Literatura e consumidor de cultura, cidadão comum que, na medida do possível, tenta estar em sintonia com a produção cultural brasileira e mundial e, de modo mais próximo, com a cena paulistana.

Mino Carta destaca, em seu editorial da referida edição de Carta Capital, que há muito tempo o Brasil não produz bastiões da cultura como Machado de Assis, Guimarães Rosa, Freyre, Faoro ou Portinari. E Vladimir Safatle, em seu artigo “Relativa prosperidade, absoluta indigência”, aponta o paradoxo entre crescimento econômico e o marasmo da cultura brasileira, reflexo, entre outros motivos, de uma “desqualificação do próprio exercício da crítica cultural” e da “ausência de uma verdadeira política cultural”. São fatos. Há muito tempo não aparece um prosador da envergadura de Rosa ou um pensador com o fôlego de Faoro. E as revistas de cultura e os cadernos culturais da maioria dos jornais são chinfrins.

A CRÍTICA CULTURAL EM JORNAIS e REVISTAS – É necessário fazer distinções.

Existem os detratores oficiais, porta-vozes de ideologias de inspiração obscurantista, uma espécie de caldo do que a humanidade produziu de pior em sua famigerada história, e para os quais pensadores como Teodoro Adorno, Walter Benjamin, Georg Lukács, Jean-Paul Sartre, Eric Hobsbawn, Hannah Arendt, Susan Sontag , Norberto Bobbio e Tony Judt, entre tantos outros, nunca existiram. São “jornalistas” que prestam um “desserviço” à cultura do país. O time de Veja— como aponta Carta Capital — com Mainardi há décadas à frente do batalhão, segue incólume, escudado pelos descendentes da família Marinho e seus fiéis escudeiros. Do mesmo modo que o presidente do Irã nega o Holocausto, esse grupo de “jornalistas” se empenha em apagar boa parte da produção intelectual mais significativa registrada pela história. Admitindo-se, hipoteticamente,que possuem um “pensamento”, eu o definiria como uma mistura de macarthismo tupiniquim, negação do Humanismo e atualização do Fascismo.

Num segundo time encontramos os resenhistas das poucas autointituladas revistas de cultura ou dos cadernos de cultura de alguns jornais circulantes no país. Em boa parte são jovens de vinte e poucos e trinta anos, quase sempre com títulos acadêmicos (mestre nisso, desenvolvendo doutorado naquilo…). Mas o que uma pessoa de 20 ou 30 anos (por mais bem-intencionada que seja), além dos livros pertinentes a suas teses, efetivamente leu? Dessa falta de base de leitura para os achismos e a crítica impressionista travestida pelo jargão técnico é um passo. Esse tipo de “crítica”, no entanto, ocupa hoje quase todas as páginas ditas culturais da imprensa brasileira. É uma crítica de cozinha, construída ao ritmo das conversas malemolentes das sinhás do XIX.

CRÍTICA e POESIA

A crítica de poesia, bem como a produção de poesia hoje, no Brasil, são ilustrativas dessa falta de preparo. Entre o leitor numa livraria, retire ao acaso meia dúzia de livros de uma prateleira qualquer da seção de poesia e confirme: um “poeta” escreve a orelha, a contracapa ou o prefácio do livro de outro poeta. Abra qualquer dos livros em leque e corra os olhos pelas páginas sem ler. Você perceberá que quase todos os poemas são minimalistas. Sente-se então num dos puffs(acomodação ideal para fruir esse tipo de poesia) espalhados pela livraria, e comece a ler. Verá que os poemas falam invariavelmente sobre a própria poesia ou o minúsculo cotidiano desses poetas. É gritante, também, o esforço para fazer referências às artes plásticas (como não existiu mais nenhum grande poeta no Brasil depois de João Cabral, todos se esforçam, numa agonia de epígonos, para evocar a arquitetura, a escultura e a pintura).

A fórmula é concluída com as onipresentes citações eruditas (tentativa de atualizar o velho tio T. S. Eliot). Confecciona-se, assim, uma “poesia” para ser lida numa confraria, a dos próprios poetas, que são, não casualmente, seus próprios críticos e resenhadores. Cria-se, desse modo, um jogo especular no qual o vazio da produção reflete o vazio da crítica, ou vice-versa.

A CRÍTICA EMBASADA

No outro extremo, há os críticos mais velhos, com embasamento teórico e muita leitura, como os excelentes jornalistas culturais do Estadão (estou elogiando o Caderno 2, o caderno de cultura, e não a ideologia do jornal) e alguns seus colaboradores esporádicos: Affonso Romano de Sant’Anna e Luiz da Costa Lima (Literatura), Luiz Carlos Merten e Luiz Zanin Oricchio (Cinema) Mauro Dias — num passado não muito remoto — e Lauro César Lisboa (Música), e um dos últimos baluartes do grande jornalismo no Brasil, Sérgio Augusto. Mas aí eles se deparam com um problema incontornável. Visualizemos as páginas dos cadernos de cultura dos jornais, por exemplo, às sextas-feiras (embora nos outros dias não seja muito diferente). Se apenas olhássemos para uma página da Folha de São Paulo, sem ler nenhuma linha, poderíamos pensar ter tomado, por engano, uma página de promoção das Casas Bahia ou do Extra. É, essencialmente, um caderno de anúncios, com brechas ou lascas, não raro quase nos extremos da página, onde o crítico faz a “análise” do filme, do disco, da peça ou a “resenha” do livro.

Há críticos sérios e embasados (todos precisam ganhar o seu pão), mas o que pode ser analisado em meia dúzia de linhas? Nesses casos, a superficialidade é inevitável. E muitos bons críticos que têm outra fonte de renda (como uma cátedra) preferem não se expor a tal desconforto.

O encolhimento dos espaços da crítica, a quase inexistência de publicações sérias na área cultural, entre outros motivos, encurralou a verdadeira crítica de arte, hoje, no Brasil, dentro dos limites das paredes das universidades.

A PRODUÇÃO CULTURAL DE QUALIDADE NO BRASIL

Semelhante à situação dos críticos de arte, é a realidade enfrentada pelos próprios artistas (cantores, atores e diretores de teatro e cinema, autores de livros e de outras manifestações culturais). Encontram-se confinados, escondidos ou então tornam-se visíveis apenas quando se lançam à rua com a mão estendida mendigando a aceitação de seus trabalhos nos projetos de fomento à cultura. Em outros casos, como acontece todo ano com as companhias teatrais sediadas em São Paulo, aqueles que já foram beneficiados com algum patrocínio rastejam e invocam seus orixás para não serem preteridos por outros grupos, rezando para não haver um rodízio de benefícios — impasse dos impasses —, pois existem muitos grupos de reconhecida competência, mas a verba só poderá contemplar alguns.

O exemplo mais emblemático dessa mendicância é o Teatro Oficina. Zé Celso Martinez é um dos maiores diretores de teatro do mundo e o Oficina é um dos grupos de teatro mais antigos do planeta em atuação ininterrupta (quase 60 anos de trabalho!). E precisa, ano após ano, submeter-se à luta para garantir o patrocínio da Petrobrás.

OS VAZIOS NEM TÃO VAZIOS

É nesse ponto específico que desejo ampliar a discussão da matéria da Carta Capital sobre o vazio na cultura brasileira. Não há propriamente uma crise de produção de obras culturais de qualidade, e sim uma crise da falta de espaços para divulgação e exibição dessas obras. Como observei há pouco, não há, hoje, nenhum grande poeta no Brasil. Acho difícil também apontar um nome relevante na pintura ou na escultura. Ao mesmo tempo, é óbvio, e gritante aos céus, que não temos entre nós nenhum Machado de Assis corrigindo as provas de um novo romance, nenhum Raymundo Faoro retocando os detalhes finais de uma nova teoria de interpretação do país, nenhum Glauber acertando a montagem do filme tão aguardado, nem uma nova Elis Regina ousando lançar um disco inteiro de inéditas de um compositor inédito.

Mas artistas e intelectuais desse porte são raros em todas as épocas em todos os países. Há quanto tempo os Estados Unidos não produzem um William Faulkner ou um Cole Porter? Há quanto tempo a França não vê uma Edith Piaf ou um Michel Foucault? Há quanto não surge na Itália um Pasolini ou um Leopardi?

Aproximemos as lentes e contemplemos a atual (estou pensando no recorte das duas últimas décadas) produção cultural do Brasil. Não há um Faoro, nem um Freyre, um Sérgio Buarque ou um Caio Prado. Teóricos desse porte dependem também de circunstâncias históricas. Esses pensadores surgiram, por coincidência, mais ou menos na mesma época, num momento histórico em que as grandes sínteses sobre o Brasil estavam ainda por serem feitas. Teorias abrangentes não podem ser formuladas a cada década. E prosadores e poetas como Euclides da Cunha ou Cecília Meireles não se fazem em ritmo pret-à-porter.

