Festa do livro na USP


De 11 a 13 de dezembro 

Os celulares, os kindleys e a internet não param de proliferar, profetas anunciam o fim do papel, mas nada disso inibe os leitores de livros em brochura. Sim, o livro em papel, físico, que a gente carrega embaixo do braço, grifa, anota, cheira, acaricia e com o qual mantém uma relação de fetiche, bicho de estimação, amante amigo ou alter ego…

E para os amantes de livro o maior evento do Brasil é a FESTA DO LIVRO DA USP (até alguns anos atrás conhecida como a FEIRA DO LIVRO DA FFLCH). A Festa (pelas proporções que tomou), já nem pode mais acontecer no prédio da História, e por isso, embora continue a ser promovida pela FFLCH, acontece no prédio principal da Engenharia da Civil e outros anexos.

Festa de verdade, e não um balcão de negócios que prioriza best sellers e não dá desconto algum, como a Bienal do Livro. Festa pelos números, pois são mais de 130 editoras. Pelo preço: todos os livros com pelo menos 50% de desconto. E, sobretudo, pela qualidade dos títulos oferecidos: quase todos de grande valor em todas as áreas. Há poucos best sellers e bobagens do tipo curiosidades. Aliás, como a maioria dos frequentadores é o público acadêmico, as editoras que insistem em títulos mais comerciais são facilmente identificáveis pelo reduzido número de pessoas que cercam suas bancas.

Nenhuma editora expõe o catálogo completo (a Cia. das Letras, por exemplo, tem disponibilizado pouco mais de 200 dos seus mais de 3 mil títulos), mas há títulos que já se tornaram clássicos do evento. Com o risco de cometer algum erro (nenhuma editora anuncia antecipadamente o que irá comercializar), aí seguem algumas boas sugestões. Vale lembrar também que, exceto livros de literatura – muitos dos quais vendem bastante e não raro os leitores deles se desfazem, e por isso são facilmente encontráveis por preços mais acessíveis em sebos e na estante virtual – , os títulos de áreas especializadas raramente são oferecidos nos sebos por preços inferiores aos de livrarias. Logo, a Festa do Livro é uma raríssima oportunidade de adquiri-los por preços bem mais em conta.

Vamos, então, às sugestões de algumas editoras:

