Atualidade de Machado de Assis


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Machado de Assis consagrou-se como romancista com MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS, QUINCAS BORBA e DOM CASMURRO. A radicalidade e a revolução que esses livros significaram na prosa brasileira acabaram por ofuscar os dois romances posteriores, ESAÚ E JACÓ e MEMORIAL DE AIRES. Injustiça, pois tratam-se de dois romances igualmente geniais e originais.

Ambos são unidos pelo conselheiro Aires. Quando este morreu, encontrou-se, entre os seus papeis, um conjunto de sete manuscritos. Um era o texto de ESAÚ E JACÓ; os outros o diário do conselheiro que Machado, inovando mais uma vez o foco narrativo, publicou como se fosse o editor desses manuscritos.

Em ESAÚ E JACÓ, publicado em 1904, o velho diplomata Aires conta a história de Pedro e Paulo, gêmeos filhos de um próspero banqueiro com Natividade. Logo que nasceram, Natividade e sua irmã Perpétua foram ouvir uma sortista, a qual, após afirmar que os gêmeos haviam brigado no ventre, descortina um futuro grandioso para ambos.

O certo é que os meninos crescerão como rivais em tudo, disputando, mais tarde, até o amor de uma mesma mulher, Flora. Trata-se de uma narrativa de fundo mítico, como o exemplificam os nomes Natividade, Perpétua, Flora e, claro, dos gêmeos (Pedro e Paulo são apóstolos do Novo Testamento), enquanto o título ESAÚ E JACÓ remete ao Antigo Testamento. O romance problematiza, assim, entre outros temas, a dupla personalidade, já que os gêmeos deviam ser um único ser.

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Como toda narrativa de fundo mítico, o romance alegoriza questões filosóficas que dizem respeito à natureza atemporal do homem. Não obstante, Machado nunca deixa de inscrever suas estórias na realidade social do Brasil escravocrata. Aqui temos o Rio do Segundo Reinado e da proclamação da República. É sobre este ponto que queremos chamar a atenção desse grande romance.

Como sempre, Machado é mestre em inserir no texto situações mínimas, quase desprezíveis, mas que a um leitor atento se tornam sempre reveladoras de realidades amplas e extremamente significativas. Nos capítulos 49, 62 e 63, o narrador conta um caso (aparentemente insignificante) envolvendo o conselheiro Aires  e um conhecido seu, o confeiteiro Custódio.

O confeiteiro possui um estabelecimento comercial próximo à casa do conselheiro. Situado à rua do Catete, chama-se CONFEITARIA DO IMPÉRIO. A tabuleta já estava envelhecida e o confeiteiro resolve mandar pintá-la. Entrementes, é proclamada a República. O confeiteiro envia um bilhete ao artista encarregado de repintá-la, recomendando-lhe: “pare no d”. A proclamação da República tornava, obviamente, obsoleto o antigo nome.

Mas o bilhete chega atrasado e o confeiteiro vê-se na obrigação de mandar pintar uma segunda placa. Numa conversa com o conselheiro, este sugere o nome CONFEITARIA DA REPÚBLICA. Temendo uma agitação política, o confeiteiro recusa o nome. O conselheiro sugere então CONFEITARIA DO GOVERNO. Custódio aventa  uma possível reação da oposição. Aires arrisca um nome, a seu ver, neutro: CONFEITARIA DO IMPÉRIO DAS LEIS. O confeiteiro levanta a hipótese de que os passantes talvez lessem apenas a primeira parte do nome.

O conselheiro Aires, muito diplomático, não se cansa e aponta outra solução: deixar o antigo nome, CONFEITARIA DO IMPÉRIO, acrescentando embaixo a data da fundação da casa. Custódio recusa pelo mesmo motivo que recusara o nome anterior, alegando que as pessoas só leriam o nome e ignorariam a data. O diplomata evoca então o endereço: CONFEITARIA DO CATETE. O proprietário, por sua vez, lembra a existência de outra confeitaria na mesma rua e alega que o nome poderia criar confusão.

Finalmente, o conselheiro, sempre incansável, sugere o nome do próprio confeiteiro: CONFEITARIA DO CUSTÓDIO. Este aceita mas reclama por ter sido obrigado a desembolsar duas somas. O diplomata procura consolá-lo, lembrando-lhe que as revoluções sempre têm um preço.

A questão maior, para além das tentativas de acerto do nome, procura demonstrar que a mudança de regime no Brasil, de Império para República, não passou, afinal de contas, de uma troca de tabuletas. Ou, por outras palavras, os interesses pessoais sempre se sobrepõem aos interesses públicos. A política, como acontece também nas MEMÓRIAS PÓSTUMAS, em QUINCAS BORBA e em DOM CASMURRO, não passa de um conjunto de relações pessoais em que o capricho, a vontade ou o mero desejo de reconhecimento solapam os interesses coletivos.

O referido episódio de ESAÚ E JACÓ tem data inconfundível: 15 de novembro de 1889. Mas é atualíssimo. Parafraseio, a seguir, uma pequena notícia intitulada UMA SIGLA, UMA CASA, UMA COR, assinada por Andreza Matais, na página C8 d’O ESTADÃO, na última quarta-feira, 11.09.2013.

O episódio ocorreu na cidade de Serra, no Espírito Santo. O deputado Carlos Mannato, decidido a trocar o PDT pelo PP, mandou pintar uma casa de azul, preparando-a para ser a nova sede do PP no município. A tinta nem havia secado quando o Ministério Público Eleitoral anunciou que ele perderia o mandato se migrasse para a outra legenda. Decidido a mudar de partido, o deputado mandou pintar a casa de laranja, cor do Solidariedade, partido do deputado Paulinho da Força (PDT-SP) e que ainda nem saiu do papel. “Já comprei tinta duas vezes. Espero não ter que pintar a casa de novo!”

O deputado, segundo a jornalista que assina a matéria, já mudou de partido duas vezes. Lançou-se pelo PSDB e hoje está no PDT. A casa pertence a sua mulher. Ele também já encomendou um site para o partido e adesivos e, como outros parlamentares, “foi atraído pela promessa de presidir a legenda no Espírito Santo”.

Então, há alguma leitura mais atual que o velho Machado?

PROFESSOR CÉSAR VERONESE (CPV)

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