O dia que durou 21 anos, de Camilo Tavares


 

Em 2006, o diretor Silvio Da-Rin realizou HÉRCULES 56, documentário sobre duas organizações revolucionárias (a ALN e o MR8) que, em 1969, sequestraram o embaixador americano Charles Elbrick e exigiram a libertação de quinze presos políticos, levados ao México, no avião Hércules, prefixo 56. O documentário discute as causas e consequências da luta armada contra o regime militar.

Em 2013, estreia O DIA QUE DUROU 21 ANOS, primeiro longa de Camilo Tavares. Apoiando-se em materiais inéditos dos arquivos da Casa Branca e centrado no embaixador americano Lincoln Gordon, o filme reconstitui o trabalho decisivo da CIA para a derrubada do governo de João Goulart e a instauração do regime militar no Brasil.

Em 1959, o triunfo da Revolução Cubana faz os EUA se questionarem: por que deixamos isso acontecer? É nesse contexto que Lincoln Gordon, acadêmico de Harvard e que fez carreira escrevendo sobre a economia brasileira, é enviado ao Brasil. Seu objetivo é impedir o estabelecimento do comunismo em outro país do Ocidente.

A década de 1960, como declara no filme Plínio de Arruda Sampaio, é um momento crucial de nossa história, quando o país deseja se democratizar e realizar a mais do que urgente reforma agrária. Esta, como sabemos, era uma das pautas do governo de Jango. Gordon explora este argumento para convencer Kennedy de que o governo de Goulart era de extrema esquerda e, apoiado pelo sindicalismo, criaria a base para a implantação do comunismo no Brasil. A expropriação de duas empresas americanas no Rio Grande do Sul, pelo então governador Leonel Brizola, cunhado de Jango, são, na visão do embaixador, provas decisivas do perigo vermelho.

João Goulart e Lincoln Gordon
O dispositivo começara a ser montado em julho de 1962(…) Um ano depois, Gordon advertira o Departamento de Estado:

“Parece-me cada vez mais claro que o objetivo de Goulart é perpetuar-se no poder através de um golpe como o de Vargas em 1937′(…)

“Se Deus é realmente brasileiro, Goulart terá uma recaída do problema cardíaco que sofreu em 1962”

 

O GOLPE DE 1964

Gordon contará mais tarde com a ajuda de Vernon Walters, agente da CIA que vem para o Rio de Janeiro para organizar a conspiração contra Goulart. Os EUA injetam milhões de dólares para financiar campanhas de governadores que fizessem oposição a Jango, com o propósito de enfraquecê-lo ou de impedir sua reeleição.

O golpe é articulado. Petroleiros, destróieres e porta-aviões são deslocados da base americana em Aruba para Santos. As forças armadas de vários estados brasileiros são convocadas. O general Olympio Mourão é o primeiro a se aventurar, deslocando-se de Juiz de Fora para o Rio de janeiro. Jango vai para Brasília, de lá para o Rio Grande do Sul e depois para o Uruguai. Por que não resistiu? Talvez por conhecer a fraqueza de suas forças militares e evitar o derramamento de sangue.

Foi um golpe fácil. O inimigo não encontrou resistência. Dois dias depois, em 2 de abril de 1964, Ranieri Mazzili, Presidente da Câmara dos Deputados, assume o governo transitório. Um papel meramente decorativo, pois o governo era exercido pelos ministros militares. A Casa Branca reconhece o governo de transição, sem considerar-se que esse governo era ilegal, pois Goulart não havia renunciado à Presidência. Segue-se o Plano de Contingência, também articulado pela CIA, para empossar Castelo Branco, segundo Gordon “um católico devoto e admirador dos EUA”. E o que é bom para os EUA é bom para o Brasil passa a rezar a cartilha oficial.

Castelo Branco e Lincoln Gordon

A MANIPULAÇÃO DO PÚBLICO

Dado o golpe, Gordon e seus agentes se encarregarão de uma campanha junto à opinião pública para a sua legitimação. São criados o IPES e o IBAD. Ambos funcionam como fachada. O primeiro, oficialmente, tem o objetivo de realizar pesquisas de estudos sociais. Mas sua função verdadeira é criar propaganda política para que a população aceite o golpe. Filmes de propaganda são produzidos para serem exibidos nos cinemas, nos intervalos de almoço nas empresas e também em praças públicas de cidades do interior.

O IBAD (Instituto Brasileiro de Ação Democrática) oculta sob sua bandeira uma função nada democrática: comprar deputados. Em outro depoimento de Plínio de Arruda Sampaio (deputado federal entre 1962 e 1964), ele revela ter sido procurado por membros do IBAD quando realizava sua campanha. Diante da oferta de dinheiro, Plínio pergunta-lhes: mas por quê? Informam-lhe que só desejam que ele defenda a democracia. A resposta do candidato é: “mas eu sou um democrata e não preciso de dinheiro para defender a democracia!”.

