Mostra de Cinema do Oriente Médio 2013


De 28 de novembro a 05 de dezembro o Cinesesc exibirá uma mostra de filmes do Oriente Médio. Questões políticas e religiosas dos países árabes e islâmicos dominam a programação.

Entre outros títulos, destacam-se OS GUARDIÕES, perturbador documentário sobre o serviço secreto de Israel (exibido no  É TUDO VERDADE 2013), WAJMA, de Barmak Akram, filme de ficção sobre a realidade do Afeganistão e YEMA, de Djamila Sahraoul, que problematiza o embate entre os fundamentalistas e o governo da Argélia. Este filme recebeu o Prêmio FIPRESCI de melhor direção no Festival de Dubai.

Há também a produção iraniana MANUSCRITOS QUE NÃO QUEIMAM, exibido em Cannes este ano, mas o diretor Mohammad Rasoulof não pôde comparecer ao festival por ter sido acusado de expressar “sentimentos anti-governo” em seus filmes.

OS GUARDIÕES, de Dror Moreh (Israel, França, Alemanha, Bélgica)

Olho no olho e frieza. Esse é o tom das entrevistas concedidas por seis ex-diretores do Shin Bat, o serviço secreto de Israel. Hoje na meia-idade, todos eles participaram de ações clandestinas envolvendo tortura, execuções e bombardeios.”Uma operação limpa”, afirma um dos ex-agentes, é o que mais se deseja sempre. As imagens acompanham uma vã dentro da qual, segundo informações, viajam dois terroristas prestes a realizar um atentado. A vã é enquadrada no centro do visor e, em três segundos, surge uma bola de fogo e fumaça. “É uma decisão difícil, mas impedimos um atentado que poderia vitimar dezenas de vidas”, conclui o entrevistado.
Nem sempre, porém, as ações são limpas. Como vemos diariamente nos noticiários, não raro civis são sacrificados junto com os terroristas. Mas, nesse tipo de missão, os fins justificam os meios. Escolhe-se o mal menor.O treinamento dos agentes, para além de toda a logística prática, compreende o aprendizado de árabe. Estudam, em profundidade, língua e literatura árabes para aprender a decifrar as entrelinhas das mensagens secretas.

Mais surpreendente, no entanto, é inteirar-se do processo de recrutamento dos cidadãos comuns que são obrigados a se tornar agentes auxiliares. O Serviço Secreto delimita todos os povoados. Em seguida, mapeia-os. Depois convoca os cidadãos ao quartel para darem informações sobre a vida no povoado em que vivem. Numa etapa mais avançada, mapeiam todas as casas e pessoas. Então decidem quem será contratado: em geral, as pessoas que têm muitas relações no lugar e capacidade de se infiltrar. Os escolhidos não podem se recusar a se tornar agentes. “É uma tarefa bastante difícil”, diz um dos entrevistados, “pois precisamos transformar o escolhido num delator, ensiná-lo a trair seus vizinhos, seus amigos e, se for preciso, até sua família”.
Essa situação torna-se ainda mais complexa e difícil quando se considera (como mostra o documentário A LEI POR ESSAS BANDAS, de Ra’Anan Alexandrowicz) que as leis mudam constantemente em lugares como a Faixa de Gaza e a Cisjordânia. A lei é a autoridade do Exército, a lei oral, que o cidadão é obrigado a acatar antes mesmo de conhecê-la por escrito.
A logística, o preparo e a experiência não são, no entanto, nenhuma garantia da eficiência de uma ação, seja num plano menor ou no âmbito da segurança da nação, como aconteceu, por exemplo, quando foi assassinado o primeiro-ministro Yitzhak Rabin, nos anos 90. Esse crime, afirma um dos ex-agentes, expõe as rachaduras internas de Israel. O assassino era um jovem inexperiente e que mal sabia manipular uma arma comum.
Os atentados de ônibus, frequentemente de grandes proporções, geram um sentimento de frustração, confessa outro ex-agente. Por outro lado, a possibilidade de intervir para impedir uma tragédia justifica, na visão deles, a tortura. Privação do sono, posições humilhantes e desconfortáveis, simulações de afogamento são algumas das técnicas empregadas pelo Shin Bat. O objetivo, em última instância, é atingir a base da célula terrorista e não o último terrorista.
Entre as memórias e os acontecimentos do presente, os seis ex-agentes veem um futuro sombrio para Israel. Um deles pontua: “a transformação de quase todos os jovens em soldados está operando uma transformação no caráter deles. Algo similiar ao que os alemães fizeram com os poloneses, os belgas, os tchecos e os holandeses. Não quero dizer que os nossos jovens estão se transformando em nazistas (isso diz respeito à realidade da Guerra). Quero dizer que estamos introjetando um espírito de militarismo que transforma nossos jovens em autômatos, meros executores de ordens, como os kaputs”.
OS GUARDIÕES, finalista na disputa ao Oscar 2013, é um documentário que, independente de nosso posicionamento em relação às políticas de Israel e da Palestina, merece ser visto.
QUANDO: A sessão de OS GUARDIÕES acontecerá nesta sexta-feira (29.11.13) às 19h00.

ONDE: Cinesesc, Rua Augusta, 2075 – Jardins

QUANTO: 2,00 (comerciários), 5,00 (meia entrada) e 10,00 (inteira)

Mais uma vez o Cinesesc torna acessível ao público paulistano um conjunto de títulos de qualidade e por isso mesmo banido do circuito comercial dos multiplex.

PROFESSOR CÉSAR VERONESE (CPV)

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