Mostra Rithy Panh: O cinema do Camboja


Entre os dias 7 e 17.11.13, o Centro Cultural Banco do Brasil realiza a primeira retrospectiva completa dos filmes (ficção e documentários) de Rithy Panh, o mais importante diretor de cinema do Camboja. A cinematografia desse diretor se confunde com a história recente do Camboja.

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No final dos anos 1960, no auge da Guerra Fria, os Estados Unidos se lançaram numa empreitada feroz para impedir que o Vietnã do Sul se tornasse comunista. Muitos guerrilheiros comunistas refugiaram-se no vizinho Camboja e os civis cambojanos dividiram-se entre pró e anti-americanos. O conflito desencadeou uma guerra civil. É no contexto dessas duas guerras que se formou o sanguinário regime do Khmer Vermelho. E a simultaneidade dos conflitos ofuscou, a princípio, a barbárie do novo regime coumunista.

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Em 12 de abril de 1975, o Khmer Vermelho marchou em direção à capital, Phnom Penh. Lon Nol, o chefe de Estado apoiado pelos Estados Unidos, fugiu para o Havaí. Uma semana depois, o príncipe Sirik Matak, o primeiro-ministro deposto há pouco tempo por criticar o corrupto governo do Camboja, e vários altos funcionários do governo, refugiaram-se na embaixada da França, juntamente com cerca de mil civis. Os líderes do Khmer Vermelho obrigaram as 1300 pessoas (entre autoridades e civis) que estavam na embaixada francesa a deixarem o local, ameaçando privá-los de água e comida. Com lágrimas nos olhos, o vice-cônsul francês Jean Dyrac viu-se obrigado a devolver os refugiados. As autoridades cambojanas foram embarcadas num caminhão e, em seguida, executadas, inclusive o príncipe Sirik Matak.

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Phnom Penh, sob a mira dos soldados do Khmer Vermelho, foi esvaziada. Todos os cidadãos foram obrigados a deixar a cidade. Doentes abandonaram os hospitais carregando o soro, outros foram arrastados nas macas, outros foram abandonados pelo caminho. Levando ao extremo a ditadura comunista da criação do novo homem, os khmers aboliram as cidades, a propriedade, a moeda, a religião, o direito, a Constituição, a arte, os artistas, a classe política, as elites econômicas… Tudo foi substituído por uma única instituição, a Angkar (a Organização, isto é, o novo regime autoritário, autonomeado Kampuchea Democrático), uma organização brutal e avessa a qualquer diálogo com qualquer autoridade, nacional ou internacional.  Aliás, uma das primeiras medidas do novo regime foi executar todos os cidadãos que usavam óculos. O argumento era que uma pessoa que portasse óculos poderia ser, teoricamente, um cidadão mais esclarecido e, por isso, um potencial opositor do regime.

Posteriormente foram criadas 196 prisões no país. Nelas foram encarcerados, torturados e exterminados quase todos os prisioneiros, inclusive milhares de bebês. Durante os quatro anos do regime (1975-1979) foram executados cerca de 2 milhões de cambojanos, aproximadamente um quarto da população. A palavra de ordem era destruição. Mais forte que matar. Matar significa colocar fim. Destruir significa algo mais: eliminar qualquer vestígio, como, por exemplo, os restos mortais das vítimas, as quais eram capturadas (se era um pai ou uma mãe, os filhos, mesmo crianças e bebês,  eram automaticamente considerados opositores do regime), torturadas e mortas. Os métodos se pautavam pela economia de munição. As crianças tinham suas cabeças esmagadas por meio de sucessivos arremessos contra árvores. Os adultos eram golpeados com uma barra de ferro na nuca e, ainda vivos, degolados.

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 Rithy Panh perdeu toda sua família nas mãos dos carrascos do Khmer. Quando o regime caiu, ele foi parar num campo de  refugiados na Tailândia. Posteriormente, conseguiu chegar à França. E lá construiu sua carreira de diretor de cinema, cuja coroação se deu em maio deste ano, ao receber o Prêmio Um Certo Olhar, no Festival de Cannes, pelo filme A IMAGEM QUE FALTA.

Sua vida foi e continua a ser dedicada à história do Camboja. Algo semelhante ao que realiza há 40 anos o diretor Patricio Guzmán sobre a história recente do Chile. “Sem o genocídio, sem as guerras”, diz Panh, “eu não teria me tornado cineasta. Mas a vida depois de um genocídio é assustadora. É impossível viver no esquecimento. Corre-se o risco de perder a alma.

