Dois documentários africanos: a Copa do Mundo e o Lobolo


Entre os filmes exibidos recentemente na mostra de documentários ÁFRICA HOJE, destacamos dois títulos.

O primeiro, FAHRENHEIT 2010, embora faça um recorte específico da África do Sul, possibilita uma reflexão sobre os despropósitos da realização da Copa do Mundo no Brasil.

O segundo, LOBOLO, O PREÇO DA NOIVA, problematiza uma antiga tradição de casamentos ainda viva em vários lugares do continente.

FAHRENHEIT 2010 (Graig Tanner, África do Sul, 2009, 53min)

Os torneios mundiais de futebol, como a Copa do Mundo e a Copa das Américas, as Olimpíadas e outras competições esportivas, como a Fórmula 1, são cercados de interesses comerciais e políticos. A escolha dos países que sediam os eventos está diretamente ligada a negócios que movimentam milhões ou, como no caso da Copa, bilhões de dólares. O discurso encampado é sempre o mesmo: a promoção do país sede, a projeção da imagem no cenário internacional, e, sobretudo, os imensos dividendos trazidos pelos eventos.

Qualquer cidadão medianamente informado sabe, no entanto, que esse discurso é quase sempre falso quando os países envolvidos pertencem ao Terceiro Mundo. Os gastos são astronômicos, os benefícios reduzidos e restritos ao período de realização das provas esportivas. Depois, vem a ressaca. E contabiliza-se o uso mais racional que poderia ter sido feito do dinheiro. A Copa do Mundo de 2010 na África do Sul é um bom exemplo das mentiras da FIFA. Analisemos alguns dados.

A África do Sul é um dos países com maior número de portadores do vírus da AIDS: são cerca de 5,5 milhões de pessoas contaminadas e cerca de 1.000 óbitos por dia. A taxa de desemprego oscila entre 25 e 40%. A maioria da população não possui água encanada nem energia elétrica. A expectativa média de vida é de 49,2 anos (a média mundial é 67), ficando atrás de outros 32 países, incluindo Etiópia, Uganda e Burundi.

Mesmo diante desse quadro crítico, o governo sul-africano autorizou a construção dos mega estádios, antes mesmo de o país ter conquistado o direito de sediar o torneio. O desperdício de dinheiro e a insensatez podem ser comprovados em todas as construções.

Em Durban (cidade onde viveu Fernando Pessoa), havia um estádio de rugbi com capacidade para 50 mil pessoas. Construiu-se um estádio novo, ao lado do antigo, com a mesma capacidade de acomodação.

Em Mbombela, as escolas foram usadas como escritórios para a construção de um estádio. Os alunos foram deslocados para escolas de aço (semelhantes às escolas de lata instaladas há alguns anos em São Paulo). Mais tarde, as escolas originais foram demolidas e os espaços foram transformados em estacionamentos do estádio. Não bastasse esse descalabro, investigações comprovaram que o terreno onde o estádio foi erguido foi vendido por 1 (isso mesmo, UM) rand, a moeda local.

Em outras cidades, ergueram-se estádios com capacidade para até 90.000 espectadores. Mas, desde sua inauguração, nenhum teve público superior a 40.000 pessoas. Esses dados não são suposições, são números reais. E a incoerência entre as obras, os custos e a ocupação já fora apontada por vários especialistas antes de as obras decolarem das pranchetas. Mesmo assim, foram executadas.

A pergunta óbvia é: quem se beneficia com esse tipo de obras?

A resposta é única: a FIFA, que lucra com os direitos bilionários de transmissão dos jogos, dos quais não vai um único centavo para o país que sedia o campeonato. Analistas calculam que a FIFA lucrou, sozinha, 25 bilhões de dólares com os direitos de transmissão da Copa de 2010.

A FIFA, como todos sabem, é uma grande empresa, sem qualquer escrúpulo, interessada, acima de tudo, em seus lucros. Por isso, manipula, usa e abusa dos países pobres. Aliás, um dos únicos fóruns em que os países minúsculos e/ou paupérrimos têm voz “ativa” é nas votações da FIFA. Ilhotas e arquipélagos do Caribe e dos mares do Sul, bem como países de visibilidade quase nula no cenário internacional, como o Lesoto ou a Papua Nova Guiné, são ouvidos como qualquer outro Estado na hora das votações. Ouvidos “de mentirinha”. Seus votos, na verdade, são sempre comprados pelos países poderosos no mundo do futebol. Desse modo, as votações são manipuladas.