A LITERATURA

O XIX nos deu Machado e a primeira metade do XX Mário e Oswald de Andrade, Bandeira, o melhor Drummond, Graciliano e Lins do Rego. Depois vieram Clarice, Guimarães e, talvez, o nosso único poeta de alcance universal, João Cabral de Melo Neto.

Um julgamento não passional, no entanto, exige a revisão de muito do que se convencionou considerar genialidade modernista. As circunstâncias de ruptura com a canga parnasiana projetaram, por exemplo, Mário e Oswald. Mas sejamos francos: se não fosse a conjuntura em que surgiu, Oswald de Andrade seria considerado um escritor tão genial? Qualquer livro de poemas de José Paulo Paes não supera as chamadas ousadias oswaldianas? E Mário? Quem lê sua poesia hoje? Tirante alguns poemas de verdadeiro lirismo — e em geral mal conhecidos — , como Louvação Matinal, sua poesia é mais citada do que lida. O mesmo vale para os contos e o romance. Quem relê, embora não sejam narrativas ruins, Contos Novos ou Amar, Verbo Intransitivo? E Macunaíma, não é uma obra mais citada do que lida? não perdura mais pela sua tese do índio como alegoria de nossa ambivalência cultural do que pelo seu valor artístico?

A canonização de alguns modernistas ofuscou vários escritores das gerações seguintes e esse peso se estende até os dias de hoje. Há, sim (poucos, é certo) bons escritores contemporâneos. Como Hilda Hilst, muito provavelmente a maior de todas. Em que sua obra (transitando com igual talento pela prosa, poesia, teatro e textos de gênero inclassificável) fica a dever em densidade para a melhor produção da Literatura universal no século XX? Quantos livros de poesia, em qualquer língua, na segunda metade do XX, podem ombrear com DO DESEJO? Ou com suas narrativas em prosa, como FLUXO-FLOEMA ou KADOSH? E o que aconteceu com a obra de Hilda Hilst? Escrita ao longo de mais de 50 anos e dada como acabada pela própria autora pouco antes de falecer, em 2004, ficou atirada ao ostracismo, circulando apenas em edições quase artesanais em círculos acadêmicos e entre um restrito número de leitores. Só depois de sua morte, e sob a orientação de Alcir Pécora, uma editora finalmente se dispôs a lançá-la na íntegra.

Mas o que as editoras fizeram ao longo dessas décadas? Promoveram milhares de best sellers e fabricaram Paulo Coelho, o Dr. Lair Ribeiro e dezenas de outros mercadores do sucesso!

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Outro exemplo. Luiz Ruffato. Qual o espaço que este escritor tem nas prateleiras à altura do olho das megastores? Quantos livros sobre a cidade de São Paulo podem ser equiparados em qualidade literária a eles eram muitos cavalos? Recomendo a leitura de apenas três contos (cada um não ultrapassa três páginas) dessa pequena obra-prima: “Minuano”, “Política” e “Um índio”. Este último, sozinho, diz mais sobre a realidade do índio brasileiro do que todas as páginas da literatura dita “indianista” (mais a canalhice ideológica que as acompanha) produzida pelo nosso romantismo. Mas Ruffato nunca está em destaque numa loja da Saraiva, da Nobel ou da Siciliano, jamais será convidado a se sentar no sofá de qualquer uma das entrevistadoras da TV brasileira, e dificilmente algum dia irá integrar a lista de leituras obrigatórias da FUVEST, o mais importante vestibular do Brasil.

Existe, sim, produção literária excepcional no país. Ocorre que ela quase não tem visibilidade. E o círculo vicioso se fecha: promoção de obras banais não cria leitores, cria um público de curiosos que compram um livro apenas para passar o tempo ou para tentar encontrar uma fórmula mágica para a felicidade pessoal ou o sucesso financeiro. Um público que consome livros como se estivesse se entretendo com um caça-palavras ou preenchendo um bilhete de loteria.

LOBBY PARA PROMOÇÃO DE LIVROS CULT

Se a publicidade massiva promove escritores inventados como Paulo Coelho, ou dublês de escritores, como Jô Soares, por outro lado ela também aposta em obras “de qualidade”. Trata-se, no entanto, apenas de um lobbymenos grosseiro. Na essência, as editoras promovem, muitas vezes, obras cultsem qualidade. Explica-se assim o destaque de certos livros na imprensa escrita.

Dois exemplos:

A Arte De Ler (ou Como Resistir à Adversidade), da antropóloga francesa Michèle Petit, editado em 2009 pela Editora 34. À época do lançamento, o livro ganhou elogiosas resenhas na Folha, no Estadão, em Carta Capital e várias outras publicações. Dirija-se o leitor a uma livraria, tome o livro entre as mãos e abra-o a esmo. Leia a página escolhida ao acaso, pule para outra três capítulos adiante, se lance em outra mais para o final e assim sucessivamente, enquanto a sua paciência lho permitir. E vá comprovando, página após página, tudo o que a autora consegue dizer: uma mera reprodução de depoimentos, intercalados com paráfrases banais sobre o processo de leitura.

Por que então tantas resenhas destacando a qualidade desse livro? E lembremos que nem se trata de uma questão de gosto estético, pois é (ou pretende ser) apenas um ensaio sobre experiências de leitura.

Leite Derramado, de Chico Buarque. Qualquer leitor mediano de Memórias Póstumas de Brás Cubas concordará que dois breves capítulos das rabugens de pessimismo do playboy machadiano fazem esse LEITE entornar antes de chegar à página dez. Mas o livro foi exposto em destaque nas livrarias, chegou-se ao luxo de se editar capas com cores diferentes, num ridículo malabarismo mercadológico em que a embalagem procurava acrescentar algo ao conteúdo, algo como uma garrafa de leite A abastecida de leite C. Ademais, a obra recebeu uma orelha resenhada por ninguém menos que Leyla Perrone-Moisés. Dona Leyla é uma intelectual séria e Chico Buarque um dos maiores artistas da história da cultura brasileira. Podem ter sido bem-intencionados, mas Leite Derramado está muito aquém das qualidades intelectuais de ambos. E o departamento de publicidade da Companhia das Letras sabe disso melhor ainda!

A PRODUÇÃO ENSAÍSTICA

Parte significativa da produção acadêmica destina-se sempre às prateleiras da seção de teses das bibliotecas universitárias. Professores são premidos a publicar teses para somar pontuação para disputar cargos dentro de suas respectivas cadeiras. Na hora do concurso, muitas vezes o número de publicações pesa mais que a própria qualidade dos trabalhos acadêmicos, às vezes nem lidos. Essa perversão se verifica em universidades de todos os continentes e o culpado maior talvez seja o modelo americano de cursos semestrais. Como produzir estudos originais contra um relógio tão exigente?

E há também as teses confeccionadas a toque de caixa apenas para a aquisição de um título. Nesses casos, o empenho do autor se concentra em cunhar o maior número possível de termos técnicos para redizer o que já havia sido dito com mais propriedade e clareza. Na área de humanidades, esses trabalhos multiplicam-se como pólipos. Alguns chegam a ser publicados, como, por exemplo, O Circuito das Memórias em Machado de Assis, de Juracy Assmann Saraiva, ou A Estória do Severino e A História da Severina – Um Ensaio de Psicologia Social, de Antonio da Costa Ciampa, duas teses inúteis cujo léxico, em vários trechos, parece pertencer a algum dialeto de uma língua fora do grupo indo-europeu.

Seria injusto, no entanto, generalizar. Várias universidades brasileiras possuem acadêmicos honestos, produzindo trabalhos que muito contribuem para a discussão da cultura e da sociedade brasileiras. E se as circunstâncias históricas não permitem (e talvez necessitemos ainda de algumas décadas) o surgimento de um novo intérprete capaz de formular uma teoria capaz de abraçar as nossas seculares e atuais contradições de um país sempre a se fazer, conseguindo, eventualmente, equacionar a questão não resolvida até hoje por todos os nossos pensadores de fôlego, qual seja a de que o Brasil é um objeto que acaba sempre escapando da tese que procura apreendê-lo e explicá-lo, temos, não obstante, uma destacada produção acadêmica pontual. Surgiram, nas duas últimas décadas, ensaios de referência. Arrisco apontar como o mais importante Ideologia e Contraideologia, de Alfredo Bosi. Lançado em abril de 2010, saiu do prelo já como obra clássica. É leitura obrigatória para quem pretenda entender em profundidade os meandros do pensamento hegemônico, cuja culminância se deu (e continua a se dar) com o triunfo do Neoliberalismo a partir dos anos 80. Embora a segunda parte do livro estabeleça o recorte das intersecções entre o Brasil e o Ocidente, é uma obra necessária em qualquer bibliografia sobre o assunto e, portanto, de alcance além-fronteiras.