Ao IPES e ao IBAD vem somar-se o SNI (Serviço Nacional de Informação) e o AI-5. A Câmara de Comércio dos EUA em São Paulo passa a apoiar a violência do AI-5. Delações, prisões, torturas e assassinatos tornam-se rotina. A campanha procura propagar o medo por todo o território nacional e o SNI passa a infiltrar agentes em bancos e empresas para detectar possíveis opositores do regime. Não à toa, todos os presidentes posteriores passarão a ter relações diretas com o SNI e alguns, como Médici e Figueiredo, chegaram a ser chefes do mesmo.

O SNI, como o IPES e o IBAD, mantinha sua fachada. Seu trabalho era informar ao DOPS, que, junto ao DOI-CODI (unidades militares ligadas às grandes unidades do Exército), ordenavam as prisões, torturas, desaparecimentos e mortes. A tortura é legitimada.

É nesse contexto que a ALN (Ação Libertadora Nacional) e o MR8 (Movimento Revolucionário 8 de Outubro) realizarão, em 1969, o sequestro do embaixador americano no Brasil, Charles Elbrick. A opressão dos trabalhadores, a interferência da CIA nos negócios internos do Brasil e sua conivência com o regime militar são os argumentos dos sequestradores para justificar sua ação. A exigência, lida em cadeia nacional de rádio e televisão, exige a libertação de 15 prisioneiros sob o poder do Exército. Esse é o mote do filme HÉRCULES 56, de Silvio Da-Rin.

BALANÇO

O documentário de Camilo Tavares dá voz aos agentes desse conturbado momento político de nossa história: militares (do regime e seus opositores), políticos, o próprio Gordon, historiadores brasileiros e norte-americanos. Da polifonia de vozes o espectador pode perceber a verdade histórica. O filme não faz julgamentos, apenas expõe.

A julgar pelo que foi o comunismo nos países onde vigorou, podemos imaginar que, se ele tivesse sido instaurado no Brasil, como temia o governo americano, nossa história provavelmente pouco diferiria da de muitos países do Leste Europeu ou da China. Essa hipótese, no entanto, não justifica absolutamente as ações da CIA, do governo americano e dos presidentes militares. As explicações, entre outras, de Jarbas Passarinho, um dos signatários do AI5, e do general Newton Cruz, um dos chefes do SNI, são pífias. Lincoln Gordon, por sua vez, ao avaliar os desdobramentos de suas ações, particularmente as torturas e mortes, explica-se, sorrindo, com essas palavras: “Isto é difícil de justificar oficialmente. Mas lamento, de qualquer maneira”.

LOCAL: O DIA QUE DUROU 21 ANOS está em cartaz apenas

  1. 1. na RESERVA CULTURAL (Av. Paulista, 900 – Prédio da TV Gazeta) e
  2. 2. no ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA do SHOPPING FREI CANECA

HORÁRIOS: conferir no jornal ou no site dos respectivos cinemas

OUTROS FILMES SOBRE A DITADURA MILITAR BRASILEIRA

Sobre o regime militar no Brasil, estão disponíveis para empréstimo no acervo de filmes do CPV vários títulos essenciais:

1. HÉRCULES 56, de Silvio Da-Rin (sobre o sequestro do embaixador Charles Elbrick)

2. JANGO, de Silvio Tendler (sobre a ascensão e queda de João Goulart)

3. CONDOR, de Roberto Mader (sobre a aliança entre os governos militares do Brasil, Chile e Argentina com a CIA)

4. CABRA CEGA, de Toni Ventura (sobre uma organização clandestina em São Paulo)

5. ZUZU ANGEL, de Sergio Rezende (sobre o assassinato de Stuart Angel Jones, filho da estilista Zuzu Angel, posteriormente também assassinada pelo regime)

6. VLADO – 30 ANOS DEPOIS, de João Batista Andrade (sobre o assassinato do diretor de jornalismo da TV Cultura)

7. CIDADÃO BOILESEN, de Chaim Litewski (premiadíssimo documentário sobre a conivência da sociedade civil – por meio de empresários e banqueiros – com o regime militar)

8. PANAIR DO BRASIL, de Marco Altberg (documentário raro e pouco conhecido sobre o desmantelamento da companhia aérea pelos militares)

LIVROS SOBRE A DITADURA

O diretor de O DIA QUE DUROU 21 ANOS é Camilo Tavares, filho de Flávio Tavares, um dos 15 prisioneiros trocados pelo embaixador Charles Elbrick, levado ao México, em 1969, no Hércules 56.

Flávio Tavares, um dos co-produtores de O DIA QUE DUROU 21 ANOS, vive em Porto Alegre e é um dos melhores jornalistas que o Brasil já produziu. Sobre sua prisão, escreveu um extraordinário livro intitulado MEMÓRIAS DO ESQUECIMENTO. Tendo convivido com vários presidentes, escreveu também outro livro de leitura obrigatória sobre os bastidores do poder, O DIA EM QUE GETÚLIO MATOU ALLENDE. Além da enorme importância histórica de ambos os livros, vale destacar a impecável elegância estilística do autor. A seguir, leia alguns excertos de cada obra.