Explicando o processo de composição de seus filmes, sobretudo dos documentários, Panh afirma: “Não faço uma memória ilustrada. Para mim, não é uma questão de fabricar miragens. O cinema documental é a escritura que eu escolhi para dar testemunho. Não concebo meus documentários como obras artísticas sobre essa coisa horrível que é o genocídio. Sinto-me como um agrimensor de memórias e não como um criador de imagens. A tarefa do cineasta é saber encontrar a medida justa, a distância adequada: nem exploração política, nem complacência masoquista, nem sacralização. A memória deve ser um ponto de referência. Deve continuar sendo humana. O que busco é a compreensão da natureza desse crime e não o culto da memória. Para evitar a repetição através da recusa da cegueira e da ignorância.”

Entre os títulos imperdíveis dessa mostra, destacam-se dois documentários:

S-21 A MÁQUINA DE MORTE DO KHMER VERMELHO (S-21, LA MACHINE DE MORT KHMER ROUGE) e

DUCH, O MESTRE DAS FORJAS DO INFERNO (DUCH, LE MAÎTRE DES FORGES DE L”ENFER).

Os filmes são complementares.

S-21, também conhecida como Tuol Sleng, localizada em Phnom Penh, foi a mais famosa prisão do país. Não pelos números. Existiram prisões onde foram executados cerca de 150 mil prisioneiros. Na S-21 foram mortas cerca de 20 mil pessoas. Mas lá estavam  vários dos mais importantes dirigentes do país antes da instalação do regime comunista do Kampuchea Democrático.

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O diretor acompanhou, durante aproximadamente três anos, os raros sobreviventes dessa prisão, bem como alguns dos seus ex-funcionários. E encontrou uma solução magistral para evocar essa tétrica realidade. Os ex-funcionários  realizaram encenações estilizadas, nas quais um banco, por exemplo, pode substituir a vítima que já não existe mais. O filme ganha força, sobretudo, pelo confronto entre os ex-funcionários e as vítimas sobreviventes, do qual emerge uma profunda análise e reflexão sobre a mecânica do totalitarismo. A prisão S-21 foi transformada num museu hoje dedicado à memória do genocídio.

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DUCH, O MESTRE DAS FORJAS DO INFERNO é um perturbador depoimento de Kaing Guek Eav, mais conhecido como Duch. Na década de 1960, ele fora um professor de matemática, que se via como um intelectual e defendia a educação como o caminho para as reformas de que o Camboja necessitava. Na década de 1970, tornou-se Secretário do Partido Kampuchea Democrático. Dirigiu durante quatro anos a prisão M13, um dos mais importantes centros de treinamento de torturadores.

 Duch também assinou a sentença de morte de 13.280 pessoas e assistiu às suas execuções. Levado a julgamento em 2009 por um tribunal internacional, tornou-se peça chave para o entendimento de como funcionava a máquina de morte do Khmer Vermelho. Condenado a 35 anos de prisão, até o momento foi o único criminoso do regime a ser julgado. O documentário acompanha uma série de depoimentos de Duch. A frieza e o tom monocórdio, intercalado por breves risadas, com que relata seus atos são estarrecedores: “A ideologia é criminosa. Perversidade ou crueldade não são criminosas. Executamos a ideologia até o fim”. Explicando as intenções do regime, observa: “Prendíamos, executávamos, exterminávamos os restos mortais e não informávamos jamais à família da vítima onde esta fora executada. Desprezávamos a civilização, a cultura, as tradições, os rituais da morte. Queríamos apagar o homem velho e construir o homem novo”.

Indagado sobre sua responsabilidade e possíveis sentimentos de culpa pelos seus atos, Duch se justifica: “Oferecemos a Deus nossos corações feridos e nosso remorso. Os homens julgarão meus ossos e minha carne”. (!)

Outros filmes recomendados são:

O SONO DE OURO (LE SOMMEIL D’OR). Uma investigação sobre a herança cinematográfica perdida do Camboja. Do início dos anos 60 até a chegada do Khmer Vermelho, o país produziu mais ou menos 400 filmes. A política do regime destruiu praticamente todos. Da maioria dos títulos só restam as trilhas sonoras, que continuam a ser regravadas até hoje, o que configura uma maneira de preservar a memória das obras extintas. O documentário é conduzido pelos diretores Lu Bun Yim e Ly You Sreag e pela ex-atriz Dy Saveth. Primeira estrela do cinema cambojano, hoje ela ganha a vida como professora de dança.