Ensaios como o do professor Bosi são, de fato, raros. Mas temos também um conjunto de estudos mais específicos, que não pretendem abarcar a totalidade da matéria discutida (como Sartre desejou fazer com o ensaio sobre Flaubert) mas que constituem obras de indiscutível valor teórico e, às vezes, em função da elegância do estilo do autor, também estético.

Alguns exemplos: Davi Arrigucci Júnior, professor de Teoria Literária e Literatura Comparada da USP, já se consagrara nos anos 70 com seus competentes ensaios sobre Júlio Cortázar. Em 1999, lançou Humildade, Paixão e Morte, no qual analisa as questões centrais, como o alumbramento, na poesia de Manuel Bandeira. Se quisermos enumerar, nos dedos das duas mãos, na história da Literatura ocidental, quantos ensaios de análise crítica de poesia podem ser equiparados em nível de acuidade ao texto do professor Arrigucci, sobrarão vários dedos.

Outra obra recente e soberba é Os Leitores de Machado de Assis(2004), de Hélio de Seixas Guimarães. A bibliografia sobre Machado entra na casa dos três dígitos, mas qual obra até então tinha apresentado uma visão de conjunto dos seus romances com a profundidade desse LEITORES?

Existe, também, uma significativa produção acadêmica de textos de extensão menor, como, por exemplo, os originais estudos de José Miguel Wisnik sobre Machado e Guimarães, reunidos em Sem Receita(2004). Para não falar apenas da Literatura, cito o apanhado de ensaios sobre o papel da mídia no Brasil, acolhidos no excelente Videologias, assinado por Eugênio Bucci e Maria Rita Kehl, e enriquecidos por um prefácio de Marilena Chaui.

A lista seria longa e se estenderia pelas mais diversas disciplinas. Existe, portanto, uma produção de ideias e livros muito séria no Brasil. Insulada, porém, nos domínios de um círculo exíguo de leitores. Faça o teste. Considerando a importância da televisão no cotidiano dos brasileiros, pergunte aos seus amigos acadêmicos, educadores, jornalistas,profissionais liberais em geral, estudantes universitários e pessoas que trabalham na mídia, quantos conhecem as Videologias.

O CINEMA

A Itália, a França e a Alemanha inscreveram dezenas de diretores na história mundial do cinema. O Brasil está representado por Glauber Rocha e Anselmo Duarte. São diretores consagrados, Glauber por quase tudo o que fez, Anselmo pelo Pagador de Promessas e Vereda da Salvação.

O governo Collor deu um golpe quase mortal no cinema brasileiro, o massacre das distribuidoras de Hollywood é planetário e os multiplex estão mais interessados em vender pipoca do que exibir filmes. Exibem apenas entretenimento, sem qualquer intenção de formação de plateias críticas, como declaram, sem pudor, aos quatro ventos, em qualquer entrevista, os gerentes da rede Cinemark. Para dourar a pílula, dão espaço a um ou outro filme de arte, em horários como a sessão das 14h00 na segunda-feira. Esses fatores, somados à histórica falta de recursos financeiros, tornam a produção de filmes no Brasil um misto de quixotismo, peregrinação e paciência para vencer os trâmites burocráticos dos programas de incentivo à cultura.

Mas isso tudo não impediu que, nos últimos anos, vários novos diretores assinassem filmes de excelente qualidade: Walter Salles (Central do Brasil e Diários de Motocicleta), Cláudio Assis (Amarelo Manga e A Febre do Rato), Marcelo Gomes (Cinema Aspirinas e Urubus), Chico Teixeira (A Casa de Alice).

Mas o mais significativo da produção recente talvez esteja no documentário, gênero em que o Brasil viu surgir dois diretores de reconhecimento internacional:

● Eduardo Coutinho (Edifício Master e O Fim e o Princípio, entre vários outros títulos) e

● João Moreira Salles (Nelson Freire, Notícias de uma Guerra Particular e o filme que, sozinho, já bastaria para projetá-lo internacionalmente, Santiago).

Sérgio Bianchi (Cronicamente Inviável e Quanto Vale ou É Por Quilo?), Marcelo Masagão (Nós que aqui estamos, por Vós esperamos e 1,99 Um Supermercado de Palavras) e José Padilha (Garapa e Segredos da Tribo) são outros nomes importantes do documentário atual.

Marcos Prado abocanhou dezenas de prêmios nacionais e internacionais com o inquietante Estamira, e Cao Guimarães (A Alma do OssoO Andarilho) realiza um cinema verdade único na história da cinematografia brasileira.

Não há, portanto, um vazio no cinema brasileiro. Há, sim, falta de espaço para exibição e comercialização desses filmes. Como é ilustrado na matéria de Carta Capital, um filme como O Som ao Redor(atualmente em cartaz em São Paulo), considerado um dos dez melhores filmes do mundo em 2012, segundo o The New York Times, foi lançado comercialmente em apenas 13 salas no Brasil, contra 718 salas para De Pernas para o Ar 2. Procure o leitor qualquer um desses filmes numa videolocadora que não seja a 2001 e aposte se encontrará mais de 3 títulos. Ou então tente adquiri-los. Tomando-se apenas os dois principais diretores aqui elencados, Coutinho e Moreira Salles: nenhum dos cerca de 25 filmes produzidos por esses diretores está em catálogo para compra no Brasil! Todos os filmes, porém, da Xuxa ou do Didi podem ser encontrados com facilidade em qualquer loja de DVDs.

Observação:estão disponíveis, para empréstimo, no acervo do CPV, os seguintes títulos:

Central do Brasil

Cronicamente Inviável

Quanto Vale ou é Por Quilo?

Nós que aqui Estamos, por Vós Esperamos

Garapa

Estamira

1,99 Um Supermercado de Palavras

Diários de Motocicleta

Cinema, Aspirinas e Urubus

Notícias de uma Guerra Particular

Santiago

O TEATRO

Se os livros precisam encontrar os seus leitores, o teatro também precisa do seu público. Abramos a esmo os guias culturais de um grande jornal ou da Veja. Além das já decalcadas pernas da “atriz” (dublê talvez caísse melhor) Claudia Raia, seremos bombardeados por chamadas como: Família Adams já foi vista por mais de 100.000 pessoas; em O Fantasma da Ópera há 518 máscaras; a produção de O Rei Leão custou US$ 50 milhões… E o leitor se pergunta se está diante da página indicativa das peças em cartaz ou de uma página do caderno de economia. Ou então se depara com um conjunto de novos gêneros dramáticos popularizados no eixo Rio-São Paulo: monólogos da vavá, diálogos do pipi, apólogos do terceiro…

Os destaques, na imprensa, são para as megaproduções estreladas, em geral, pelos chamados artistas globais, com preços diferenciados conforme o dia da semana, mais caros no sábado, porque arte, pizza e motel, nessa lógica, se equivalem. E as produções de qualidade com atores ausentes do casting de Malhação ou da novela das oito? Onde estão indicadas? Em letras minúsculas, não raro sem atribuição de estrelas, ou então simplesmente ausentes dos “guias”, porque a companhia não tem caixa para bancar o anúncio!

E assim se estabelecem os cânones dos grandes atores, os televisivos, as primeiras damas e primeiros damos do teatro brasileiro. Quantas vezes você ouviu anunciar uma peça com um consagrado global a preços populares? Quantos atores e grupos de reconhecido talento artístico e sem espaço eles ajudam a promover? Nesse esquema perverso, só é teatro as produções de retorno financeiro vantajoso. E ainda temos que aguentar a Cláudia Raia a fazer campanha no jornal contra a meia entrada, embora o ingresso de seus espetáculos custe algo na faixa de 200,00 reais. Mas depois, no meio da peça ou do musical, ela se exibe, qual potranca sem elegância, contando os milhões de dólares pelos quais assegurou suas pernas! A lógica é: se a peça for apelativa e de entendimento fácil, terá mais público e fará mais sucesso.

