Orientação para as leituras das obras da Fuvest e Unicamp 2016


As Bancas Examinadoras da FUVEST e da UNICAMP anunciaram suas listas de leituras obrigatórias para os vestibulares 2015-2016. A FUVEST manteve sua lista. A UNICAMP repetiu a lista da FUVEST e acrescentou outras obras. As listas completas estão no final desse artigo.

As leituras obrigatórias, com exceção do livro Sonetos, de Camões (Classicismo), centram-se nas três mais importantes estéticas literárias brasileira e portuguesa: Romantismo, Realismo / Naturalismo e Modernismo, com algumas incursões por outras estéticas do final do século XIX, como o Impressionismo e o Expressionismo.

Se você é candidato a uma vaga na FUVEST e/ou UNICAMP, deve organizar imediatamente suas leituras, a fim de que possa concluí-las sem atropelo até a época das provas. Não há necessariamente uma ordem de leitura das obras, mas a ordem cronológica das estéticas pode facilitar o entendimento, pois as provas têm cobrado muitas questões de intertextualidade entre os livros. As relações de favor presentes em Til (Romantismo), por exemplo, serão encontradas, numa outra chave, nas Memórias Póstumas de Brás Cubas (Realismo) e em Vidas Secas (MODERNISMO).

E como organizar o tempo de leitura? Se você reservar de meia hora a uma hora por dia, conseguirá ler tranquilamente todos os livros até a realização das provas. O rendimento das leituras, no entanto, varia muito. É inútil reservar um determinado número de minutos tentando estabelecer uma correspondência com a extensão do texto lido. Livros como A Cidade e as Serras e Viagens na Minha Terra apresentam dificuldades estilísticas infinitamente superiores a obras como Capitães da Areia ou Vidas Secas, sem afirmar que estas sejam obras inferiores. Trata-se apenas de estilos muito diferentes.

É interessante também, na medida do possível, não interromper a leitura no meio dos capítulos. A fragmentação excessiva pode comprometer o aproveitamento dos conteúdos. E pode ocorrer de, durante o tempo da leitura, você entusiasmar-se muito com a história e continuar lendo o texto para além do tempo programado. É uma atitude válida, desde que não interfira muito no programa de estudos que estabeleceu e que implica o tempo reservado às outras disciplinas.

Resumos ajudam? A intenção das Bancas que organizam vestibulares com leituras obrigatórias é fazer o candidato não perder tempo com decorebas inúteis e conhecer razoavelmente bem algumas obras essenciais de sua língua materna e que constituam um repertório mínimo de sua cultura geral. Por isso, costumam formular questões inteligentes que privilegiam os candidatos que de fato conhecem as obras. E aí a leitura integral dos textos torna-se imprescindível.

Por outro lado, as Bancas às vezes “viajam” um pouco na escolha das obras. É o que acontece, por exemplo, com o livro Viagens na Minha Terra. É uma obra extraordinária, mas bastante difícil para a maioria dos candidatos. O livro supõe um leitor familiarizado com a história, a política, a cultura, a literatura e a arquitetura portuguesas, experiência que dificilmente um adolescente já acumulou. Junte-se a isso um vocabulário que, embora inovador para a época em que a obra foi publicada, hoje está muito distante do universo de um adolescente do século XXI. Em outras palavras, por mais que o candidato se esforce, irá se deparar com grandes dificuldades na leitura.

Em casos como esse, os resumos podem ser muito úteis, pois orientarão a leitura que, assim, terá um rendimento maior. Mas há resumos e resumos. Na internet, por exemplo, proliferam resumos que não passam de paráfrases dos enredos, o que pouco contribui para a preparação do candidato. Por outro lado, existem resumos muito bem feitos e que são, na verdade, análises acuradas, sempre bastante proveitosas, embora não substituam a leitura integral do texto. Na verdade, ambos se complementam.

Um dos problemas da leitura antecipada dos resumos é ficar sabendo “o final da história”. E o elemento surpresa é um dos ingredientes que levam o leitor a não abandonar a leitura.

Para melhor aproveitamento das leituras, é importante ter em mãos as melhores edições de cada obra. A Editora Ateliê Editorial desenvolve um respeitável projeto de reedição de clássicos das literatura brasileira e portuguesa. As edições são acompanhadas de excelentes estudos críticos e centenas de notas de rodapé esclarecedoras de tudo aquilo (vocabulário, topônimos, referências históricas e filosóficas…) que representaria um possível obstáculo durante a leitura. São, portanto, edições muito didáticas e as mais adequadas para o candidato.

Infelizmente, Ateliê só publica obras de autores cujos direitos autorais já caíram no domínio público. Estão disponíveis, portanto, as edições de SonetosViagens na Minha Terra, Til, Memórias de um Sargento de Milícias, Memórias Póstumas de Brás Cubas, O Cortiço e As Cidades e as Serras. Obras modernistas não integram a coleção. E não há nenhuma edição especial com estudos críticos dessas respectivas obras. Nesse caso, as análises feitas por bons professores são essenciais.

viagens cidade

cortico sargento til

Quanto às edições da Ateliê, frisaremos algumas observações. A edição de Viagens na Minha Terra é a melhor edição do livro já lançada no Brasil. A única que traz um verdadeiro estudo crítico esclarecedor dos meandros do texto. O estudo é longo, a linguagem é um tanto “pesada” e algumas questões discutidas extrapolam o nível de cobrança dos vestibulares. Sua leitura, no entanto, é útil porque ajuda a apreciar as sutilezas do livro e a complexidade das questões nele discutidas.