  1. 1. COMPANHIA DAS LETRAS. É a mais concorrida de todas. Os títulos disponibilizados são sempre um enigma, pois variam de ano para ano. O certo é que quase todo o catálogo, nas mais diversas áreas, é de alta qualidade. Destaques: a obra completa de Freud (a coleção ainda não foi concluída, mas já foram lançados vários volumes; a numeração não é linear, por isso é possível achar um volume de número avançado sem que um antecedente tenha sido lançado); obras de Hannah Arendt, de Edward Said, Eric Hobsbawm, ótimas traduções de poesia, muitos livros de ensaios…
  2. COSACNAIFY. Como todos sabem, a editora tornou-se uma referência mundial de qualidade editorial, sobretudo nos livros de arte. O catálogo é de tirar o fôlego. Entre tantas maravilhas, vale lembrar: as primorosas e premiadas traduções de Rubens Figueiredo dos clássicos de Tosltoi (GUERRA E PAZ, ANA KARENINA e RESSURREIÇÃO), os livros de Gertrude Stein, o recém-lançado EDUARDO COUTINHO (alentada compilação de anotações, reflexões, entrevistas), a série MITOLÓGICAS de Lévi-Strauss, as recentes traduções (algumas com 80 anos de atraso, dos livros do antropólogo Michel Leiris) e as centenas de publicações sobre artes plásticas, arquitetura, cinema, fotografia…
  3. FUNDAÇÃO PERSEU ABRAMO. Voltada para as ciências sociais, a política e a filosofia, é outra editora que prima pela alta qualidade dos títulos lançados. Um dos destaques é a coleção HISTÓRIA DO POVO BRASILEIRO, que oferece um ótimo panorama como introdução às reflexões sobre a História do Brasil e muito do que permanece em nosso substrato. BRASIL: MITO FUNDADOR E SOCIEDADE AUTORITÁIA e O IMPÉRIO DO BELO MONTE são dois títulos obrigatórios. Outra interessante coleção é a que reúne vários ensaios com visões diferentes sobre os intérpretes do Brasil. Os livros intitulam-se: SÉRGIO BUARQUE E O BRASIL, GILBERTO FREYRE E O BRASIL, RAYMUNDO FAORO E O BRASIL (um dos melhores da coleção), MILTON SANTOS E O BRASIL…
  4. BOITEMPO EDITORIAL. Também voltada para as ciências sociais, a geopolítica, a filosofia e as áreas de humanidades em geral, oferece um número muito grande de títulos de referência. Muito interessante é a coleção ESTADO DE SÍTIO, dos quais é imprescindível o volume VIDEOLOGIAS (uma magnífica reunião de ensaios assinados por Eugenio Bucci e Maria Rita Kehl, mais um prefácio de Marilena Chauí, sobre como a mídia molda o pensamento do cidadão brasileiro). Também de Maria Rita, há o ótimo 18 CRÔNICAS E MAIS ALGUMAS (compilação de textos que estavam dispersos em várias publicações). Outro destaque é a ENCICLOPÉDIA CONTEMPORÂNEA DA AMÉRICA LATINA E DO CARIBE, coordenada por Emir Sader e Ivana Jinkings, obra guia para consultas rápidas sobre a América Latina.
  5. EDITORA 34. Outra referência do mercado editorial brasileiro, seu carro chefe são as traduções (extremamente bem cuidadas) de literatura russa. Há uma variedade muito grande de títulos dos clássicos russos (Dostoiévski, Tolstói, Tchékhov, Turgueniev, Gógol…). O catálogo é imenso e a editora continua a lançar uma nova tradução a cada 15 dias! Entre os clássicos de outras literaturas, há a ótima edição em 3 volumes de uma tradução de Italo Eugenio Mauro da DIVINA COMÉDIA. Destacam-se, ainda, vários títulos essenciais sobre a história da música popular brasileira e volumes de excepcional qualidade dedicados a recortes específicos da MPB (tropicalismo, samba, festivais da canção, vários compositores e intérpretes….). Entre os tantos lançamentos na área de artes, há a coleção A PINTURA: TEXTOS ESSENCIAIS (anunciada para 14 volumes e até agora, salvo erro meu, lançada até o volume 10).
  6. BRASILIENSE. O número de títulos não é tão grande, mas há várias obras de referência, como os livros de Caio Prado Júnior, como FORMAÇÃO DO BRASIL CONTEMPORÂNEO E HISTÓRIA ECONÔMICA DO BRASIL.
  7. FONDO DE CULTURA ECONÓMICA. Especializada em América Latina, traz dezenas de títulos essenciais de filosofia, economia, política e ciências sociais. No ano passado, comercializou a magnífica coleção (em 15 volumes) das OBRAS COMPLETAS DE OCTAVIO PAZ. Esses livros, quase todos esgotados no Brasil, começaram a ser relançados este ano, mas a coleção da FONDO traz raridades de escritos dispersos que não estão em nenhuma outra edição.
  8. ILUMINURAS. Uma editora com cara de “out” e de vários livros que em outra época seriam alcunhados de “alternativos”. Esse comentário não é pejorativo, mas deseja tão somente apontar o frescor que caracteriza o catálogo da ILUMINURAS. O que é um clássico? A discussão é infinita e provavelmente jamais haverá um consenso. É, sem dúvida, uma atitude herética dizer que Dante e Cervantes não são clássicos. Mas o certo é que para muitos leitores um grande clássico não é, às vezes, uma obra consagrada da literatura universal. Pode ser um livro “menor”, mas de valor bastante particular. Essa é a cara de muitos dos títulos que integram o casting dessa editora. Exemplos? CATATAU, do “porra louca” do Leminski, e as delicadezas em raikais de sua ex-companheira, Alice Ruiz.
  9. EDUSP. O nome dispensa qualquer comentário. As publicações são às centenas e o valor de cada livro é inegável. Há, claro, como acontece com todas as editoras universitárias, muitos títulos destinados quase exclusivamente aos especialistas. E há também as dezenas de revistas especializadas, como a Revista USP e a Revista do Instituto de Estudos Avançados, trazendo, sempre, dossiês sobre um enorme número de temas. Essas revistas (algumas de até 400 páginas) costumam ser comercializadas por 5,00 reais.
  10. EDITORA DA UNICAMP. Das universitárias é, ao lado da EDUSP, a melhor. Reedições de textos raros, trabalhos acadêmicos e joias para bibliófilos, como os poemas e cartas de Michelângelo, editados há alguns anos.
  11. EDITORA DA UNESP. Com o mesmo padrão da EDUSP e da EDITORA DA UNICAMP, privilegia trabalhos acadêmicos e obras de referência. Entre as centenas de títulos do seu catálogo, um dos destaques são vários livros, até há pouco tempo inéditos em português, do pensador italiano Norberto Bobbio.