Cria-se, assim, outro círculo vicioso: a indústria do teatro de massa serve ao público apenas angu e depois conclui que esse público só aprecia angu. Mas existe o teatro das bordas, grandioso e pouco conhecido, sem badalações de pre-estreias, sem chamadas na TV e, muitas vezes, quase ignorado pelos guias culturais. À frente dos diversos grupos excepcionais e de pouca visibilidade, destaco o Lume. Patrocinado pela UNICAMP e sediado em Barão Geraldo, em Campinas, existe há 27 anos e é considerado pela crítica um dos melhores grupos de pesquisa teatral do mundo.

O único espaço na cidade de São Paulo que o acolhe é o Sesc. (As apresentações anunciadas para março de 2013 na Oficina Oswald de Andrade serão uma exceção.) Desenvolvendo há mais de 20 anos trabalhos de pesquisa permanentes na Itália, nos Estados Unidos e junto ao aclamado Odin, na Dinamarca, o Lumeé reconhecido e aclamado na América Latina, nos Estados Unidos, na Europa e no Oriente Médio, apresentando-se todos os anos nos mais importantes festivais de teatro internacionais, como o de Edimburgo e o de Avignon. À época da guerra do Kosovo, foi escolhido pela ONU para se apresentar num campo de refugiados. Paradoxalmente, é um grupo quase desconhecido do grande público brasileiro.

Para se ter uma ideia do seu nível técnico, cito apenas alguns dados:

a) cada montagem demora, em média, quatro anos para ser elaborada;

b) o último trabalho, Os Bem-Intencionados, foi burilado durante 12 anos antes de estrear;

c) para atuar no solo Kelbilim, O Cão da Divindade, espetáculo sobre os dramas de Santo Agostinho, o ator Carlos Simioni passou quatro anos em Londres estudando expressão facial para representar o personagem. Em outras palavras: um nível de preparação que não permite a substituição do ator (como acontece com frequência no teatrão) porque ele agora irá gravar uma novela. Na retrospectiva dos 20 anos do grupo, em 2005, o “crítico” de Veja saiu-se com essa pérola a respeito de Kelbilim: “a peça quase não tem falas e dá um sono tremendo”!

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Cena do espetáculo Saudades em Terras D’água.

Do mesmo modo, podemos elencar vários outros grupos: o Giramundo, de Belo Horizonte, uma das grandes expressões brasileiras e mundiais do teatro de bonecos, e cujas montagens jamais repetem fórmulas; o talentosíssimo Clowns de Shakespeare, de Natal, a CIA. Pé de Vento,de Florianópolis, a atriz e diretora Grace Passô, de Minas Gerais, os Seres de Luz, a maravilhosa dupla argentina radicada em Campinas e que se reinventa a cada montagem com seus bonecos… Acrescente-se a esses nomes os atores do Centro de Pesquisa Teatral do Sesc São Paulo, dirigidos por Antunes Filho, o talento sexagenário (e cheio de frescor antropofágico) do Oficina Uzyna Uzona e as montagens de dimensões épicas em espaços não convencionais (hospital, presídio, rio Tietê) do Teatro da Vertigem.

E há também companhias de artistas brasileiros de teatro radicadas no exterior, como a Dos à Deux, estabelecida em Paris e com um repertório que já percorreu mais de 50 países. Sua montagem Saudades em Terras D’água merece uma página na antologia do teatro mundial do século XX. Ou ainda artistas como a veterana e originalíssima Denise Stoklos, inventora de um método teatral, o teatro essencial, e cujos espetáculos, por contrato, devem estrear sempre no La Mama, em Nova Iorque. Denise já se apresentou em quase 100 países encenando suas peças em português, inglês, francês, alemão, russo, ucraniano e polonês. É a artista brasileira que mais se apresentou até hoje no exterior. Vinda de outra geração, renova-se a cada criação. No espetáculo Olhos Recém-Nascidos, desafiando sua própria técnica, voltada prioritariamente para a mímica, ela fazia apenas três movimentos ao longo dos 90 minutos da apresentação.

Enquanto escrevo esse comentário, abro o jornal e leio que o diretor americano Bob Wilson, um dos nomes de vanguarda na cena internacional, acaba de chegar ao Brasil porque decidiu montar sua próxima peça, A Dama do Mar, de Susan Sontag, em São Paulo. E selecionou para o elenco Bete Coelho (ex-Oficina e Zé Celso) e Ondina Castilho (da grupo de Antunes Filho)!

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Cena do espetáculo Dolores, da Cia. Mimullus de Dança. 

Não diferente é a situação da dança. Grupos de elevado padrão técnico e repertório original estão sempre à mercê de patrocínios para sobreviver. Citemos a CIA. Lia Rodrigues, de reconhecimento internacional, e que desenvolve seu trabalho em plena favela da Maré, no Rio de Janeiro, aliando arte e inclusão social. Ou o a CIA. Mimullus de Dança, de Belo Horizonte, um dos melhores grupos de dança contemporânea no país. Seu mais recente espetáculo, Entre, um trabalho extraordinário baseado nos standards do jazz, não lotou nem metade do teatro em suas apresentações em São Paulo, no final de 2012.

Esses são apenas alguns nomes para ilustrar a existência, hoje, no Brasil, de uma produção teatral, envolvendo criação, atuação e direção, digna de comparação com o melhor do teatro mundial. Esses artistas, no entanto, não têm praticamente nenhum espaço na grande mídia.

Voltemos ao Oficina. Entre 2002 e 2008, em comemoração ao centenário d’Os Sertões, de Euclides da Cunha, o grupo realizou a montagem de cinco espetáculos (A Terra, O Homem– Parte 1, O Homem – Parte 2, A Luta– Parte 1 e A Luta – Parte 2), totalizando cerca de 35 horas de apresentação. A montagem épica tornou-se uma das grandes montagens da história do teatro mundial no século XX. A repercussão, tanto entre o público como dentro da classe teatral, foi ampla. Durante os seis anos (sobretudo à época d’ O Homem) em que as peças estiveram em cartaz, vieram dezenas de caravanas para São Paulo e quem passasse em frente ao Oficina, podia ver, todos os fins de semana, ônibus fretados com placas do Paraná, Santa Catarina, Minas, Espírito Santo, Rio, Rio Grande (do Sul e do Norte), Ceará… Vieram também comissões da França, da Alemanha, da Inglaterra, da Rússia, da Austrália… José Celso Martinez e sua trupe foram convidados a se apresentar na Alemanha, onde foi construído um espaço com as mesmas dimensões do terreiro do Teatro Oficina para as apresentações.

Depois de muita mendicância, Zé Celso conseguiu uma verba para lançar uma caixa com os 4 DVDs da peça. Entre em (ou telefone para) qualquer grande livraria ou loja de DVDs do Brasil e constate a expressão de espanto dos vendedores. É como se você estivesse pedindo uma coleção de concertos para piano gravada pelos pigmeus de um reino perdido nos confins da África! Mas qualquer grande loja terá, pret-à-porter, o DVD de todos os shows ao vivo de Chimbinha e Joelma ou de qualquer série de TV idiota.

Some-se a isso o esquema de captação de recursos. O valor autorizado pela Lei Rouanet permitiu (e permite), nos últimos anos, a arrecadação de 13 milhões de reais, em média, para financiar cada um dos musicais como Miss Saigon, Mamma Mia, A Família Addams e O Rei Leão.

Ora, uma verba dessas garantiria o financiamento para sustentar um grupo como o Oficina ou o Teatro da Vertigem por dez anos.

A MÚSICA

A apreciação da Literatura ou de qualquer outro texto demanda a leitura e um tempo razoável, o teatro e a dança exigem o deslocamento do espectador até o local onde acontecem as apresentações. Então vejamos a música, cuja avaliação por parte do leitor pode se dar em segundos na própria internet. Pelo seu alcance mais direto, iremos nos deter nela de modo mais demorado.

As desgraças nos cercam por todos os lados: Michel Teló, os padres cantores, as duplas sertanojas, os viscosos pagodeiros e axezeiras e as mil versões da bunda music. Essa condenação não é elitista, é de natureza estética. Gosto se discute, sim.

Ba ba be bé bi…bu bu, articula o bebê aprendendo a falar. E a família o aplaude. Ninguém, no entanto, aplaudiria um adulto de 30 anos que se contentasse em declinar o ba be bi bo bu. O Brasil produziu Noel Rosa, João Gilberto, Tom Jobim e, entre tantos outros, Chico, Caetano e Elis. Muito antes de existir uma seleção vencedora de um tricampeonato mundial de futebol, o Brasil chamou — pela primeira vez — a atenção do mundo pela qualidade de sua música. Antes, éramos vistos como uma gente de là-bas, uns selvagens tostados pelo sol dos trópicos.

