Indie Festival 2013


indie-logoDessa sexta-feixa, 20 de setembro, até o dia 3 de outubro, o Cinesesc promove a mostra de cinema independente, o já consagrado Indie Festival.

O cerco contra as produções independentes é cada vez maior, mas os realizadores não se deixam coibir. Recentemente, as várias crises econômicas nos Estados Unidos e na Europa restringiram ainda mais as já difíceis condições para os diretores independentes filmarem. Por outro lado, eles enfrentam a medusa dos grandes estúdios.

Não bastasse isso, países com tradição cinematográfica de excepcional qualidade, como a Hungria e a República Tcheca, têm sido vítimas do canibalismo hollywoodiano.  Como as leis europeias exigem, de um modo geral, uma parcela significativa de exibição de filmes rodados na própria Europa, os grandes estúdios americanos têm filmado em países europeus, sobretudo do Leste. Esses países possuem ótimos estúdios e escolas de cinema que formam bons atores. Logo, é muito fácil para os megaprodutores de Hollywood  rodar filmes na Europa e exibi-los como produções europeias. Ou seja: canibalizam as locações e os atores para produzir filmes descartáveis.

Não menos preocupante é a situação de países periféricos da indústria cinematográfica, realidade em geral vivida pelo Terceiro Mundo. No Brasil, o Ministério da Cultura reconhece como pontos de cultura de sucesso aqueles que garantem retorno financeiro. Nessa equação perversa, bobagens no estilo SE EU FOSSE VOCÊ ou MINHA MÃE É UMA PEÇA são avaliadas como produções de sucesso que compensam o investimento. Mas a cultura é um bem imaterial e, nessa condição, não deveria ser avaliada por balanços numéricos.

Contra esses ventos e marés, o Indie 2013 vem se impor. Sua proposta é possibilitar ao público o contato com produções alternativas capazes de despertar a reflexão, a indignação e a diversão. Ficção, documentário, drama, comédia, cinebiografia, a programação abraça o ecletismo. O forte da mostra costumam ser as retrospectivas de diretores consagrados e pouco conhecidos no Brasil. Nos últimos anos, revelou, por exemplo, ao público brasileiro nomes como Brillante Mendoza, Claire Denis, Bela Tarr e Aleksei Balabanov.

Este ano, a programação organiza-se com algumas diferenças e a novidade maior é um conjunto de filmes premiados em importantes festivais e que poderão possivelmente entrar em cartaz. Entre outros, comparecem:

UM EPISÓDIO NA VIDA DE UM CATADOR DE FERRO VELHO, do bósnio Danis Tanovic (premiado em Berlim);

HELI, do mexicano Amat Escalante (premiado em Cannes) e

JISEUL (premiado em Sundance, na França e na Coreia).

As retrospectivas se voltam, por sua vez, para dois diretores totalmente diferentes.

A primfengmingfosseeira retrospectiva é a do chinês Wang Bing, cuja produção está voltada para documentários. Serão exibidos A OESTE DOS TRILHOS e PETRÓLEO BRUTO, cada um com mais de nove horas de duração. Entre outros títulos, há filmes premiados em importantes festivais, como TRÊS IRMÃS, FENGMING: MEMÓRIAS DE UMA CHINESA e A VALA. Este último é um dos únicos já exibidos no Brasil, em apenas duas sessões de outro festival do Cinesesc, há três anos. É um documentário sobre os indescritíveis horrores da China de Mao: os campos de trabalhos forçados, a fome, as pessoas comendo insetos, grama, sopa de ratos… As consequências foram epidemias. Mesmo assim (quem sabe onde o homem pode chegar quando submetido à experiência limite da fome?) as pessoas disputavam os ratos. Mas não havia ratos para todos. E muitos saciavam a fome alimentando-se do vômito dos que comeram os ratos! Insistamos: isso não é ficção. É um retrato da China comunista de Mao Tsé-tung!

 

A segunda retrospectiva homenageia o polêmico diretor francês Jean-Claude Brisseau. Enfant terrible do cinema, Brisseau, que estreou impulsionado por Eric Rohmer, um dos ícones da Nouvelle Vague, tem como marca maior de suas produções a ambição de filmar o desejo feminino. Concentrando todos os passos da produção de cada filme em suas mãos, ele escreve os roteiros, escolhe e prepara os atores, dirige e faz a montagem. Assim, realiza “ensaios eróticos” para recrutar atrizes, solicitando-lhes para se acariciarem diante das câmeras. Tal procedimento lhe valeu recentemente uma condenação na Justiça francesa a um ano de prisão por assédio sexual, com sursis.

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Grande leitor de filosofia e psicanálise, Brisseau explicou-se e disparou contra as repressões da sociedade numa entrevista concedida ao jornal O GLOBO, a 18 de setembro de 2013:

“(…) Aí entramos na moral sexual civilizada, onde se esconde um grande número de coisas. Esse tema sempre me interessou, e remetia às pequenas proibições. Interessava-me tratar o sexo de forma direta, o que não é fácil, pois ninguém havia verdadeiramente feito isso. Fazia-se dissimulando, não mostrando nada. Mas mostrar o desejo, sem entrar no filme pornô – que, do ponto de vista cinematográfico, não é nada, é vazio – não.

A interdição deflagra a vontade de transgredir o interdito. A solução cristã é a de superar isso pelo amor. Lembro que o Papa Bento XVI disse que o gozo para uma mulher era legítimo no seio do casamento, mas não antes. (…) Eu me lancei timidamente nisso, que é algo extremamente difícil de filmar. (…) Eu diria que hoje estamos num tipo de sociedade esquizofrênica, em que de um lado o sexo está por todo o lado, e, de outro, é negado sem parar.”

Para quem não conhece os filmes de Brisseau, essas declarações são um desafio para conferir como o diretor as trabalha em imagens e diálogos. Embora possam parecer antípodas, as propostas de Bing e Brisseau talvez guardem mais afinidades do que um apressado juízo possa reconhecer. A repressão do desejo sempre esteve na origem da repressão da liberdade. E repressão era o mandamento número um do Livro Vermelho do líder chinês.

Como é fácil perceber, esse tipo de festival dispara para todos os lados e possibilita reflexões nada convencionais.

E fugir das convenções que encolhem a razão e a sensibilidade é o eterno propósito da Arte.

ONDE: CINESC, Rua Augusta, 2075

QUANDO: de 23.09 a 03.10.2013

QUANTO: todas as sessões são gratuitas

Para saber a programação completa, entre no site do Indie Festival ou retire o livro-catálogo no próprio cinema.

PROFESSOR CÉSAR VERONSE (CPV)

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