A edição de As Cidades e as Serras apresenta um estudo de Paulo Franchetti, renomado professor da UNICAMP. Esse estudo apresenta uma tese original sobre uma das questões centrais do romance: a de que as transformações realizadas por Jacinto em sua propriedade são mais de natureza particular e até mesmo estética do que propriamente de um projeto de mudança da sociedade portuguesa. A crítica tradicional interpreta o desfecho do romance como uma alegoria de que as mudanças realizadas por Jacinto seriam um dos caminhos para o reerguimento econômico de Portugal no final do XIX. A crítica de Franchetti existe há alguns anos, mas a FUVEST já cobrou várias vezes esse tópico em suas provas e sempre insistiu na crítica tradicional como resposta correta, embora nunca dando como alternativa a crítica de Franchetti. Como agora a obra consta da lista da UNICAMP e Franchetti integra o corpo docente daquela universidade, é bom ficar alerta. Nossa sugestão é: se, eventualmente, essa questão (sobre o significado do desfecho do romance) fosse cobrada na prova dissertativa da UNICAMP, a melhor saída seria fazer uma síntese de ambas as críticas: “Segundo a crítica tradicional….”; “No entanto, a crítica mais recente…” .

O estudo introdutório da edição de Til, ao contrário do que acontece com os demais volumes da Ateliê, não é interessante. É um estudo que recua às origens da literatura, estabelece um grande número de relações entre o romance e outras obras e, no final das contas, apenas tenta dar uma importância que esta obra de Alencar simplesmente não tem.

O CPV Vestibulares e a Editora CPV oferecem excelentes análises das obras das leituras obrigatórias, orientadoras e esclarecedoras das leituras, não pretendendo substituir a leitura integral dos textos, essencial para as provas.

Existem também alguns filmes baseados nas obras. O filme de O Cortiço é muito ruim. Memórias Póstumas de Brás Cubas possui duas versões cinematográficas, nenhuma péssima, mas ambas muito distantes da grandeza do livro. Capitães da Areia teve uma adaptação vergonhosa, num estilo “macumba para turista”, voltada para a exploração apenas do pitoresco da história e ignorando a dimensão política do romance, que é seu aspecto mais interessante. Já Vidas Secas teve uma sorte feliz: o filme é muito bem feito e fiel ao livro. Lisbela e o Prisioneiro é uma versão cinematográfica mais comercial, mas não desprezível.

No acervo de filmes do CPV estão disponíveis os dvd’s de Vidas Secas e de Lisbela e o Prisioneiro. Existe também a edição americana do filme OUR BELOVED MONTH OF AUGUST (AQUELE QUERIDO MÊS DE AGOSTO), de Miguel Gomes, revelação recente do cinema português. O filme só foi lançado nos EUA, o título é em inglês mas é falado em português. É um belíssimo filme que passeia pelo interior de Portugal flagrando vários aspectos da cultura popular, o que ajuda a entender alguns elementos valorizados pelo autor narrador de Viagens na Minha Terra.

Estamos em março, a prova de literatura da FUVEST será em novembro e a da UNICAMP apenas na 2ª. Fase, em janeiro de 2016. Portanto, você deve organizar imediatamente suas leituras, para que possa concluí-las com tranquilidade.

Dica: a Ateliê Editorial costuma fazer, em seu site, promoções de um kit com os livros das leituras obrigatórias da FUVEST. O preço é sempre inferior ao das livrarias. Como promoções não são permanentes, você deve checar no site da Editora se o kit ainda é oferecido.

Fuvest livros obrigatórios vestibular 2016

  • Viagens na minha terra – Almeida Garrett;
  • Til – José de Alencar;
  • Memórias de um sargento de milícias –  Manuel Antônio de Almeida;
  • Memórias póstumas de Brás Cubas – Machado de Assis;
  • O cortiço –  Aluísio Azevedo;
  • A cidade e as serras – Eça de Queirós;
  • Vidas secas –  Graciliano Ramos;
  • Capitães da areia – Jorge Amado; e
  • Sentimento do mundo – Carlos Drummond de Andrade.

Unicamp livros obrigatórios vestibular 2016

  • Viagens na minha terra – Almeida Garrett;
  • Til – José de Alencar;
  • Memórias póstumas de Brás Cubas – Machado de Assis;
  • O cortiço –  Aluísio Azevedo;
  • Capitães da areia – Jorge Amado; e
  • Sentimento do mundo – Carlos Drummond de Andrade.
  • Sonetos, Luís de Camões; 
  • “Amor”, do livro Laços de Família, Clarice Lispector.
  • “A hora e a vez de Augusto Matraga”, do livro Sagarana, Guimarães Rosa.
  • “Negrinha”, do livro Negrinha, Monteiro Lobato
  • Lisbela e o prisioneiro, Osman Lins.
  • Terra Sonâmbula, Mia Couto.

 

Professor César Veronese (CPV Vestibulares)

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