A bossa nova projetou o Brasil no cenário internacional. Éramos, já nos idos dos anos 50, um país musicalmente adulto. Então tchu tchá, empinai a bundinha e dai glórias ao senhor, no início do XXI, não é aceitável. Mas é isso o que as rádios e televisões do Brasil, embaladas pelo jabá, fazem. O jabá, todos sabemos, sempre existiu. Hoje, no entanto, ele é responsável por uma espécie de genocídio da música popular brasileira.

Talvez exista, de fato, uma crise de criatividade entre os compositores medalhões. Por mais que os próprios artistas justifiquem seus trabalhos mais recentes, não consigo, pessoalmente, me apaixonar por nenhum dos últimos discos de Chico Buarque, Gilberto Gil ou Caetano Veloso.

Não penso que tenham esgotado sua criatividade, mas cada um já produziu centenas de composições, boa parte delas obras-primas, e talvez se encontrem numa entressafra. E os ventos podem virar a qualquer momento. Aliás, acabaram de virar para Caetano Veloso e Gal Costa. Recanto, o mais recente disco de Gal, apresenta um repertório inteiro de inéditas compostas por Caetano. Como não compunha há muito tempo. Para Gal cantar como não cantava há muito tempo! Recanto Escuro, Neguinho e Tudo Dói já nasceram antológicas. Neguinho é uma sequência de acertos em que a genialidade de Caetano envereda por sonoridades tecno, para surpreender a balada consumista em que as elites, a burguesia, as chamadas classes C e D e os pobres do Brasil soçobraram: “Neguinho que eu falo é nós”. Acertos afinados pela interpretação contida e pura de Gal Costa. Prova de que os gênios da MPB a qualquer momento podem se reinventar.

Para pegar a rabeira do tecno, outro exemplo contundente é o penúltimo trabalho de Elza Soares, no qual o samba desposa o tecno e ambos são rendidos pela sua voz rascante. Elza é outra veterana cuja produção mais recente (a partir dos anos 2000) é marcada pela reinvenção. Do Cóccix Ao Pescoço(2002), dirigido por José Miguel Wisnik e onde estão diamantes como Bambino, A Carne e Fadas, pode ser visto como o marco dessa virada. Não à toa, Elza foi eleita pela BBC de Londres “a cantora do milênio”!

Ney Matogrosso é mais um artista sempre a se renovar. (Seu novo show, com estreia marcada para o dia 08.03, chama-se Atento aos Sinais). Seus álbuns, desde meados dos anos 80, lançados quase anualmente, alternam um repertório de inéditas e outro de revisitação de clássicos do cancioneiro brasileiro. Olhos de Farol(1998), cujo nome é exatamente uma metáfora de um olhar sobre novos compositores, reúne composições de Fred Martins e Alexandre Lemos (Novamente), Samuel Rosa e Chico Amaral (O Som do Mundo) e Pedro Luís (Fazê o Quê). Vagabundo (2004), disco premiadíssimo, traz um punhado de composições inéditas de primeira plana: Seres Tupy, Transpiração, Tempo Afora, Noite Severina, entre outras.

Entre os novos ícones surgidos na cena musical nas duas últimas décadas, destaca-se a popstar cantora e compositora Marisa Monte. Embora sua projeção tenha sido o resultado de uma ampla estratégia de marketing da EMI, não se pode negar a altíssima qualidade artística de suas composições. Por outro lado, surgiram cantores que não foram prioridade no casting de suas gravadoras e mesmo assim conseguiram se projetar com trabalhos altamente criativos. Chico César (Aos Vivos, Cuscuz Clã, Mama Mundi) e Zeca Baleiro (Por Onde Andará Stephen Fry?, Vô Imbolá, O Coração do Homem Bomba, volumes 1 e 2, e o recente e genial O Disco do Ano) são apenas dois exemplos.

Em outro grupo, encontramos os cantores cujos discos têm péssima distribuição e cujo espaço de atuação é, muitas vezes, restrito quase exclusivamente à cidade em que vivem. Alguns exemplos da cena paulistana: a cantora Alzira E, com quase dez discos gravados, apresenta-se muito esporadicamente em São Paulo (quem ouviu anunciar seu show mais recente, dia 12/02?). Seus discos (Alzira E., 2006, Anahí, Pedindo a Palavra) são de uma impecável criatividade sonora e vocal, mas quase impossíveis de serem encontrados nas lojas. A veterana Alaíde Costa, com quase 80 anos, continua a gravar e a se apresentar (praticamente apenas em São Paulo). Tem lançado trabalhos que, como poderia escrever Sartre, não são perfeitos, ultrapassam um pouco os limites da perfeição, para ir mais além. E se alguém achar a afirmação exagerada ou passional, primeiro ouça as faixas Azulão, Te Quiero, Bachiana nº5 e Onde está Você, todas do álbum Alaíde Costa e João Carlos Martins, lançado em 1995.

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Ná Ozzetti, a cada dois ou três anos, nos presenteia com uma nova seleção de pérolas inéditas ou regravadas, como o álbum Balangandãs, talvez as melhores revisitações já feitas do repertório de Carmen Miranda. Ou então aventurando-se com o acompanhamento do piano erudito de André Mehmari, que, junto do violinista Yamandu Costa e do bandolinista Hamilton de Holanda, compõem a tríade das maiores revelações da música instrumental brasileira nos últimos anos. Consuelo de Paula (A Flor e o Tambor) é outra compositora e intérprete de raro refinamento. Virgínia Rodrigues, descoberta (cantava no coro de uma igreja na Bahia) há alguns anos por Caetano Veloso, fixou-se em São Paulo e pouco se apresenta fora da cidade. Suas interpretações em Sol Negropodem ser alinhadas com as das melhores vozes femininas da história do disco. Todos os seus álbuns estão fora de catálogo no Brasil e só são encontrados nos Estados Unidos!

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Como no teatro, temos também muitos músicos e cantores brasileiros radicados no exterior e que continuam ininterruptamente a compor e lançar discos de referência. Eumir Deodato, quase ignorado no Brasil (seu último disco, lançado o ano passado nos Estados Unidos, chegou ao top de vendagens), aqui sequer foi lançado. Deodato, vivendo em Nova Iorque há 40 anos, é considerado, nos Estados Unidos, na Europa e no Japão, um artista da mesma importância de Tom Jobim. Flora Purim, sempre acompanhada de Airto Moreira, teve projeção mundial na década de 1970, ao ser eleita, por sete anos consecutivos, a melhor cantora de jazz do mundo. Flora, que vive na Califórnia, continua a gravar discos deslumbrantes e a se apresentar nos mais importantes festivais e casas de jazz dos Estados Unidos e da Europa. Dirija-se o leitor a qualquer uma das lojas de CDs no Brasil e veja quantos dos mais de 30 discos da dupla estão disponíveis.

Não menos espantoso é o caso de Tom Zé. O acaso fez com que o produtor americano David Byrne colocasse as mãos num disco dele, num sebo de Nova Iorque, no final dos anos 80. E Tom Zé, à época gerenciando um posto de gasolina no sertão da Bahia, ganhou o mundo. Já são mais de 20 anos de apresentações por vários países e lançamento de discos aplaudidos de forma unânime pela crítica. Acaba de lançar (em CD e LP) Tropicália Lixo Lógico, uma verdadeira apoteose de inventividade. Lançou também meia dúzia de DVDs. Tente encontrar algum desses DVDs em lojas. É quase impossível.

Perguntei-lhe, outro dia, num show, como obter seus DVDs. Com sua natural irreverência, ele tirou uma caneta do bolso, anotou seu endereço e disse: “na minha casa, já que as lojas não têm interesse em comercializá-los”. Mas todos os DVDs de Bruno e Marrone ou de Cláudia Leitte nunca saem do catálogo das grandes lojas!

Esses são apenas alguns nomes talentosos da literatura, do ensaio, do teatro, da dança, da música e do cinema presentes na cena intelectual e artística do Brasil de hoje. A meu ver, não há, portanto, um vazio na cultura brasileira. Existe, ao contrário, uma enorme, qualificada e criativa produção de bens culturais. Ocorre, porém, que ela tem pouca ou quase nenhuma visibilidade. A televisão, a grande mídia, o jabá e o reacionarismo se encarregam de tentar estrangular esses produtores de cultura. Some-se a isso o descaso e/ou a incompetência de vários órgãos dos poderes públicos.