  12. ATELIÊ EDITORIAL. Outra das melhores editoras do país, é voltada principalmente para a literatura. Reeditou vários clássicos (Homero, Virgílio, Descartes…) em novas ou consagradas traduções. Um dos destaques é a edição ilustrada de luxo da DIVINA COMÉDIA, a qual traz um erudito prefácio e notas de João Adolfo Hansen. Há, ainda, a coleção de clássicos da literatura brasileira e portuguesa (embora a alguns desses livros se aplique a designação apenas no sentido da importância histórica, como é o caso do horrendo – um dos livros mais mal escritos da história da literatura – A CARNE, de Júlio Ribeiro). Essas edições, intituladas CLÁSSICOS ATELIÊ, trazem estudos, em geral, aprofundados e fundamentais para orientação da leitura de quem não é especialista em cada autor. São particularmente interessantes os estudos das edições de VIAGENS NA MINHA TERRA, O PRIMO BASÍLIO, A CIDADE E AS SERRAS e MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS. O preço de capa da Ateliê, como da COSACNAIFY, costuma ser salgado. A Festa do Livro é, portanto, uma ótima oportunidade para adquirir livros dessas editoras.
  13. EDITORA GLOBO. O catálogo é extenso e a editora leva apenas uns poucos títulos. Nos dois últimos anos, no entanto, aumentou significativamente sua oferta. Entre outras maravilhas, no ano passado disponibilizou as caixas com as obras completas do Sítio do Pica Pau Amarelo, de Monteiro Lobato, e vários títulos de Hilda Hilst, cuja obra, ao lado da de Clarice Lispector, pode figurar como uma das mais perturbadoras da ficção brasileira contemporânea. Outra grande autora do catálogo da Globo é a alemã de origem romena, Herta Muller, contemplada recentemente com o Nobel.
  14. TASCHEN. Já é possível ter em mãos um número significativo de bons livros de arte sem precisar importá-los e recorrer a uma língua estrangeira. A COSACNAIFY e a TASCHEN estão preenchendo essa grave lacuna do livro no Brasil. Ao contrário do que acontecia em anos anteriores, quando a TASCHEN levava apenas títulos secundários do seu catálogo, nos dois últimos anos ela ampliou respeitavelmente o número de títulos disponibilizados. Das edições de luxo em formato gigante aos pequenos livros, há obras que privilegiam a parte iconográfica e obras que destacam mais o texto. Dos muitos títulos, vale a pena olhar com cuidado a enorme coleção (mais de cem obras) sobre pintura, escultura e panoramas da arte. Essa coleção não tem um título específico (a meu ver uma falha da editora) e os livros são identificados apenas pelo nome do artista (MATISSE, TURNER, PICASSO…); são livros no formato 19X23 e de cerca de 100 páginas. Essa coleção, lançada originalmente na França, é uma das melhores para se iniciar na obra dos mestres da pintura. Os textos são profundos, muito claros e a parte iconográfica é muito boa. O preço de cada volume deverá ser algo em torno de 21,00 a 24,00 reais.
  15. CONRAD. É, sem dúvida, a principal editora de quadrinhos no Brasil. Os preços, mesmo com o desconto, não são muito palatáveis. De qualquer modo, esse tipo de publicação quase nunca entra em promoção nas livrarias. Há clássicos dos quadrinhos brasileiros e estrangeiros e muitos lançamentos.
  16. CAPIVARA. O catálogo é pequeno, mas há sempre algumas preciosidades, como as edições de luxo da COLEÇÃO BRASILIANA ITAÚ , OS BALÕES DE SANTOS DUMONT ou a COLEÇÃO PRINCESA ISABEL. A banca dessa editora não costuma chamar muito a atenção, mas vale a pena garimpar com cuidado.
  17. INSTITUTO MOREIRA SALLES. Sem fins lucrativos, as publicações do Moreira Salles cumprem o papel de resgatar a memória da cultura brasileira. Centrada mais em fotografia e desenho (todas as exposições realizados nos espaços do Instituto no Rio, São Paulo e Poços de Caldas ganham edições em livro), a instituição também se destaca em lançamentos sobre cinema e literatura. Um dos carros chefe são os CADERNOS DE LITERATURA (dois lançamentos anuais), dedicados a um grande autor brasileiro. Esses cadernos não costumam ser reeditados. A “geografia pessoal” de cada autor, ilustrada por fotografias excepcionais e os ensaios inéditos tornam essa publicação algo único no mercado editorial do país. Os CADERNOS (todos em edição de luxo), que custam em média 90,00 reais, são oferecidos a preços que oscilam entre 5,00 e 20,00 reais. Há também a Revista Serrote (com todos os números já lançados), de publicação trimestral.drummond
  18. ALAMEDA. Lança muitos livros na área de Humanidades. Um título de referência para a introdução ao conhecimento dos intérpretes do Brasil é o ótimo livrinho de Bernardo Ricupero: SETE LIÇÕES SOBRE AS INTERPRETAÇÕES DO BRASIL.ricupero
  19. PERSPECTIVA. Os livros são caros e nunca estão em promoção nas livrarias. Portanto, o desconto da Festa do Livro deve ser aproveitado. Voltada para a área de Humanidades, o carro chefe dessa editora são as publicações para teatro. O catálogo é imenso, os textos (em geral de grande densidade) são excepcionais, as traduções muito bem feitas. A qualidade iconográfica, quando há fotografias, deixa um pouco a desejar. De qualquer modo, é a melhor editora do Brasil na área de teatro. Sua coleção mais conhecida, no entanto, é a famosa COLEÇÃO DEBATES, com títulos em diversas áreas de Humanidades. Autores judeus e livros sobre a cultura judaica também são um destaque da Perspectiva.
  20. IMPRENSA OFICIAL. Outra editora que cumpre o papel de resgatar e guardar a memória nacional. Política, produção cultural, artes, direitos humanos são algumas das áreas valorizadas por essa editora. Os lançamentos anuais são muitos, uma boa parte não recebe maior destaque na imprensa e por isso é necessário percorrer a banca com paciência.
  21. EDITORAS DE UNIVERSIDADES. Além das consagradas EDUSP, UNICAMP e UNESP, a Festa do Livro dá espaço a editoras de várias universidades de outros estados do Brasil. São, na maioria das vezes, títulos restritos ao mundo acadêmico e aos especialistas. Livros raras vezes resenhados em jornais ou revistas de maior circulação. Por isso é recomendável se deter com cuidado nessas bancas. É possível encontrar livros de interesses bastante particular que nem suspeitaríamos existir.

