IX Semana Venezia Cinema no Brasil


Acontece, entre os dias 7 e 13.11.2013, em São Paulo, a apresentação dos filmes italianos exibidos na 70ª Mostra Internacional de Artes Cinematográfica de Veneza em 2013. São seis títulos, entre os quais destaca-se o ótimo documentário:

BERTOLUCCI POR BERTOLUCCI (BERTOLUCCI ON BERTOLUCCI, Itália, 2013, 105 min., de Luca Guadagnino e Walter Fasano)

Contra o diretor que senta o homenageado no sofá e o entrevista sem parar. Contra os depoimentos de amigos, familiares e cônjuges entoando loas. Contra a fórmula álbum de fotografias. Na contramão da biografia “Once upon a time…” Desconstruindo as fórmulas prontas, banais e tediosas que tão frequentemente queimam artistas geniais, BERTOLUCCI POR BERTOLUCCI é um filme enxuto, original, inteligente e apaixonante.

Os diretores Luca Guadagnino e Walter Fasano partiram de um farto material de entrevistas concedidas por Bertolucci ao longo de meio século. Optaram por não aparecer e não entrevistar Bertolucci. Deram voz à voz de Bertolucci. A escolha de uma forma enxuta foi acertada. O trabalho dos diretores foi determinar os cortes exatos e realizar uma excepcional montagem. E o despojamento acaba construindo um documentário maior.

A montagem também é enriquecida pela diversidade de línguas. Expressando-se com perfeição e elegância em italiano, inglês e francês, Bertolucci enriquece, indiretamente (os trechos foram colhidos de muitas entrevistas) a montagem do filme. Sua expressão poliglota parece sugerir técnicas de simultaneísmo, cortes, novos planos, repetição de tomadas, diálogos com o cinema, bem como a construção da sua própria poética.

Tudo se cruza em jogos especulares em que o Bertolucci dos anos 60, 70, 80 e 90 conversa com o Bertolucci do século XXI. As perguntas são, às vezes, propositalmente as mesmas, mas as respostas podem ser diferentes e até contraditórias. O fragmento de uma entrevista em italiano é respondida por outra em francês, que, por sua vez, pode ser rebatida pelo excerto de outra em inglês, e assim por diante, ao sabor das combinatórias. Discurso e decurso do tempo. Criação, inventividade, ideias e arte de um homem que, como todo grande artista, se reiventa incansavelmente.

Não se pense, no entanto, que o filme é um mero exercício metalinguístico. Isso seria incoerente com as ideias de Bertolucci: “sou um pequeno diretor indignado que se infiltrou no grande cinema para trazer a desordem”, diz ele logo na abertura do filme. Em outro momento, evocando Pasolini, afirma: “quando se faz um filme se faz política. Os filmes falam da vida. E a vida é política”.

Posicionamentos de um homem que viveu a contestação dos anos 60, quando o mundo se mobilizava por grandes causas, quando as pessoas não chancelavam o status quo. “Hoje tudo foi cancelado. O mundo tornou-se um deserto povoado apenas pelo consumo. A criação desse vazio se justifica, talvez, por ser mais fácil vender o deserto”, arremata.

O filme deve ser visto por quem admira o cinema de Bertolucci, por quem se interessa pela linguagem do cinema e por quem não aceita fórmulas prontas. É uma pena que nas plateias desse tipo de filme quase nunca encontremos os “documentaristas” brasileiros. E aí, como todos conhecemos, excetuando-se os três ou quatro nomes de peso do documentário nacional, os nossos “documentaristas” inscrevem seus projetos nos programas de fomento à cultura, conseguem as verbas e se limitam a entrevistar os artistas homenageados, intercalando a conversa com álbuns de família e imagens de arquivo. Tudo no estilo dos piores programas de TV!

A sessão de BERTOLUCCI POR BERTOLUCCI acontecerá na terça-feira, dia 12.11.13.

ONDE e QUANDO: Todos os títulos podem ser vistos no Cine Livraria Cultura, às 19h00

QUANTO: a entrada é franca.

Confira a programação.

PROFESSOR CÉSAR VERONESE (CPV)

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