A FALTA DE VISIBILIDADE DA PRODUÇÃO CULTURAL DE VALOR

Consideremos melhor o caso da mais destacada expressão artística brasileira no cenário mundial, a música popular. Os números nunca são exatos, mas é possível extrair uma média. Comparando-se as diversas listas dos discos de música brasileira mais vendidos, encontraremos todos os discos da Xuxa (oscilando entre 1 e 3,5 milhões de cópias cada um), vários discos (decalques talvez fosse uma terminologia mais apropriada) de duplas sertanojas (sim, a distinção é necessária: não dá para alinhar Tonico e Tinoco, Pena Branca e Xavantinho com Zezé e Luciano, Chitãozinho e Xororó et tutti quanti) e, nos últimos tempos, a presença maciça de padres e pastores. Em 2011 e 2012, aproximadamente metade dos nomes que encabeçam a lista dos discos mais vendidos no Brasil é de “intérpretes” religiosos: Padre Marcelo Rossi, Padre Robson, Padre Fábio de Melo, Padre Reginaldo Manzotti (com dois discos, Milhões de Vozes ao Vivo e Em Deus um Milagre) e, para quebrar o domínio masculino, Pastora Ludmila Ferbe. Fecham a lista as bandas de bunda music e pagode (não o original, é claro, mas a versão pasteurizada do gênero).

Zeca_Baleiro_1997_Por_onde_Andar_Stephen_Fry

Zeca Baleiro

Esses “artistas” dominam quase inteiramente os programas de rádio e televisão. Permitam-me um parênteses para um exemplo sintomático. A UNESCO decretou, há poucos meses, o frevo como patrimônio cultural da humanidade. Pergunta: existe alguma rádio no Brasil, ou, mais especificamente, em Pernambuco, a tocar frevo? Só podemos ouvi-lo, de fato, em uma ou outra rádio pernambucana, à época do carnaval, na desgastada fórmula macumba pra turista!

Rádios e canais de TV são concessões públicas e deveriam, por direito dos cidadãos brasileiros, executarem, pelo menos numa fatia de suas programações, música popular brasileira de qualidade. Mas o jabá, que sempre existiu, hoje assumiu poderes de vida e morte. As rádios do Brasil tornaram-se concessões particulares de meia dúzia de empresários de bandas de axé, de pagode e duplas sertanojas. Outras são meras extensões, moduladas por alta e média frequência, de templos religiosos. Não estranha, portanto, que esses “artistas”, de quando em vez, como aconteceu com o “cantor” Belo e a bispa Sônia, frequentem a página policial do jornal, envolvidos em escândalos de tráfico de drogas e lavagem de dinheiro.

Cria-se, assim, mais um círculo vicioso, tratando-se o ouvinte como um animal de engorda: soca-se-lhe, goela abaixo, o bagaço e depois afirma-se que ele só gosta de bagaço. Comparemos: o disco do Padre Marcelo com o hit Erguei as Mãos e Dai Glórias ao Senhor vendeu mais de 4 milhões de cópias, maior vendagem de um único disco já registrada no Brasil. O mesmo número de discos que Elis Regina vendeu ao longo de vinte anos de carreira. E o último CD de Chico Buarque foi lançado numa tiragem de apenas 4 mil unidades!

AUTORITARISMO e EMBURRECIMENTO

Se, por um lado, os artistas verdadeiros estão cada vez mais sufocados pela máfia do jabá, não muito diferente é a ação dos poderes públicos em relação à arte de qualidade. Arrolemos alguns exemplos. A prefeitura da cidade de São Paulo pagou e continua a pagar, em média, entre 1 e 1,5 milhão de reais, por show, para cantores como Luciano e Zezé di Camargo e Ivete Sangalo, ou bandas como Terra Samba, se apresentarem em megaeventos como a Festa do Primeiro de Maio ou o Réveillon. Por quê? Porque o povo gosta? Mas o povo não poderia gostar de um artista com um repertório menos idiota? Estabelece-se, outra vez, outro círculo vicioso: abre-se a goela do povo-ganso e soca-se-lhe uma ração previamente diagnosticada como a única que ele é capaz de digerir. Poderíamos também questionar o cachê desses shows: quantos outros shows e eventos culturais seria possível promover com o dinheiro de um único desses shows milionários?

Outros exemplos constrangedores do desleixo e da incompetência do poder público em relação à cultura na cidade de São Paulo podem ser vistos em cores a olhos nus . A violência está onipresente na cidade: no centro, nos bairros nobres e periféricos, nos espaços públicos e privados e, sobretudo, no trânsito. Volta e meia vagões do metrô são grafitados com propaganda de megaproduções hollywoodianas, promovendo filmes como Máquinas Mortíferas, Nascido para Matar e outras delicadezas do gênero. Pergunta: qual a competência dos secretários municipal e estadual de cultura para permitirem um absurdo desses? Saberão eles desses anúncios? Se sabem, por que os permitem? Ou sabem e são coagidos por outras autoridades? Que Prefeitura e que Estado são esses que permitem a apologia explícita da violência no próprio espaço público com o consentimento das autoridades? Quem ganha com isso? Quem embolsa o dinheiro desse tipo de propaganda suja da indústria cultural de massa?

Analisemos mais um disparate. A mais nova linha de metrô da cidade, que liga a Luz ao Butantã, possui algumas estações, como a Paulista e Pinheiros, bastante escavadas. Existe um mísero elevador na Estação Paulista e outro na Pinheiros, este último quase sempre desligado. Embora o serviço da Prefeitura de atendimento ao usuário informe o tempo de deslocamento entre as duas estações, omite o tempo necessário para galgar os cerca de 10 lances de escadas rolantes, congestionadas em qualquer horário. O tempo de deslocamento nas escadas é, na verdade, mais longo que o tempo consumido pelo trem entre as referidas estações. Na Estação Pinheiros, cada lance de escadas é escudado por 16 super telas planas, dispostas estrategicamente nas quatro paredes. E os telões alternam, o dia todo, informações quase exclusivamente sobre a previsão do tempo e os horários dos jogos do campeonato brasileiro de futebol. Em português claro: a administração do metrô (seria lícito também perguntar se os secretários municipal e estadual de cultura já circularam em algum metrô que não os da Europa ou Nova Iorque) supõe que os usuários, em grande parte trabalhadores, só podem ter três opções de divertimento: a vitória, o empate ou a derrota de um clube. Enquanto isso, devem estar atentos às oscilações térmicas! Por que não utilizar os telões para divulgar, sem jabá, a música, o teatro, a dança, o cinema e a literatura de qualidade?

Seria uma ação simples e, ao mesmo tempo, uma atitude de respeito à cidadania e de comprometimento com a gritante necessidade de elevação do nível cultural do brasileiro médio. Mas essas atitudes não rimam com a arrogância secular dos poderes públicos em nossa cidade e em nosso país. O povo é tratado como mera massa trabalhadora e incapaz de apreciar um fino biscoito.

E a população letrada, os profissionais liberais, os estudantes, os que podem se dar ao luxo de fazer a assinatura anual de uma revista? Essa parcela é, também, numa boa porcentagem, domada pelos poderes estabelecidos. De forma mais específica, o poder da mídia, o qual funciona como instrumento ideológico da manutenção da desigualdade, da opressão e da miséria e que, num paradoxo, condena a própria classe que procura domar a se tornar a presa preferida das vítimas da opressão, cujo limite são os agentes do crime organizado. A matéria de Carta Capital nomeia a Rede Globo e a revista Veja como as âncoras da imbecilização nacional. A acusação é correta e os exemplos podem ser colhidos a granel.

Sobre a Rede Globo e os outros canais abertos, excluindo-se, é claro, a honrosa TV Cultura, não é necessário elencar muitos exemplos para se ter uma ideia do caráter pernicioso desses meios de comunicação. Basta levantar algumas perguntas óbvias. O que dizer de um país em quedos seus 190 milhões de cidadãos (lembrando-se que muitos deles são bebês ainda não fisgados pela televisão), cerca de 20 milhões dessas almas paupérrimas estão em linha direta com o BBB? Será necessário algum embasamento teórico da Sociologia para justificar a ousadia de Gugu Liberato, com o aval do Senhor Abravanel, para encenar, mas apresentando-a como se fosse verdadeira, uma entrevista ao vivo com um dos líderes do PCC? E o Ministério Público, fez o quê? Tirou o programa do ar durante dois domingos? E depois, o que prevaleceu, a lei ou os royaltties arrecadados por Gugu?