 A TERRA DAS ALMAS ERRANTES (LA TERRE DES ÂMES ERRANTES). No início dos anos 2000, foram instaladas por todo o Camboja as primeiras redes de fibra óptica, conectando-o com a Ásia e a Europa. O documentário acompanha o dia a dia dos trabalhadores em condições precárias. Descalços, extenuados sob o Sol, eles vão cavando as trincheiras para enterrar as fiações. Entre uma escavação e outra, vão surgindo os restos mortais em covas clandestinas  da época do regime. Há a dor do passado, dos parentes, dos conhecidos. E há o perigo rondando por toda parte: não são só ossadas que surgem; aparecem também centenas de minas terrestres ainda ativas. Entre a memória trágica, o risco de morte e a precariedade do trabalho, eles prosseguem. E no final descobrimos que a multinacional que os contratou dá um calote em centenas de trabalhadores. O filme é um  poderoso retrato das contradições da pós-modernidade. Os trabalhadores, que estendem os fios para a comunicação mais avançada, não têm, frequentemente, como um deles revela, dinheiro para comprar o óleo da única lâmpada que ilumina sua casa.
camboja10 OS ARTISTAS DO TEATRO QUEIMADO (LES ARTISTES DU THÉÂTRE BRÛLLÉ). O Khmer Vermelho tentou apagar as instituições, a religião e a arte do Camboja. Hoje o país quase não possui teatros e casas de espetáculos. Este documentário mostra a história do teatro Suramet, em Phnom Penh. Construído em 1966, foi utilizado como sede para a propaganda do regime do KV. Recuperado posteriormente por um grupo de artistas, foi devastado por um incêndio em 1994. Em suas ruínas, hoje vive um grupo de atores que realizam apresentações em condições precárias para turistas. Não só encenam como também vivem nesse espaço decrépito. Ou melhor, sobrevivem, pois para comer caçam os morcegos que infestam o teatro e os preparam numa fritura com pimenta.
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BOPHANA, UMA TRAGÉDIA CAMBOJANA (BOPHANA, UNE TRAGÉDIE CAMBODGIENNE). O documentário acompanha a história de um casal de intelectuais aprisionado e executado na S-21.

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A IMAGEM QUE FALTA (L’IMAGE MANQUANTE). Este é o filme premiado em Cannes em 2013. Realizado a partir do livro L’ÉLIMINATION (sem tradução para o português), de Christophe Bataille, o filme evoca, em primeira pessoa, o genocídio do Khmer Vermelho. A memória pessoal (perda dos pais, irmãos e parentes) funde-se com a memória do país.

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Cena do documentário A Imagem que Falta, que recebeu o Un Certain Regard no Festival de Cannes 2013:

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Esses filmes podem ser vistos, como variações sobre um mesmo tema. São, portanto, complementares. Documentários, ficções e filmes produzidos por Rithy Panh compõem um dos painéis mais importantes da história recente do Camboja.

DEBATE: além dos filmes, haverá um debate, na quinta-feira dia 14.11, às 19h00, com a participação de Fábio Andrade e Mateus Araújo.

LIVROS: A bibliografia sobre o assunto é vasta em inglês e francês, mas bastante restrita em português. Entre outros textos sobre o regime do Khmer Vermelho, recomendo a análise brilhante de Samantha Power no livro de referência sobre a política externa americana: GENOCÍDIO: A RETÓRICA AMERICANA EM QUESTÃO, capítulo CAMBOJA: ‘GIGANTE IMPOTENTE’ (pp. 114-188).
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O canhoto de três ingressos pode ser trocado por um excelente livro-catálogo (não comercializado) com textos até então inéditos em português assinados pelo próprio Rithy Panh, bem como importantes críticos europeus.

ONDE: Centro Cultural Banco do Brasil. Rua Álvares Penteado, 112

QUANTO: 2,00 cada ingresso

QUANDO: até 17.11.13

Essa mostra é mais uma oportunidade para conhecermos o lado B da tão propalada criação do “homem novo” pelos famigerados líderes comunistas.

PROFESSOR CÉSAR VERONESE (CPV)

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