Mais que Mel: documentário sobre as abelhas


MAIS QUE MEL (MORE THAN HONEY, 91min)

Este documentário, do veterano Markus Imhoof, foi o maior destaque da mostra. Einstein afirmou certa vez que se as abelhas desaparecessem, a humanidade conseguiria sobreviver por no máximo uns quatro anos. E a constatação atual é que nos últimos três anos as abelhas estão morrendo em grande quantidade no mundo inteiro. Disposto a encontrar explicações para o problema, o diretor partiu para uma ampla investigação na Europa, nos Estados Unidos, no Brasil, na China e na Austrália.

Provenientes da Europa, as abelhas foram introduzidas no continente americano e na Austrália pelos colonizadores. Fiéis a um único tipo de flor, elas sobrevivem por apenas quatro semanas e cada abelha produz o equivalente a uma colher de chá de mel. Para produzir uma quantidade significativa (algo em torno de 2kg), uma abelha precisaria voar o equivalente a quatro voltas em torno da Terra. Suas sociedades têm uma organização extremamente complexa. Embora levando uma vida breve, cada abelha exerce uma função determinada dentro da colmeia, de acordo com sua “idade”. Nenhuma dá ordens às outras, mas todas sabem o que devem fazer.

Nessa sociedade, tempo é mel e tudo é orientado, para usarmos um termo do jargão da economia, pela lógica da produtividade. Por isso, os zangões que não conseguem acasalar-se durante a primavera são mortos pelas operárias no outono. Se permanecessem vivos, seriam comensais inúteis no inverno. Para produzir mais, as abelhas se valem de complexíssimos censores que lhes permite desenvolver uma dança capaz de indicar para as outras a menor distância e o melhor caminho entre a colmeia e as flores de que devem se servir.

Diante do problema do elevado número de mortes de abelhas, muitos produtores criam larvas de abelhas rainhas. Larvas de abelhas comuns são retiradas das colmeias, isoladas e alimentadas com uma dieta especial. Depois são inseridas outra vez na colmeia. Como para cada colmeia só é necessário uma rainha, a primeira a nascer mataria as outras. Então, poucas horas antes de se romperem, os casulos são retirados da colmeia (onde ficará apenas um) e transplantados para minúsculas caixinhas junto com outras abelhas. E aí são vendidos. Uma apicultora suíça exporta rainhas para 58 países. Sessenta euros cada caixinha.

Nos Estados Unidos, há produtores que viajam pelo país inteiro com caminhões furgões carregando suas abelhas. Um grande produtor da Califórnia, por exemplo, utiliza seus insetos para a polinização das amêndoas (a Califórnia é responsável por 80% da produção mundial), depois viaja com eles para Washington, depois para Dakota e outra vez para a Costa Oeste. Desse modo, as mesmas abelhas polinizam várias culturas em lugares diferentes, acompanhando diferentes florações.

O documentário também discute as aventuras das chamadas abelhas africanas, na verdade resultantes de um cruzamento entre abelhas europeias e africanas. De origem europeia, foram introduzidas no Brasil. Um acidente ocorrido há algumas décadas permitiu a fuga de 26 colmeias dessas abelhas do campus da USP. Elas cruzaram toda a América do Sul e Central e chegaram aos Estados Unidos. Produzem mel mas causam vítimas. De 2004 para cá, quatorze pessoas foram vitimadas por elas só nos Estados Unidos.

E talvez as abelhas africanas, por pertencerem a uma raça mais selvagem, sejam a salvação das abelhas e, quiçá, da própria humanidade. Porque o certo é que as abelhas estão morrendo em grande quantidade. Na América do Norte, na Europa e na China elas já não mais sobrevivem sem medicamentos. São alimentadas com uma mistura de água, açúcar e antibióticos. A causa principal dessas mortes é o fato de elas terem sido domesticadas. No processo da passagem da vida selvagem para a vida domesticada, perderam a resistência. Algo como tentar transformar um lobo num poodle. Um dos seus maiores inimigos é o ácaro que, sugando-lhes o sangue, causam-lhes feridas e, por fim, as levam à morte.

Outro capítulo negro da história das abelhas foi o famoso extermínio dos pardais decretado por Mao Tse-Tung na China. Mao decretou o extermínio desses pássaros porque eles “roubavam os grãos do povo”. Os pardais foram eliminados. Mas o líder comunista (e todos os seus assistentes) esqueceram-se de que eles comiam insetos. Bilhões de insetos atingiram as plantações. Ordenou-se, então, a aplicação de pesticidas para eliminar os insetos. Entre os insetos exterminados estavam as abelhas!

A situação hoje se complica imensamente porque a diminuição das abelhas se verifica em todos os continentes. Ácaros, domesticação, pesticidas e estresse são fatores que as atacam e talvez as levem à extinção. Enquanto isso, apicultores de todo o mundo endossam o mesmo discurso: o processo de polinização das plantas realizado pelas abelhas é muito mais eficiente do que o realizado pelo homem. Esperemos que a Monsanto não decida patentear a abelha transgênica!

O documentário, para além das informações de natureza científica, possui um enorme valor cinematográfico. Filmado com recursos tecnológicos de grande precisão, encerra uma qualidade estética admirável.

Para quem não conhece, fica a sugestão para ouvir a doce canção MEL, composta por Caetano Veloso e Wally Salomão, e gravada no disco homônimo de Maria Bethânia, em 1979:

Mel

Ó abelha rainha

Faz de mim um instrumento

De teu prazer, sim, e de tua glória

Pois se é noite de completa escuridão

Provo do favo de teu mel

Cavo a direita claridade do céu

E agarro o sol com a mão

É meio dia, é meia noite, é toda hora…

QUANDO: o documentário está em cartaz em diversos horários na Reserva Cultural (Av. Paulista, 900 – Cerqueira César)

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