1.MEMÓRIAS DO ESQUECIMENTO

“O adulador sempre repartiu salamaleques pelos labirintos do poder como se tomasse café na cozinha da própria casa. Sendo um rebotalho histórico das capitanias hereditárias da Colônia, jamais foi um estranho na política, mas nunca tivera prestígio nem desfrutara de status. Nem sequer no regime fechado do Estado Novo. Era um intrometido apenas.

A partir de 1964, no entanto, quando se entroniza o dogma da “segurança nacional”, baseado na suspeita de que toda reivindicação é uma sabotagem subversiva, o adulador desponta como modelo. E, logo, avança um degrau e se transforma no delator, incorporando-se ao cotidiano político com força arrebatadora e poder ostensivo. O alcaguete só não foi elevado à condição de “herói patriótico” (como na Alemanha de Hitler, na Itália fascista e na URSS de Stalin) porque o sarcasmo público o reduziu a uma expressão satírica: o “dedo duro”. (Cap. II, O Cheiro no Ar, pp.181-182)

“Com os olhos de hoje é fácil afirmar que o foco guerrilheiro foi um gesto romântico, uma experiência bucólico-revolucionária ou uma aventura pouco condizente com a realidade ao seu redor. (Até mesmo porque nós fomos os derrotados e qualquer teoria é irrefutável para explicar a derrota.) Era impossível, no entanto, perceber isso antecipadamente, com os olhos da época. A globalização daqueles anos era o exemplo do Vietnã em armas desafiando a maior potência militar do mundo, ou a revolução a 70 milhas de Miami, ou o Black Power, Angela Davis e todos aqueles negros sacudindo o poder que os oprimira durante séculos. Eram aqueles anos em que o Che Guevara saiu de Cuba e esteve “em nenhuma parte”, armas na mão no Congo. Ou, depois, na Bolívia, quando – morto – passou a estar em todas as partes: nas barricadas dos estudantes no maio de 1968 na França, na Alemanha, no México ou nas duas maiores cidades do Brasil. A globalização de ontem não era a do ansioso consumo irrestrito de hoje, mas estávamos também globalizados naqueles anos 60, quando esta palavra nem sequer era usual. A capacidade de indignar-se invadia o globo, nos globalizava.” (Cap. V, A Guerrilha, pp. 212-213).

( MEMÓRIAS DO ESQUECIMENTO, Record)

2.O DIA EM QUE GETÚLIO MATOU ALLENDE

“Um encontro casual do jovem estudante Flávio com Salvador Allende, na China, em 1954, logo após o suicídio de Vargas, é o ponto de partida deste livro: a História recente do poder é contada na sua realidade crua e irônica.

Flávio Tavares penetrou nos desvãos do poder como líder estudantil, nos anos 1950, e ampliou esse horizonte como jornalista político nas décadas seguintes. Suas observações transformam-se, aqui, num retrato humano e amoroso, quase mágico, mas também implacável, sobre “as figuras empoleiradas no poder”, suas paixões e fraquezas.

A História do último meio século desfila sob um ângulo novo. Os fascinantes momentos finais de Getúlio definem a trilha do livro, “com o espelho do destino à nossa frente”, e os relatos sobre Lott, Juscelino, Jânio Quadros e João Goulart conduzem aos segredos do golpe militar de 1964.

Documentos secretos da Embaixada norte-americana ou diálogos inéditos de Kennedy e Jango revelam aspectos novos da presença dos EUA no golpe de Estado no Brasil.

Os relatos sobre figuras estrangeiras – Che Guevara, Perón, De Gaulle, Stalin – ou a mágica narrativa sobre Frida Khalo compõem uma visão ainda mais profunda do encanto e da fragilidade do poder.” (Extraído da apresentação do livro)

“Ao iniciar este livro, pensei em dois suicidas, aos quais me vi unido pelo acaso e entre os quais fantasiei ter estabelecido uma ponte. Ao longo da escritura, percebi que do dia 24 de agosto de 1954 ao 11 de setembro de 1973 não há apenas os cadáveres de Getúlio Vargas e Salvador Allende. Há vários golpes de Estado, a começar pelo Brasil, e que, logo, escorrem pela América Latina como o líquido duma arrebentada cloaca de esgoto. E, no profundo da retina, ficou-me a imagem de que, nas minhas conversas no restaurante do hotel em Pequim, naquele dia dos finais de setembro de 1954, Getúlio matou Allende. Sim, porque quando Allende baixou os olhos e pensou em silêncio sobre o que eu lhe contava do suicídio de Getúlio, começou a formar-se o espelho em que ele se mirou, 19 anos mais tarde, na sua manhã última e final, no palácio de La Moneda, em Santiago do Chile.

O que é a vida, senão uma sucessão de espelhos que se interpõem à nossa frente?”

(O DIA EM QUE GETÚLIO MATOU ALLENDE E OUTRAS NOVELAS DO PODER, Record)

Cinema político, História e memória. Tríade essencial para a formação de uma consciência crítica contra a manipulação e a alienação.
Professor Verô

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