Mostra de Cinema da Escola de Berlim


9257_717619594919917_1243553958_n

O Instituto Goethe e o Centro Cultural Banco do Brasil, promovem, entre 11 e 28 de setembro, a mostra ESCOLA DE BERLIM. Na verdade, essa programação é uma antecipação dos filmes que integrarão o Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro, cuja estreia será no dia 27 de setembro.

Werner Herzog, Wim Wenders e, sobretudo, Rainer Werner Fassbinder projetaram a Alemanha mundialmente no chamado cinema de autor. Fassbinder morreu em 1985 e Herzog e Wenders decolaram para uma carreira internacional. E o cinema feito na Alemanha escorregou para produções no estilo comédias de entretenimento com co-produção de canais de televisão.

É nesse contexto e contra as expectativas de fixar um gosto baixo ou médio que surgiu, nos anos 1990, depois da reunificação das duas Alemanhas, a chamada Escola de Berlim. A Escola não existe como instituição, do mesmo modo que não há um Manifesto ou qualquer outro texto teórico fixador dos critérios de um tipo de filme. Trata-se antes de um rótulo que engloba um conjunto de diretores, não só de Berlim mas de vários pontos da Alemanha, articulados em torno de uma guinada contra o cinema de entretenimento.

Os filmes da Escola de Berlim propõem-se discutir questões batidas do cotidiano, porém inserindo debates e reflexões existenciais, filosóficas e até mesmo metafísicas, não raro trabalhando na chave da hiperrealidade. Assim, em meio ao banal cotidiano (o que cinematograficamente equivale ao batido “dejà vu”), afloram discussões capazes de problematizar as relações humanas, encurtar os caminhos entre realidade e memória e implodir qualquer teoria simplista sobre o comportamento humano, sobretudo no que diz respeito às relações amorosas.

São filmes difíceis, por vezes desagradáveis e, francamente, na contramão do entretenimento e dos efeitos especiais. Exigem do público, sem concessão, muita concentração. A ousadia dos diretores acentua-se quando consideramos que alguns desses filmes foram feitos, contra todos os prognósticos, para a TV. Mais ou menos duas décadas depois, o projeto atingiu seu objetivo e criou-se um público para essas produções. Prova de que público (de cinema, literatura, teatro ou qualquer outra manifestação artística) pode, sim, ser criado.

Essa postura contraria o discurso dos donos dos mass mídia, das salas de cinema de shopping centers ou das editoras voltadas para o lançamento de best sellers, capazes de apostar apenas na ingenuidade ou burrice do público. Aliás, alguns dos diretores presentes nessa Mostra estendem sua influência para além das telas. Christian Petzold, Benjamin Heisenberg e Christoph Hochhausler são editores de uma revista não por acaso intitulada REVÓLVER, na qual lançam suas farpas contra o comodismo estético e as grandes questões políticas e econômicas da Alemanha e da Comunidade Econômica Europeia.

Entre os 19 títulos em exibição, destacam-se CAMINHO DO BOSQUE, MARSELHA e o documentário VIVER NA RDA.

Mas o filme talvez mais recomendável seja A DOENÇA DO SONO, de Ulrich Kohler, o qual toca no delicadíssimo tema do fascínio europeu pela África primitiva. Centenas de filmes e romances já foram produzidos sobre essa relação. Os mais interessantes levantam a constrangedora questão do eurocentrismo e da relativização dos conceitos de civilização e primitivismo.

05v6

No cinema, entre outros diretores, essa problemática foi discutida por Claire Denis (MINHA TERRA, ÁFRICA) e Abdellatif Kechiche (VÊNUS NEGRA).

69128_f1

Na literatura, entre tantos, ela aparece nas obras de Eça de Queirós, Doris Lessing, Isak Dinensen e no clássico dos clássicos, o CORAÇÃO DAS TREVAS, de Joseph Conrad. Na ensaística, um livro de leitura obrigatória é O FANTASMA DO REI LEOPOLDO (Uma história de cobiça, terror e heroísmo na África colonial), de Adam Hochschild.

o-fantasma-do-rei-leopoldo-adam-hochschild_MLB-F-4619533506_072013

Vale lembrar que, embora difíceis, esses filmes apresentam uma elaboração estética deslumbrante, outra prova da maturidade do atual cinema alemão. Ou seja, ousadia temática e estética. Para um público não especializado. Exatamente o contrário do que se faz no Brasil, onde, com honradas exceções, como A FEBRE DO RATO e O SOM AO REDOR, o cinema nacional oscila entre o “favela movie” e o “bunda movie”, porque violência e sexo vendem. Tudo com atores televisivos, num tempo em que a Ancine, as leis de incentivo à cultura e o Ministério da Cultura fazem acordos com a Globo e outras distribuidoras. Porque, segundo essa visão chinfrim de país subdesenvolvido, aqui a cultura precisa ter retorno financeiro.

Para conferir os horários de cada filme clique aqui.

Os canhotos de cinco sessões dão direito a um ótimo livro-catálogo com um conjunto de textos inéditos em Português sobre os realizadores da Escola de Berlim.

ONDE: Centro Cultural Banco do Brasil, Rua Álvares Penteado, 112 – Centro

QUANDO: de 11 a 28.09

QUANTO: R$ 2,00 (meia entrada) cada sessão

PROFESSOR CÉSAR VERONESE (CPV)

+ There are no comments

Add yours