Enfim, essas são algumas breves indicações de editoras e obras, um número, na verdade, minimalista diante dos números superlativos da Festa do Livro. A ditadura se foi, o Brasil é hoje um dos maiores mercados editoriais do planeta, e, apesar dos papagaios nos programas matinais, dos padres cantores e das mulheres-frutas, felizmente muita gente – com licença pelo lugar comum – tem sede de leitura. O calor de São Paulo está insuportável há um mês. Então matemos pelo menos a sede do espírito.

FESTA DO LIVRO 2014

ONDE: USP (CAMPUS ARMANDO SALES DE OLIVEIRA, Zona Oeste, Butantã), Prédio da Engenharia Civil e mais três anexos

QUANDO: de quarta-feira (11.12) a sexta-feira (11.12.13)

HORÁRIO: das 9h00 às 22h00

ENTRADA: franca

FORMA DE PAGAMENTO DOS LIVROS: dinheiro, cartão e cheque. É aconselhável levar dinheiro. As filas para pagamento com cartão são muito mais demoradas. E, no caso de um problema com o sistema de cartões, as filas aumentam ainda mais.

DESCONTO: todos os livros já estarão com preços pelo menos 50% abaixo do preço de capa de livraria. Portanto, as editoras não dão qualquer outro tipo de desconto.

ESTOQUES: nas editoras muito procuradas (como a CIA. DAS LETRAS, a COSACNAIFY, a 34 e o INSTITUTO MOREIRA SALLES) alguns títulos esgotam-se rapidamente; uns são repostos, outros não. O ideal é ir no primeiro ou segundo dias. Na sexta, a oferta já é inferior.

PROFESSOR CÉSAR VERONESE (CPV)

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