Exatamente como acabou de acontecer com a escolha do Brasil para sediar a Copa de 2014. A gravidade das crises enfrentadas pela Comunidade Econômica complicaria grandes investimentos em países europeus. Então, usa-se um quintal qualquer do Terceiro Mundo. Ou fazem acordos com ditaduras, como a FIFA fez em 1978 com a Argentina. E, enquanto os hermanos se embriagavam com as jogadas de Maradona, os presos políticos agonizavam nas mãos dos torturadores da Escola Naval de Buenos Aires.

Voltando à África do Sul. Paralelamente, o outro grande favorecido com os torneios de futebol são as construtoras. Em 2007, o chamado ano financeiro da África do Sul (ano em que os mega estádios começaram a ser erguidos), as empresas envolvidas no negócio tiveram aumento de até 218% em financiamentos concedidos pelo governo. E o volume de tijolos e argamassa utilizados para construir os muros das casas da parcela mais rica da população seria suficiente para construir habitações para toda a população sul-africana, a maior parte da qual vive em barracos.

Considerando-se tais absurdos, poderíamos dizer, como num épico: “Era uma vez na África”. Mas esse filme está sendo rodado, infelizmente, outra vez, e com gastos muito mais dispendiosos. Aqui, em South America, neste Brasil brasileiro com “coqueiro que dá coco” (sic). E qual o argumento para as obras faraônicas e inúteis? A balela de que assim criam-se empregos. Mas a construção de creches, escolas, hospitais, clínicas dentárias, casas populares, asilos, áreas de lazer e teatros também não poderiam gerar empregos?

O segundo argumento a favor da Copa é a projeção policarpeana do nome do Brasil no exterior. Mas a quem convence uma banalidade desse quilate? O Brasil já não é há décadas o maior exportador mundial de craques? O nosso futebol já não é, desde a conquista do tricampeonato mundial em 1970, o mais conhecido e admirado no mundo? E a música de João Gilberto e de Tom Jobim? E a arquitetura de Oscar Niemeyer? Esses gênios já não garantiram o nosso lugar no cenário internacional?

Como dá para ver, há mais coisas entre o Brasil e a África do que sonham as vãs filosofias do senhor Havelange e do nosso governo!

LOBOLO, O PREÇO DA NOIVA (Irene Norgaard, Moçambique, 2010, 35 min)

Nesse documentário moçambicano, deparamo-nos com sociedades antigas e tradicionais, nas quais a prática do dote continua a existir. Corresponde a uma obrigação que pode ser assumida tanto pela família da noiva como do noivo, dependendo da situação econômica de cada um. No sul de Moçambique, por exemplo, o lobolo é uma tradição banta muito viva. Constituído por um dote em dinheiro, roupas, bebidas e outros presentes, deve ser oferecido pela família do noivo à da noiva.

A mulher, por sua vez, retribui o dote na forma de obrigações pré-determinadas pelas famílias e não por ela, comprometendo-se a não envergonhar a honra da família do marido. A força dessa tradição é tamanha que, mesmo que uma mulher tenha boas condições econômicas e/ou um bom nível educacional, ela não se sente valorizada quando não é lobolizada. O lobolo é requerido em nome da família, o que compreende não apenas pais, irmãos, tios e avós, mas também a memória dos antepassados. Negá-lo é dizer não a toda uma longínqua tradição.

Originalmente, seu valor era mais de natureza simbólica. Com a modernização das sociedades, o valor do montante e dos presentes foi se revestindo de um caráter capitalista e gradativamente solapou o valor simbólico, transformando-se num ritual dispendioso. Segundo alguns, é um ritual de poder que reafirma o poder masculino. E muitos maridos se aproveitam do lobolo para posteriormente dominarem a mulher e tratá-la como uma propriedade: “Já paguei, já fiz tudo e agora tens que me obedecer”.

Esse poder se torna ainda mais autoritário quando se constata que a mulher é estéril. O marido tem então o direito de expulsá-la de casa ou de exigir a devolução do lobolo. Em caso de viuvez, a mulher pode ser obrigada a retornar à casa dos pais, o que prova ser o lobolo uma instituição não apenas simbólica.

Mais grave são, no entanto, as situações em que a mulher sofre violência. Muitas vezes ela não pode voltar para junto de sua família, pois os pais seriam obrigados a devolver o valor do lobolo. Consequentemente, muitas mulheres caem em depressão e se suicidam. Depoimentos colhidos entre mulheres de Uganda acusam que sete em cada dez mulheres avaliam os efeitos do lobolo como negativos.

No romance Senhora, de José de Alencar, discute-se também, em meio a um enredo açucarado e marcado por um conjunto de incoerências, a negociação de dois casamentos.