Sobre a Veja. Em sua origem, nos longínquos anos 1970, quando foi criada, selecionou, por concurso nacional, um time de jornalistas de primeira plana. Gente do calibre de Caio Fernando Abreu e Mino Carta, autor do editorial da matéria ora comentada. Hoje, a revista que foi sinônimo de excelência jornalística é um reduto do pior jornalismo praticado no país. Tacanho, rançoso, autoritário e emburrecedor. Mas em nada inocente. Sua liturgia, assimilada nos salões das casas grandes e no cinismo neoliberal da pós-modernidade, é apresentada aos seus leitores em tom de profissão de fé, como um dogma. Ressuscitando a caça às bruxas do macarthismo, sua equipe de editores e jornalistas declara inimigos mortais todos os hominídeos que ousam professar qualquer inclinação pela esquerda. O exemplo mais recente foi o longo artigo, sem assinatura (tal como uma sociedade aberta de capital anônimo), no ano passado, por ocasião da morte de Eric Hobsbawn. “Foi tarde”, era o tom do artigo, vibrando, não nas entrelinhas mas em cada signo do texto, entre a celebração da morte do historiador e a demonização do seu pensamento.

Há não muito tempo, Veja apresentou uma matéria especial na qual enterrava, sem direito a exumação, Marx, Freud e Sartre. Ora, muito mais importante que extirpar pragas esquerdistas, é tentar compreender a amplitude e, malgrado suas contradições, o legado do pensamento desses intelectuais para a humanidade. Os proprietários de Veja poderiam, assim, recomendar aos seus “editores” e “jornalistas” uma tarefa para o lar, do tipo faça uma pequena biografia de Sartre. Então eles talvez descobrissem, com espanto, que Sartre, além de comunista, era feio e estrábico. Que Sartre escrevia, editava jornais, protestava nas ruas, participava de tribunais que julgavam crimes de guerra e, como intelectual engajado, tomava posições políticas. E embora Sartre padecesse de várias moléstias durante a década final de sua vida, manteve-se lúcido até o fim. E, por causa da sua lucidez, reviu e mudou suas opiniões políticas mais de uma vez. Apoiou o maoísmo e depois o condenou; entusiasmou-se com a URSS de Krushev, mas mais tarde rompeu para sempre com Moscou; apoiou a revolução cubana e, se tivesse vivido mais tempo, provavelmente, como ocorreu com tantos intelectuais (Saramago, Vargas Llosa), teria condenado a política de Fidel Castro.

Ser de esquerda, hoje, nesta rentrée do novo milênio, não significa defender os monstruosos, repressores e desumanos regimes comunistas implantados no século XX. Qual intelectual, em sã consciência, justificaria o governo do Khmer Vermelho ou de qualquer ex-república socialista do Leste Europeu? Quem acata o autoritarismo do governo chinês ou defende o encarceramento de 20 milhões de prisioneiros (a população inteira do país, com exceção de alguns funcionários do alto escalão) no território da Coreia do Norte?

Demonizar intelectuais de esquerda é fechar os olhos ao que foi efetivamente a construção e o desenvolvimento do Capitalismo, é ignorar os últimos cinco séculos da história, sobretudo na América Latina, na África e na maior parte da Ásia. O que não significa, de modo algum, absolver e proclamar uma verdade cega do pensamento de esquerda. Nenhuma pessoa medianamente informada pode defender uma pureza ou verdade imanentes a qualquer sistema ou opção política. O mundo não é um filme de faroeste nem está assentado em duas antípodas. Pensadores de direita podem ser humanistas e intelectuais de esquerda podem ser reacionários. A dialética da realidade humana, incluindo os seus desdobramentos políticos, não pode ser reduzida a uma simplória polarização.

Em arte, defender ou rechaçar uma obra com base exclusiva nas preferências políticas de seu autor é sempre uma limitação. Mario Vargas Llosa, Prêmio Nobel de Literatura em 2010, é o principal escritor latino-americano vivo. Nos anos 1960 e 1970, foi um entusiasta da revolução cubana e do socialismo. Um leitor de direita radical que pretendesse julgá-lo exclusivamente pelo viés político se privaria da leitura de romances maravilhosos, como Batismo de Fogo ou Conversa na Catedral. Hoje, o escritor peruano é um defensor do Neoliberalismo e um leitor que dele se afastasse em virtude do seu credo político estaria sacrificando a leitura de obras-primas como O Elogio da Madrasta ou Os Cadernos de Don Rigoberto.

O argentino Jorge Luis Borges é considerado por não poucos críticos e leitores o maior escritor do século XX. Um almoço com Augusto Pinochet custou-lhe o Nobel; mas, como bem assinalou Cortázar, sua cegueira política sempre foi muito maior que sua cegueira física. Quem, no entanto, resolvesse boicotar a obra de Borges devido ao seu reacionarismo deixaria de ler uma das obras mais criativas da história da língua espanhola. Achincalhar e denegrir um pensador por ele ser de esquerda ou de direita é, de resto, uma atitude tão incoerente quanto condenar um povo por seu credo. As descobertas, as teorias e as ideias de Freud, Marx, Einstein, Sabin e Jesus Cristo devem desaparecer por eles terem sido judeus?

Mas Veja pensa assim. Seu “jornalismo” mais se assemelha a um despacho. Essa é uma das facetas da revista. A outra é o esforço sistemático para emburrecer os seus leitores. Tal como na TV, na indústria cultural de massa e nos poderes públicos autoritários e negligentes, a operação se dá de forma arrogante e cínica, sem meias tintas. Veja doutrina seus leitores para que permaneçam idiotizados e sejam impedidos de desenvolver a humana capacidade de exercer o senso crítico. Assim, seus “jornalistas culturais” sapecam filmes, peças de teatro, discos, livros, artistas e pensadores numa espécie de cruzada contra qualquer voz contestadora do status quo.

Um exemplo. Há dois anos, a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo exibiu o filme As Quatro Voltas, de um jovem diretor italiano, Michelangelo Frammartino. O público cinéfilo se encantou, as sessões lotaram, mas o filme entrou em cartaz no circuito comercial da cidade só agora, em janeiro de 2013. Sem nenhuma fala, o longa acompanha o cotidiano de um pastor, na região da Calábria. Modulado pelo movimento dos elementais (a terra, o fogo, a água e o ar) e pelos estados da matéria (o humano, o animal, o vegetal e o mineral), as imagens discursam, com extrema simplicidade e perfunctória profundidade, sobre o ciclo da vida e as dimensões material e espiritual do homem. Uma verdadeira obra de arte, um chamado à reflexão sobre nossa condição, talvez vista como “demasiado humana”. Como o “crítico” de Veja“analisou” o filme? “Uma hora e meia sem fala. Vai encarar?”. É, constata-se com facilidade, uma “análise” estilo videocacetada do Faustão, pois o subtexto, de um juízo obtuso e grosseiro, diz ao leitor: não vá, vai ser uma chatice, não acontece nada. A segunda parte do subtexto conclama o leitor: filme bom é o que tem muita ação, tipo Xuxa e O Mistério de Feiurinha, Nascido para Matar parte 674, Motoserra Assassina parte 923.

Isso, portanto, não é crítica, não é jornalismo, não é informação. É manipulação ideológica tosca, programada para a perpetuação da ignorância do leitor e do país. Então, é possível perguntar: a que interesses atende esse tipo de publicação?

A resposta não comporta nuances: aos interesses conservadores que historicamente fundaram, moldaram, orientaram e continuam a orientar a sociedade brasileira, cujos signos maiores são o autoritarismo e a desigualdade econômica e social. Nenhuma sociedade é perfeita, nenhum regime político e nenhum governo são inocentes e a cultura não salva nada nem ninguém. Mas ela é, como escreveu Jean-Paul Sartre em Que é a Literatura?, um espelho crítico que permite ao homem se reconhecer naquilo que ele faz.

Quando abrimos o jornal e nos deparamos diariamente com as manchetes sobre o mensalão, o senhor Renan Calheiros, a médica que mandou desligar os aparelhos da UTI, o aumento do número de chacinas, as denúncias sobre compadrio de grupos educacionais com o ex-secretário estadual de cultura, pensamos sempre no país que poderíamos ter sido e ainda não somos.

Quando viajamos por países do Primeiro Mundo ou nos informamos sobre os índices de IDH, invejamos não podermos desfrutar, apesar das imensas riquezas naturais do Brasil, do padrão de vida de países como o Canadá, a Nova Zelândia, a Suécia, a Noruega, a Dinamarca ou a Finlândia. Mas, indaguemos com franqueza: será que uma revista como Veja teria, proporcionalmente ao Brasil, o mesmo número de leitores nesses países? Canadenses ou finlandeses incinerariam horas noturnas de suas vidas acompanhando a fala confeitada de Pedro Bial a respeito dos brothers? A seção infantil das livrarias desses países destacaria na prateleira Agapezinho, do Padre Marcelo Rossi? Será que o programa educacional francês, pelo qual a criança é introduzida na prática de assistir filmes de arte a partir dos seis anos — e para isso são produzidos cerca de 3000 filmes por ano na França — incluiria os filmes da Xuxa? E a Festa do Primeiro de Maio em Amsterdã, seria embalada por um show de Luciano e Zezé?

