A memória de um palco


O descaso pela conservação do patrimônio arquitetônico, todos sabemos, é um dos muitos constrangedores clichês que caracterizam o Brasil. Essa negligência se evidencia não apenas no abandono dos prédios, monumentos e outras obras de valor histórico, arquitetônico e/ou artístico, mas também, e sobretudo, no misto de cafonice e infantilização em que a “arquitetura” brasileira pós-moderna se transformou.

Preferências à parte, essa observação não é uma pontificação. Basta olhar o espaço que o Brasil tem nas bienais e outras mostras internacionais de arquitetura. O país que foi referência mundial de arquitetura modernista nos anos 30, 40 e 50, atualmente comparece no exterior com projetos de casas populares (na verdade outra roupagem para as favelas) ou qualquer espalhafato no estilo pós-tudo-não-significando-nada.

Assim, a paisagem urbana do Brasil foi se transformando, para usarmos a expressão de João Figueiras Lima, em imensos Franksteins. Destruição de imóveis antigos, caixotes construídos à pá de cimento e blocos, mastodôndicas torres de vidros espelhados, e os cafoníssimos edifícios de luxo em estilo pseudo greco-romano, com telhado de ardósia verde para a neve escorrer sob os 35 graus dos trópicos! Em meio a isso tudo, favelas, viadutos e os 76 (se enquanto escrevo não começou a ser erguido mais um) shoppings centers de São Paulo.

Sem beleza natural, São Paulo se torna totalmente refém da arquitetura. O Memorial da América Latina, na zona oeste da cidade, é um dos raros oásis onde os olhos do paulistano podem pousar numa nota de beleza plástica. Na última sexta-feira, o prédio principal do complexo, o auditório Simon Bolívar, foi parcialmente destruído por um incêndio. E críticas burras mais uma vez choveram sobre o projeto de Oscar Niemeyer.

A mais idiota de todas, propagada pelos jornais e internet, foi que a fumaça não tinha como sair pela parte superior, pois o prédio é constituído por imensas dobraduras de concreto, sem espaços abertos no alto. Pergunta básica: qual teatro é projetado com prioridade para o fogo sair pela parte superior? O Cultura Artística, sem um único centímetro de concreto na parte superior, foi consumido inteiramente pelas chamas há alguns anos em menos de meia hora!

O certo é que quase todo o interior do auditório foi destruído. A tapeçaria de 70 metros de comprimento desenhada por Tomie Ohtake desapareceu. A artista, que completou cem anos há poucas semanas, já anunciou que irá acompanhar a execução de uma nova peça, idêntica à anterior.

A outra grande obra decorativa do espaço é a Pomba assinada por Ceschiatti, e instalada na curva da rampa principal de acesso ao lado A do auditório. Ninguém informou ainda o que aconteceu ao certo com ela. Se, por desgraça, também foi consumida pelo fogo, é possível moldar outra peça.

Paredes, vidros, poltronas, escadarias, rampas, tudo pode ser reconstruído.

O palco também pode ser reconstruído. Será, provavelmente, um palco feito com os mesmos materiais, nas mesmas dimensões e as plateias terão a mesma visibilidade. Mas havia uma aura no palco consumido pelo incêndio. Uma aura, ou melhor, muitas auras, de quem ali pisou. Assisti a muitos espetáculos no Simon Bolívar. A começar pelo show de inauguração, há 24 anos, com Caetano Veloso.

Foi num sábado, os ingressos eram gratuitos, e só seriam distribuídos às 9 horas da manhã do dia do show. Era preciso aguardar na fila, que começou a se formar às 15 horas do dia anterior. E choveu a cântaros a noite inteira. A avenida ficou alagada. Mas as 1600 pessoas que permaneceram na Avenida Mário de Andrade do lado de fora da cerca do Memorial, resistiram, molhadas dos pés à cabeça, até a “manhã raiar”, num espírito bem anos 60.

A chuva, o desconforto, a espera, tudo foi compensado pela docilidade do violão de Caetano nos embalando com os versos de “Terra”, que agora não era mais distante, e nós, as plateias dos lados A e B do palco, éramos os errantes navegantes dentro da estrela azulada do facho de luz que caía sobre o cantor. Todos dentro daquela nova nave, feita de vidro, concreto e poesia pela genialidade de Niemeyer.