Torquato Ribeiro e Adelaide Amaral se amam, mas o pretendente é pobre. O amigo de Torquato, Fernando Seixas, por sua vez, namora uma moça pobre e órfã, Aurélia Camargo. Fernando vê-se em apuros quando a mãe lhe solicita a retirada de 20 contos de réis de uma poupança deixada pelo marido. O dinheiro seria destinado ao enxoval da filha mais nova, Nicota, e prometido como dote ao noivo desta. Mas Fernando havia torrado a poupança do pai, sem que a família soubesse. Coincidentemente, o pai de Adelaide, funcionário da alfândega, propõe a Fernando casar-se com a filha e lhe oferece 30 contos de réis como dote. Por que a troca? Fernando era jornalista admirado na alta sociedade carioca; Torquato, por sua vez, era um bacharel pobre e sem brilho.

Como Fernando precisa garantir o dote da irmã, troca Aurélia por Adelaide. Aurélia descobre a tramoia por meio de uma carta anônima. Como o deus ex machina da epopeia e da tragédia antiga, um acontecimento inesperado vem salvar Aurélia. Ela enriquece subitamente, ao receber uma herança de mil contos de réis de um avô. Vinga-se duplamente: por intermédio de um tio arranjador de casamentos, manda oferecer 50 contos para Torquato casar-se com Adelaide e 100 contos a Fernando. As negociações são efetivadas e Aurélia compra o homem que amava. Posteriormente, encena um casamento diante da sociedade, enquanto no espaço privado humilha Fernando. Este trabalha, reúne outra vez o valor do dote, quita a dívida (com juros e correção monetária) e prova estar interessado apenas no amor de Aurélia.

O romance de Alencar é mal escrito e incoerente. Rebate metáforas e clichês do kitsch mais desgastado e se propõe a discutir o casamento baseado no dote (o qual está assentado no capital, elemento por excelência das sociedades capitalistas modernas), ao mesmo tempo em que faz as personagens circularem numa sociedade cujas relações se fundamentam no favor e na escravidão (realidades que são em si mesmas a própria contradição de qualquer ideia de modernidade ou do universalismo do dinheiro).

Em Senhora o dote pode vir tanto da mulher quanto do homem. E o cônjuge que não o possui deve compensá-lo com algum outro atrativo (juventude, elegância, emprego, status, algum tipo de talento…). Estamos numa sociedade burguesa e, para a burguesia, tudo, até mesmo as relações humanas, constitui algum tipo de negócio. Diga-me quanto tens, e eu te direi quem és.

NA ESPERA DOS HOMENS (Katy Lena Ndiaye, co-produção Senegal/Bélgica, 2007, 56 min).

Esse documentário retrata a difícil situação da mulher em outra sociedade africana de tradições muito fortes: e da região de Hassania, na fronteira do deserto do Saara com o Senegal.

Katy Lena Ndiaye - En attendant 0001.BMP

Nessa região, a família decide sobre o casamento da mulher quando esta é ainda muito jovem. O homem pode visitar uma família desconhecida e, se tiver uma boa condição econômica, os pais podem firmar o casamento da jovem, mesmo que ela jamais tenha visto qualquer pessoa da família do futuro pretendente. Em geral, as moças não namoram; casam-se muito jovens, para “evitar as tentações”. Quando percebem, já estão casadas e o seu corpo torna-se propriedade do marido.

O patriarcalismo tradicional permite que o homem permaneça afastado de casa por meses ou anos, mas exige a fidelidade da mulher. Muitas mulheres dedicam-se, então, à decoração da cidade por ocasião de festas importantes, como o Natal. Utilizando-se de uma técnica chamada tarkhas, um tipo de pintura sobre o reboco fresco das paredes avermelhadas, elas tentam expressar seus sentimentos no contexto de uma sociedade que lhes tolhe a liberdade. Combinando a tinta branca com traços curvilíneos, elas articulam motivos que estilizam os ombros, as ancas, o ventre, os pássaros e o Livro.

É interessante constatar que esses costumes se desenvolvem em sociedades tradicionais, porém não alheias à modernidade ocidental. Isso prova que as mudanças tecnológicas não vêm acompanhadas necessariamente de uma melhoria na condição de vida dos cidadãos, especialmente da mulher.

Para saber mais sobre outra sociedade africana de costumes radicais, a região de Gambaga, onde a mulher é associada a práticas de feitiçaria, leia o post DIA DA MULHER: COMEMORAR OU NÃO?

PROFESSOR CÉSAR VERONESE (CPV)

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