AUMENTANDO OS DOMÍNIOS DA IMBECILIZAÇÃO

A disseminação, no Brasil, da imbecilização e a consequente indigência cultural não são, no entanto, apanágio dos miseráveis, dos pobres, das hoje nomeadas classe C e D ou de uma emburrecida classe média. O problema é mais grave e pode ser reconhecido nas elites. Não necessariamente econômicas. Ele aflora, também, vigoroso, na elite intelectual. É só tomar qualquer enquete, dessas publicadas esporadicamente em jornais e revistas, sobre, por exemplo, o gosto musical dos estudantes da USP, a mais renomada universidade do país. Exceção a uma parcela do reduto “cabeça” da Universidade, a FFLCH, as pesquisas são dominadas pelo axé, o pagode, o sertanojo. Não diferente são os resultados sobre preferências de leitura: afora os livros técnicos, a quase totalidade dos estudantes não ousa ir além de um best seller.

Poder-se-ia argumentar que são jovens, têm pouca experiência, não tiveram tempo de assimilar um repertório capaz de incorporar de modo representativo a alta cultura. Não é verdade, pois essa atitude permanece, com frequência, para além da conclusão dos cursos e se reflete, por exemplo, no baixíssimo nível cultural dos profissionais liberais brasileiros e, de forma gritante, nos especialistas que ocupam boa parte das páginas da imprensa. É comum — e espantoso — constatar o desconhecimento que profissionais liberais com cursos de doutorado e MBA, jornalistas e especialistas, ostentam fora de suas respectivas áreas de especialização. Assim, encontramos autoridades em música erudita que desconhecem tudo de teatro, experts em música alheios à literatura, apaixonados por filmes de ficção torcendo o nariz (como fazem boa parte dos críticos) para o documentário… Ninguém pode saber tudo sobre todos os assuntos, mas o demônio da especialização (contra o qual Hobsbawm lutou a vida toda) é uma das formas da cegueira e um dos mecanismos, em que pese o paradoxo, para se criar desertos de cultura.

A história da humanidade é, em grande parte, a história da construção da cultura, da passagem do estado de natureza ao estado de civilização, do sacrifício do princípio de prazer em nome do princípio de realidade. Claude Lévi-Strauss, no seminal Tristes Trópicos, ao relatar o modo de vida dos Nhambiquara, informa sobre a fragilidade de sua estrutura social e a rusticidade de seus hábitos. Entre outras práticas, dormiam no chão (desconheciam a rede) e nus, aqueciam-se abraçando-se mutuamente, ou se aproximando das fogueiras. As mães deitavam os filhos no colo para catar os piolhos e, uma vez capturados, comiam-nos no mesmo instante. O antropólogo também fala de tribos que raramente tomavam banho e andavam com restos de escamas de peixe colados ao corpo. Seriam esses índios inferiores a nós outros que acionamos smarths e viajamos em aviões a jato? Claro que não. Por outro lado, não nos ocorreria comer piolhos nem, como se fazia em tantas culturas primitivas, sacrificarmos nossas crianças ou uma bela jovem para termos colheitas melhores, ou, em nossos tempos, sermos aprovados num vestibular ou conquistarmos um emprego melhor. A arte ajuda, em todas as culturas, a aperfeiçoar — mesmo que a perfeição permaneça para sempre apenas no horizonte do provável — o homem; ajuda-nos a tentar, pelo menos, refrear ou minimizar o instinto de destruição e morte que carregamos, como a fruta carrega o seu caroço, dentro de nós.

 

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TESTEMUNHO — Se a sua generosidade, leitor, me acompanhou até aqui, permita-me contar-lhe uma breve porém ilustrativa história pessoal. Há alguns meses eu estava circulando por Saint Germain-de-Prés, em Paris. Procurava a minúscula rua Saint Benoît, onde se encontra o prédio em que viveu a escritora e cineasta Marguerite Duras. Próximo a uma das extremidades da rua, deparei-me com uma livraria. Os livros expostos em ambas as vitrines eram, todos, de uma única autora. A chamada, acompanhada de uma foto, anunciava: “(…) esse gigante da literatura, mistura de beleza selvagem e inteligência insuperável”. Os livros, todos, eram de Clarice Lispector! Alguns passos mais e eu estava na Saint Benoît, cujo outro extremo dá no celebérrimo Café de Flore. Era um domingo pela manhã, quase nenhum movimento na rua, e o silêncio só era quebrado por uma música, vinda de um outro café. A música era o Samba de Uma Nota Só, de Tom Jobim. Senti-me então tomado, ao mesmo tempo, por uma imensa alegria e uma imensa tristeza. Nada fora premeditado: quem arranjara a vitrine e quem decidiu naquele momento soltar o Samba não poderiam ter pensado que eu passaria ali naquele momento. É belo demais (“amoment of being”, como diria Virginia Woolf) reencontrar o Brasil em Saint Germain, um dos lugares culturalmente mais pulsantes do planeta. Mas é triste demais lembrar das vitrines das livrarias brasileiras, empanturradas de livros de receitas da Ana Maria Braga, das pizzas do Faustão, dos ágapes do padre cantor, dos coelhos magos e das memórias em que Bruna Surfistinha se oferece como uma iguaria de supermercado.

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Um Brasil só barriga, do qual o intelecto e o espírito parecem ter sido banidos. É desolador saber que circulando pelo centro de São Paulo ou Copacabana, em dias de mega festas patrocinadas pela Rede Globo, só poderei ouvir bunda music, a dança do créu, da mocreia ou acariciar os cornos ao som de uma dupla sertanoja. Um Brasil (com todo o respeito pelos bichos) animalizado, no qual a palavra parece ter se tornado uma excrescência.

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O Brasil produziu Clarice Lispector e Tom Jobim. Raymundo Faoro e Oscar Niemeyer. Glauber Rocha e Garrincha. O que se perde então quando se faz um esforço sistemático para ocultar essas vozes e promover a ignorância, a imbecilização e o obscurantismo? Perde-se a ética, a delicadeza, o charme e a possibilidade de sermos efetivamente um grande país, de atingirmos a tão sonhada maturidade. Ficamos infantilizados e entregues à miséria do nosso substrato escravagista travestido de pós-modernidade. Um país de doutores infensos à leitura, especialistas ignorantes, celebridades fátuas, mensaleiros engravatados, pastores de um olho só, tecnocratas arrogantes, de uma gurizada sacrificada em plena alegria da festa, enquanto uma chefe de UTI decreta o desligamento dos aparelhos que mantêm os seus pacientes vivos, e o PCC realiza mais um ataque e reafirma seu status de celebridade paralela no cenário nacional.

“Um país se faz com homens e livros”, insistia o velho e irrequieto Monteiro Lobato. O que terá lido ao longo de sua vida escolar e de seus 30 anos no exercício da Medicina a doutora Virgínia Soares de Souza, chefe da UTI do Hospital Evangélico de Curitiba? “A Morte do Jovem Aviador Inglês” (do livro Escrever, lançado no Brasil em 1993 numa minúscula edição da Rocco e hoje esgotado) é uma das melhores narrativas da literatura francesa contemporânea. Foi escrito por Marguerite Duras depois de deixar o hospital, onde permanecera vários meses, numa UTI, em coma. Se esta médica e seus assistentes tivessem lido esse texto, teriam executado seus atos monstruosos?

O conhecimento da cultura, não significando apenas as belas artes e sim todas as construções linguísticas, políticas, sociais, econômicas e históricas elaboradas pelo homem, não é garantia da sua humanização. A cúpula do partido nazista de Hitler, ainda não esquecemos, era, em grande parte, constituída por artistas. Mas, no estágio de evolução biológica em que o homem se encontra e na dinâmica intercontinental dos diversos povos, ela não pode ser ignorada. Nesse contexto, a produção intelectual e artística é imprescindível para a melhoria das sociedades e, num horizonte não menos distante, para a garantia da sobrevivência da própria espécie humana.

A apologia da burrice, promovida com esmero e dedicação pela mídia brasileira, nos condena à permanência de país subdesenvolvido, ao mesmo tempo que nos nega a dignidade de seres humanos capazes de, seja pela intuição ou pelo intelecto, abraçar o belo e a ética.

Professor Verô

1 comment

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  1. 1
    fernanda

    Soco do estômago dado pelo Verô!!! Falou mais que a própria CCAPITAL, dando nomes ao bois ainda! Parabéns por esse espaço onde ainda existe liberdade de expressão!

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