Depois foram centenas de shows, peças e filmes a que assisti nesse espaço extraordinário ao longo de mais de duas décadas. Ney Matogrosso e Rafael Rabello no antológico À FLOR DA PELE, Toquinho, Ângela Maria, uma montagem inesquecível de “Vau da Sarapalha”, centenas de maravilhas do ANIMA MUNDI (num dos quais subiu ao palco para ser homenageado Michel Ocelot, que abriu uma caixinha e exibiu para o público – sim, para 800 pessoas – seus minúsculos personagens feitos em renda de papel para sua primeira animação).

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Foi também no Simon Bolívar, transformado em duas telas de cinema para acolher o Festival de Cinema Latino-Americano (já em sua oitava edição), que vi alguns dos filmes da minha vida e descobri em profundidade maior essa Latino América. Ali vi, pela primeira vez, ARAYA (o magnífico documentário venezuelano de Margot Benacerraf sobre os pescadores), YAWAR MALKU (a obra-prima do diretor boliviano Jorge Sanjinés) e raridades como A FLAUTA DE BARTOLO, compilação de cantigas de ninar mexicanas do século XIX, recolhidas numa animação de pura poesia por Paul Leduc.

Cena do filme Araya

Mas a imagem das imagens que quero registrar é outra. E é por isso que escrevo esta crônica em primeira pessoa. Para partilhar esse momento de vida. Foi um show, um dos primeiros que aconteceram no Memorial. As luzes se apagaram. Quem estava na plateia A mirou o lado esquerdo do palco, onde estavam os instrumentos e o microfone. Alguns segundos de escuridão. E então ouviu-se a primeira batida do tambor. Uma luz azul clara acendeu-se, na extremidade direita do palco, e caiu sobre ela. Outra batida, sincopada, se sucedeu. E a plateia foi acompanhando-a, enquanto ela batia o seu tambor, até encontrar o microfone.

Sí, era ela. Com um xale azul y bianco. La Negra. Mercedes Sosa. A voz e as veias abertas da América Latina. “Cuando tienga la tierra”, “Durme negrito”, “Alfonsina y el mar”, con cinco sirenitas, bajo la lâmpara…

Mercedes_Sosa

Será reconstruído outro palco. Mas não será aquele que La Negra e Rafael Rabello, que não estão mais aqui, pisaram. Então fica a memória do primeiro palco. Como ficaram as obras de Niemeyer. Marguerite Yourcenar escreve, no CADERNO DE NOTAS DAS MEMÓRIAS DE ADRIANO, que a Gema Molborough (à época da escritura do livro, em 1952, nas mãos do colecionador italiano Giorgio Sangiorgi, e hoje no Museu de Belas-Artes de Boston) é “o único objeto ainda hoje presente na face da Terra sobre o qual se pode presumir com relativa certeza ter estado muitas vezes nas mãos de Adriano”.

Assim é a história dos homens. Os impérios passam, os objetos passam, o tempo, como dizia o Padre Vieira, devora até mesmo as colunas de mármore. Mas fica a memória. Dos artistas, das pessoas comuns, dos lugares e até mesmo dos lugares reconstruídos.

E o Memorial da América Latina, especialmente o auditório Simon Bolívar, é um dos espaços públicos mais interessantes da cidade de São Paulo. Não poucos são os críticos do projeto de Niemeyer, alegando sempre o excesso de concreto. No que diz respeito à parte externa, essa crítica pode ter alguma pertinência. Quanto aos espaços internos, não tem validade. Eles se ajustam muito bem às atividades a que se destinam. Sobretudo o Simon Bolívar. Não há quiosques, mesinhas e outras instalações destinadas a comilanças, e a ausência dessas instalações costuma ser motivo de reclamação do público. Mas há o restaurante instalado no prédio do Museu, próximo ao auditório. Como deve ser: separado do espaço dos espetáculos, pois espetáculo é espetáculo e comilança é comilança.

Outro trunfo de originalidade do projeto é o posicionamento da escultura de Bolívar, instalada na frente da entrada principal do prédio.

Ao contrário do que se observa à frente de monumentos e espaços públicos no mundo inteiro, Niemeyer concebeu o lugar da escultura sem pedestal e numa posição de perfil. E assim eliminou a ideia arrogante da superioridade de qualquer líder ou conquistador. Bolívar não aparece cavalgando um ginete ou contemplando do alto o povo latino-americano. Ao contrário, a estátua é constituída apenas pela cabeça de Bolívar, está situada ao nível do chão e olha de perfil para a entrada do auditório. É o libertador, mas que não deixa de ser um cidadão latino-americano, igual a qualquer um de nós outros.

Para ler mais sobre Niemeyer, acesse NIEMEYER: O TEMPO DESBASTADO.

PROFESSOR CÉSAR VERONESE

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